domingo, 30 de outubro de 2011

Capítulo 2 - O sopro do Feiticeiro (parte i)

"Sabe alguma coisa sobre o assassino de Kanti Lornam?" Um jovem feiticeiro de origens coreanas e japonesas perguntou ao oficial da Resistência. Thaiko Sung - o único herdeiro de uma rica família de feiticeiros - tinha ficado apavorado quando ouvira que alguém tinha morto uma das mais importantes aias da Princesa Swerdinada.

Eles estavam num café em Cyborg Town. Enquanto o oficial da Resistência acendia um cigarro, os seus olhos castanhos fixaram-se nos de Thaiko Sung, um feiticeiro de apenas onze anos e o único sobrevivente da família Sung. Todos os parentes deles tinham sido assassinados como consequência dos vários incidentes com as poderosas famílias Japonesas do Norte. Se havia alguém que estava inocente naquela história, era ele. Uma das pistas apontava porém para um homem que tivesse mãos pequenas... só podia ser um rapaz manipulado por um mestre da Magia Negra mais velho...Thaiko era um grande amigo de Sara, e ele próprio assegurara às autoridades Bellantes que ele jamais se atreveria a magoar a Família Lornam. Talvez as famílias Japonesas tivessem alguma coisa a ver com isso...

- Desculpa lá, puto. Por muito que as pistas apontem para alguém das famílias de Bruxos Japoneses, isso não é suficiente. - Comentou o Tenente da Resistência, a Guarda Imperial da Bellanária, ao soprar uns anéis de fumo. - A carta veio de uma fábrica Italiana e a cicatriz da arma que foi usada no crime não tinha sinais de um típico corte feito por uma lâmina Japonesa. Não achas que serias o primeiro logo que soubéssemos de alguma coisa?

O jovem feiticeiro acenou com um ar tímido, ao pôr a mão na mesa, aborrecido.

- Eu sei...É só porque isto tudo é tão injusto! Não podem culpar pessoas inocentes... Muito menos a mim! Eu nunca nutri um sentimento de ódio pela Princesa Swerdinada, juro! Se ao menos eu conseguisse lembrar-me do que aconteceu naquela noite...mas não consigo! Foi a minha primeira noite como um bruxo adulto, eu vinha com as roupas do meu Pai. Depois de ter entrado num táxi para o Cavalheiro, não me lembro de mais nada...

Ele bem que tentava controlar os sentimentos, mas as lágrimas fugiam-lhe dos olhos.

- Não sei quem é que matou a Senhora Kanti, mas esse homem deve ser realmente horrível para fazer tal coisa!

O outro suspirou, já habituado a aquelas coisas, e deu uma palmadinha nas costas do jovem Sung, num gesto quase paternal.

- Bem vindo ao Mundo dos Bruxos, jovem Sung. - Sentindo os joelhos de Thaiko mais perto dele, o oficial da Resistência abraçou o rapaz. Todos os dias, ele via rapazes como Thaiko: abandonados ao destino, sem saberem que tipo de mestre é que haverão de escolher. Rapazes órfãos, que não tinham ninguém no mundo. Isto acontecia frequentemente naquele mundo cheio de ódio e de sangue. Por vezes, as vítimas ficavam como aprendizes dos assassinos e ninguém dava por isso.

Passou um mês, e ninguém se atreveu a dizer uma palavra sobre o assassinato de Kanti Lornam em Cyborg Town. As únicas pistas eram as marcas de sangue deixadas no chão do salão do Cavalheiro. Veio um especialista, e este disse à Resistência que eram caracteres Japoneses, antigos, provavelmente do tempo do Assassino do Amor, há mil anos atrás. O que ele viu é que um deles significava "filha" ou talvez "criança". As cicatrizes no pescoço da vítima diziam que isto tinha sido muito bem planeado. O assassino sabia exactamente quando é que devia matar e as saídas que usaria para escapar do local do crime. Tinham estado mais de cem pessoas naquele salão, e todas elas tinham tido os olhos postos no palco. Para se cometer um acto tão vil era preciso que o assassino fosse engenhoso e se movesse silenciosamente como uma sombra para agarrar no corpo de Kanti, e depois, atacá-la tal como uma víbora, matando-a sem que ninguém desse por isso! Claro, tinham estado todos bêbados no feitiço que ele tinha tecido sobre o Cavalheiro para que reparassem num homem no palco.

Kanti Lornam era uma apsara - uma fada celestial, muito semelhante com a kinnara mas sem asas ou quaisquer ornamentos no corpo elegante. Com mais de trezentos anos, ela ainda amava o seu querido feiticeiro Farzad Lornam. Embora já fosse de uma certa idade, ela continuava com um aspecto gracioso e belo.






quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Lentamente, a Lua se esconde...

Roshini observava, esfregava os olhos, fechava-os e continuava a ver, atónita e com a raiva a subir-lhe às tempôras, o seu tio a seduzir aquela rapariga inocente. Ele não só queria conquistar o Império da Bellanária através da Lua dos Sonhos, queria destrui-lo através da Guerra entre as várias classes e o Norte e o Sul! Que podia fazer, o que poderia fazer?
- Desejais um pouco de Frambinam, Princesa Sarvahdinada? - A voz falsete e compassada, monocórdica do homem sussurrou, ao estalar os dedos e prontamente, mãos invisíveis trouxeram uma garrafa de cristal adornada com uma fada pintada de vermelho.


A princesa corou, espantada. Mas há pouco tempo ele não queria violá-la? Tinha apenas dezassete anos, e não sabía que as bebidas alcoólicas podem derreter a timidez de qualquer um. Também estava muito confusa: aonde é que estaria o homem que a tinha salvado quando ela ainda tinha dez anos? Com o cabelo negro a pender dos ombros de chocolate, ela fixou o seu olhar de canela no homem alto e forte, com um corpo que se assemelhava ao mármore branco e frio! Com aquele rosto de mais de mil anos, o nariz adunco, os olhos verdes a observarem-na cuidadosamente como se ela fosse uma obra de arte, os lábios a desejarem-na com um sorriso carnívoro e sedutor...tudo isso lhe fazía uma enorme confusão. E mesmo que ainda não tivesse provado o licor de framboesa, já sentia uma certa tontura, uma loucura que lhe dava uma enorme vergonha!


- S-sim... - Ela murmurou, num suspiro, a perguntar-se como é que um homem tão feio de cara podía ser tão atraente no corpo, naquele corpo esguio e atlético.


As garras dele passearam no corpo dela, enquanto ela respirava bem fundo, sentindo o sangue a subir-lhe à cabeça a uma velocidade estonteante. Di Euncätzio Samiel - era a primeira vez que se sentia orgulhoso pelo nome que tinha, e a pronúncia em Chinês tornava-o cego ao amor. Do fundo daquilo que ele tinha, apodrecido no interior do seu peito, ele amava realmente a princesa humana, e mesmo que a desonrasse, não tinha remorsos nenhuns acerca disso. Os dentes afiados dele lamberam com prazer o licor que deitou por cima dos ombros dela, fazendo com que Sarvahdinada tivesse um calafrio. O cheiro a álcool fez a sua pele arder, e no entanto, o sabor a framboesa fresca era o mesmo. Recordou-lhe daquele dia em que o tinha visto, há sete anos atrás. Esquisito como aquilo a fazia sentir-se bem e nervosa ao mesmo tempo. No entanto, isso também lhe fez lembrar que tinha sido por causa das Nagas e de Rusalka que a Guerra tinha começado. E o país bellante...seria que o Assassino do Amor já tinha previsto aquilo tudo...? Seria que ele a tinha conduzido até Kelzharam de propósito?

Aquela figura anónima, aquele homem que se escondia por detrás daquelas vestes sumptuosas e imponentes...seria ele capaz de amar? Tocou ao de leve o rosto oval dele...era tão diferente do dela, enrugado, como se fosse um velho pergaminho de bambu. O nariz adunco inalou profundamente o perfume que vinha do pescoço dela.

- Como é que é possível...? Como é que é possível gostardes assim tanto de mim se odiais o Império e a cidade onde eu cresci? - Ela exclamou num tom muito triste, cheia de saudades dos seus pais e da cidade que a tinha visto nascer e tornar-se naquela rapariguinha que desaparecera, há sete anos atrás.

As garras do bruxo limitaram-se a acariciar aquelas costas frágeis e delicadas, consequentemente fazendo com que a princesa tivesse um ligeiro calafrio. O hálito do Assassino do Amor chegou às orelhas dela, naquela voz falsete, metálica e fria como uma adaga letal!

- Só sei que esses teus olhos de almíscar me enfeitiçam, princesa. - Aquela voz, tão sibilante, tão intensa, fez com que um súbito calor viesse à espinha da jovem.

Sarvahdinada quase que gaguejou quando ia começar a falar, o calor da água vulcânica fazendo com que os dedos dela se apercebessem da pele áspera e masculina do Assassino do Amor quando encostou, sem querer, a cabeça perto da dele.

- Os meus olhos? Que têm eles de tão especial?

- Ainda há inocência neles... - Ele murmurou num tom que podia passar por carinhoso. - Não deve haver uma criatura mais pura como tu, minha querida!

Uma vez mais, ela corou, e suspirou, e sentiu uma estranha vontade de o abraçar. Mas seria correcto?




terça-feira, 13 de setembro de 2011

Rosa Americana


Uma pequena canção que escrevi enquanto lia alguma literatura oriental - ultimamente, tenho andado um pouco obcecada com o tema da Ásia nos Anos 20, 30 e 40 por causa de algumas das minhas personagens serem orientais. Talvez use esta canção para um dos meus livros.

Pequena rosa,
Toquei nos seus (dela) cabelos,
Roubei-lhe um sorriso, àquela criatura pedante,
Orgulhosa da sua nacionalidade,
Como numa pintura a óleo, os selos,
Pintados com o vermelhos dos seus lábios,
Ela não se assemelha a uma criatura de pura virgindade,
Ela é uma rosa Americana, a minha querida e misteriosa amante!




A minha pequena rosa,
Conhecía-a numa esquina à beira do mercado Chinês,
Através do perfume Francês azul que saía dos seus olhos,
Fiquei encantado, e através da cor da sua pele sedosa,
(Tão diferente da minha pele horrorosa!),
E as suas pétalas eram os folhos
Do vestido, por aquela donzela com delicado tecido,
Eu fiquei enternecido!


Quando o vento lhe roça, gentilmente,
Nos cabelos de porcelana,
Creio que ela tem medo de mim,
Aquela tentação do país do ocidente,
Mas ela, ela é uma rosa tirana,
Isto poderia ter outro fim,
Assim, eu poderia beijar novamente aquele rosto tão quente!


Pequena rosa de Nova Iorque,
Por que me vira a cara, como quer esconder,
Aquela pequena tristeza,
Aquele vazio de cabeleira com sabor a mel,
Escondida ela está naqueles olhos de quem não quer,
Não quer ganhar a guerra, mas quer ser uma perfeita mulher!
Mas ela, ela é uma flor de dureza!


Rosa de vinagre misturado em vinho,
Ela, com o seu delicado e teimoso orgulho,
Não quer tocar num rosto de ouro,
Será que ela não vê que o tigre lhe entrega o focinho,
Será que ela não vê a vénia do submisso touro,
Ela, com o seu ar de senhora com espada em punho,
Será que ela não sente os meus lábios a ansiar pela pele dela,
Será que ela não percebe que os seus seios sabem a canela?

Pequena rosa,
Deixa-me provar esse fruto exótico,
Deixa-me perder nesse teu rosto hipnótico!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Outono - um bruxo de frio


Como o Outono - aquela estação, meio quente, meio fria, que algumas vezes me põe a espirrar, outras vezes, com uma felicidade por ter de trabalhar - está para breve, decidi escrever um poema dedicado a ele. Melhor a uma personificação dele. Se ele fosse um homem, tenho a certeza que seria um bruxo das minhas histórias.


Uma folha morta cai às tuas botas, ensanguentadas,
Tal como uma frágil mulher,
Ela tem as curvas da uva apetitosa,
Que faz o vinho do medo,
Que é servido pela criada que se ajoelha,
Da mesma maneira que a folha da videira se inclina,
Ela também treme por causa do vento gélido,
Mas não é o frio dos tempos difíceis que a assusta,
É o medo de partir o copo cristalino,
E do vidro, beberás o sangue,
Que a mandaste servir!


Um corvo aparece numa embaciada janela,
A paisagem está coberta de nuvens cinzentas
- Tão cinzentas como os teus olhos!
Olhos de melancólica mirra,
Que fina e aveludada criatura era aquela,
Por que é que ela tinha de colher - sol a sol - os molhos
De uvas, os frutos da tua sangrenta ira...?


Olhos amendoados de corça são os dela,
Rios obscuros onde secaram muitas penas,
E usa, como uma noiva leal do Imperador, a seda amarela,
Costas de branca garça que pertencem ao doce mecenas,
Que foram chicoteadas, aquelas costas de criatura,
Filha da Natureza,
Porém! Tu não te importas, tu só fazes pelo prazer de a ferir,
De ferir aquela personificação de pureza!

Ó Outono, quando é que vais aprender,
Quando é que vais parar de te rir
Com essa voz de vento gelado,
Quando é que vais parar para sentir,
Para ver que até as deusas,
O som da tua voz trovejante faz tremer,
Com a tua frieza,
Fazes a colorida floresta transformar-se
Em sombras castanhas de âmbar!
Todos os seres vivos conseguem perdoar-se,
Mas tu, tu nem tens tempo para amar!



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Há sempre algo para dizer

De volta com este pequeno excerto dos tempos do Assassino do Amor!


À meia-noite, há sempre algo a dizer...

Uma flor caiu nos cabelos da jovem princesa, ao olhar para a água cristalina do lago que as fontes termais perto do Castelo Negro formavam. Ela não ligou muito para aquilo, mas os olhos estavam abertos, e o nariz captou umas mãos de homem a massajarem-lhe os ombros. Eram umas garras esqueléticas, mas gentis.

Ela nem pôde acreditar: o Assassino do Amor, o implacável senhor daquele palácio sinistro, olhava para ela com um olhar doce, enquanto descalçava as botas e desapertava o robe oriental.

Os olhos negros dela brilharam ao luar, enquanto ele entrava na água quente e a deitar espuma, como se fossem nuvens fofas de algodão. Estas nuvens cobriam o peito macio e de chocolate da princesa arco-íris, cujos cabelos negros apanhados num gancho de jade em forma de borboleta eram tão negros como a noite. Os cabelos ruivos dele resplandeciam como labaredas de fogo, ansiosas por consumir o mais precioso dos frutos concebidos pela Natureza!

A jovem virou a cabeça quando os dedos dele a tentaram acariciar. Aquelas duas esmeraldas forçaram-na a olhar para ele.

- Vossa Alteza está muito melancólica esta noite. - A voz metálica e aguda ressoou no silêncio nocturno. - Porque é que me evita?

A jovem tremeu quando ele encostou a cabeça ao ombro nu dela. Agora, depois do rapto, depois de saber que tipo de homem é que aquele bruxo era, a princesa mais nova do Rei Neptuno estava aterrorizada. Aquele homem, tão forte, mas tão perigoso, estava tão perto dela, como a flor estava da água a ferver. O nariz dela apanhava o desejo que ele respirava por ela, tão intenso, como as pétalas da camélia.

Inevitável aquele sorriso malicioso, enquanto lhe esfregava as costas femininas com as pétalas das camélias, ele suspirou, indiferente ao terror dela.

- Jamais devia ter-vos deixado com aquelas fadas malcriadas. - Ele encostou ao de leve, o nariz curvo de falcão perto das ancas suaves como seda, aquelas ancas frágeis e belas, que o faziam ansiar por mais. - Elas não compreendem que eu vos amo, muito!

Anjali Sarvahdinada engoliu em seco, ao ver que aquelas garras não a iam libertar.

- Por favor... - A voz dela murmurou, enfraquecida pelo feitiço hipnótico que o Assassino do Amor lhe pusera, horas antes. - Não me faça mal, Mestre Samiel!

- Eu? Fazer mal a ti, minha flor? - Repentinamente, as garras dele apertaram a cintura dela contra o corpo forte dele. - Eu só quero um pouco da tua energia, aquela Lua dos Sonhos que está escondida...

Os dedos anormalmente magros passearam num sítio onde Sarvahdinada não queria que estivessem! Arregalou os olhos, indignada, quando os dedos do feiticeiro tocaram, abruptamente, no íntimo dela.

Ele sorriu com um ar malévolo nos olhos rasgados e verdes, concluiu com um riso de hiena, perverso:

- Aqui, no teu templo sagrado!

- Tire...esses dedos demoníacos de mim!

A jovem princesa tentou espernear, mas o seu corpo não se mexia! Estava mesmo enfeitiçada por aquele homem maluco!

O que o Mestre Samiel não esperava era uma jovem fada dos seus dezanove anos, de lança em punho, preparada para defender a Princesa Arco-íris, dois anos mais nova que a Kinnari, a metade fada, metade cisne!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um verdadeiro Feiticeiro Branco


Biblioteca da Família Von Tifon - os artigos que eles não querem que sejam revelados!



Nem sempre houve esta pressa, este passo ordenado e automatizado tão costume dos Bellantes e dos povos mais do oriente. Em Мэрлоноград (Merlonogrado) – ou Cidade ao Pé do Mar, como dizem os Russos do baronato, vizinho do Ducado da Cidade Perdida – tudo era feito com uma lentidão pacata e humilde.


Custodio Villanueva, é o nome de um dos bruxos mais corruptos e mais obscuros do baronato de Merlonogrado. Merlonogrado, uma família católica de Russos e Espanhóis que nunca se deu bem com o conceito de feitiçaria que nós, os vizinhos Japoneses e Alemães praticamos, torceram o nariz quando os guardas da fronteira marinha anunciaram que um homem alto, de porte elegante e enigmático, tinha aportado com apenas um barquinho a remos, daquelas gôndolas que se vêem nos filmes.


Mesmo assim, há dois anos atrás, em 1978, eles não se importaram de acolher Custodio Villanueva, cujo nome completo era Custodio Dário Villanueva. Villanueva tinha um bigode pintado a pincel preto, com um fluente sotaque catalão.


Um dia, apareceu no palácio dos nobres a dizer que era médico, e que sabia tratar de feridas nas pernas e nas costas. Levava um estojo escuro e uma capa velha para lhe ajudar a aguentar mais o frio de Outono.


Lembrai-vos Vossas Excelências, que havia uma praga de cogumelos venenosos, e a Baronesa Maria Eufémia andava com um reumático nas costas. Custodio Villanueva curou a pobre e velha senhora numa questão de dois dias. Também curou um escravo e uma jovem bisneta do antigo e já falecido Diego Yaranuez.


Após essas pequenas consultas, não quis saber de renumerações ou recompensas para nada. Que, não, que não, que a única preciosidade que tinha era o orgulho em ter ajudado mais pessoas e a tirá-las do sofrimento.


Um dos trinetos do lado da família Russa então propôs-lhe que o ajudassem a subir na carreira como bruxo.


E foi assim que ele se mudou do baronato para o ducado. Custódio Villanueva, com os seus estranhos olhos azuis, os seus modos quase devotos pela morte tardia da Duquesa Abir, e a pena por não ter ouvido da doença da “honrada senhora” mais cedo.


Ficámos habituados a ele, a ele e às suas maneiras delicadas, a sua sinceridade disfarçada em pedantismo, ao fumar aqueles cigarros (quando começou a trabalhar para a nossa família, o dinheiro veio tão depressa quanto o milho em Agosto!) de hortelã – pimenta.


Outro mês passou, e outro, e outro, e quando era Inverno, apanhei sozinho o velho feiticeiro espanhol a rezar pela alma da Duquesa. Estava a chorar. Perguntei-o porquê.


Ele ficou calado durante uns minutos, apenas a olhar reverentemente para o quadro da minha mãe.


Acabou por confessar que ficara apaixonado pela senhora do quadro, e que era uma pena que ela já tinha morrido, porque se fosse viva, ele lhe daria todo o amor que ela precisava.


- A minha mãe não merece o amor de ninguém. – Comentei, quase sem querer. Que é que os meus leitores querem? Que esta minha memória, este meu espírito fique calado? Não conseguia.


- Sois uma mulher muito ingénua, mas também muito esperta, Menina Charlotte. Pode ser que a vossa mãe guardasse no fundo a mesma mulher bondosa e com coração que está reflectida nessas lindas faces de chocolate. – Disse o homem sabiamente. Limpou as minhas e as lágrimas dele, carinhosamente, como se tratasse do meu pai. – Mas é tempo de restabelecer tudo, Vossa Graça. Não vos importuno mais, e mais uma vez, desculpai-me pela minha compaixão.


Fez uma vénia muito formal – até demasiado para um espanhol – e deixou-me, a pensar, ali. Não foi despedido, tal como provavelmente pensara. Agora é muito mais do que um amigo, é como se fosse da família.


Ficou connosco como amigo e como confidente de Karl Honestoffmann, que adorava o seu gosto pelo velho e pelo rústico, e pelo órgão, que Villanueva dizia-se ser uma vez padre, mas que desistira da profissão por causa do herbanário. Com o tempo, adquiriu o carinho das crianças, o respeito dos adultos e o amor dos fantasmas Japonesas, incluindo a Senhora Murakami em pessoa. «Quem me dera que o meu filho fosse assim!»


As cortesias que fazia, a opinião conhecida e quase eloquente, fazia-o ser apreciado pelos feiticeiros Japoneses que muitas vezes, coitados, vinham pedir esmola na época do comunismo.


A roupa, diga-se de passagem, durava-lhe muito. Por vezes, escovava com a mesma mesura que lavava a roupa, o pelo do gato de família, Spiegel. Nessa altura, até o nosso gato persa era um atleta, a caçar ratos e baratas.


Lembro-me que Irene o chamava de “o Avô emprestado” por ter uma barbicha prateada que lhe ficava muito bem na pele queimada do sol.


Wilhelm Couto e Hans, por sua vez, gostavam muito dele por causa das piadas que o velho espanhol sabia. «Come-se do que há, peixe fresco é o melhor que tem cá.» Dava para as pessoas rirem-se do jantar simples e tipicamente Bellante: uma vez era arroz, outras vezes tortilhas com carne esmigalhada de porco com pimenta, cebola, molho de maionese, e papa de espinafres, tomate, cenoura e batatas, outras vezes, era peixe.


Havia depois o Usagi – o meu namorado dessa altura – que ajudava-me a coser as roupas. Eu contava os poucos lucros que tínhamos a vender para a União Soviética. Nessa altura, a Katharina morava na Inglaterra.


Aqueles eram bons tempos. Sentava-se sempre com a gente o Tio Maximilian e o Tio Martin, juntamente com os primos Ernst e o Rutger. Todos nós, ajoelhados no velho e empoeirado salão de jantar, com umas almofadas rotas e apenas a mesa de mogno cujas pernas tinham sido cortadas. Dava um estilo mais oriental ao palácio. Nessa altura, era mais uma Menina von Tifon do que “As Senhoras e os Senhores von Tifon”. Ao pequeno-almoço, comia-se pão com salsichas (coisa que Usagi e o Mestre Custódio nunca comiam), e um leitinho, outra coisa que os nossos rapazes Ernst e Rutger adoravam era molhar o pão no leite com cevada, coisa que eu achava intragável, mas enfim. Eram manias alemãs, tal como era mania Japonesa servir-se o peixe cru porque às vezes não tínhamos dinheiro para pagar o gás. Ainda bem que a Avó me tinha ensinado antes de morrer a fazer comida Japonesa para o jantar, senão, morríamos à fome.


Ninguém na “Capital” – como falava o Usagi falava de Tóquio – queria saber de nós. Nem na Alemanha, nem no Japão. Era como se não existíssemos.


No entanto, nós ajudávamos os humanos, e eles sentiam-se bem connosco. Eram tempos muito diferentes. O palácio nunca estava limpo, não havia criadas a correr de um lado para o outro, e tinha de ser eu a tratar de tudo: da roupa (a não ser da de Usagi ou da do Mestre Custódio, que não me queriam dar mais trabalhos), das paredes, do pó, da cozinha, da burocracia para que a nossa empresa sobrevivesse no mundo comunista…podem imaginar como é que eu me sentia depois de um dia de trabalho.


A velha casa Von Tifon era sinónimo de tradição, era sinónimo das antigas canções do Norte, que eu costumava cantar, por distracção.


O destino prega-nos cada partida. O baronato e o ducado gostam muito dele. E assim, quando caiu o muro de Berlim, e a família Merlonorgrado foi condenada à morte por traição e por comunismo, Villanueva foi um dos primeiros bruxos a ser considerado como o possível novo senhor de Merlonogrado, ele recusou prontamente.


Disse que tinha saudades de Espanha. E partiu sem deixar rasto. Lembro-me, dois anos passados, neste Dia da magia Negra, que ele punha sempre os Deuses acima de tudo. Bruxo? Bruxo coisíssima nenhuma! Aquele era um feiticeiro branco.


Este é uma crónica antiga que encontrei sobre um feiticeiro branco que a Tia Charlotte (a irmã da minha mãe Katharina) conheceu nos Anos 80. É engraçado como nessa altura, o reverendo "Mestre Custódio" era quase como uma figura paternal para a família von Tifon, arruinada pela mentira da ideologia comunista.


Recordam-se talvez daquele bruxo do "Fumo Sinistro" e do "Um bom exemplo de um bruxo quase ao nível do Assassino do Amor"? O Custódio Dário Villanueva era esse tal feiticeiro! Nessa altura era muito simpático, todo ele simples, todo ele cumpridor das regras dos Deuses...


E o que é que aconteceu nos Anos 90? Ninguém sabe. Talvez tenha feito fortuna na Espanha como médico da medicina alternativa, não sei.


O que eu sei é que a bondade de Villanueva trazia água no bico....

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Falar de um bruxo e da sua aventura

Lembram-se de http://http://tifon-ogritodaverdade.blogspot.com/2008/04/novo-blog-ou-no.html , de http://tifon-ogritodaverdade.blogspot.com/2008/11/o-rapaz-dos-olhos-de-ametista.html, ou de http://tifon-ogritodaverdade.blogspot.com/2008/06/captulo-1-primeira-parte-de-trs.html? Ou até mesmo de http://tifon-ogritodaverdade.blogspot.com/2008/04/lua-dos-meus-sonhos.html ? Ou de http://tifon-ogritodaverdade.blogspot.com/2008/09/lua-dos-meus-sonhos-situao-poltica.html ?

Faz tudo parte do mesmo livro, que agora se chama "O Sopro do Feiticeiro". A história conta o dilema de um jovem bruxo talentoso de vinte e quatro anos (Georg-Maria Schwarzjaguar, mais conhecido como Flautista pelos seus inimigos) no início dos Anos 30 de matar ou não, uma jovem rapariga que é filha do maior inimigo dos seus patrões. Tenho de confessar, a história foi escrita em 2007/2008, mas eu fiz uns retoques que a deixaram quase perfeita.

A Atlântiga, agora Bellanária, é um cenário perfeito, mas a história começa com um prefácio (escrito num rasgo de inspiração, num dia destes) em que o vilão principal da história é introduzido, na Itália de 1921 - obviamente não vou dizer o nome dele. As origens do Flautista são contadas pela sua própria voz...deixando o espaço para depois irmos até à princesa desta história: Annelina Sara Lornam von Tifon.

Ai, eu e a minha imaginação em criar um romance entre um homem de vinte e quatro anos e uma jovenzinha de quinze exagerou! Que bruxo mais velho para a pobre da Sara...Algumas vezes pergunto-me se ela merece ter tão pouca sorte com os homens. Não, não merece. Afinal de contas, ela é a personagem mais inocente que eu já alguma vez criei. Em Inglês, há uma expressão para descrever um homem desprezível, másculo, e impiedoso - bad-ass (http://www.urbandictionary.com/define.php?term=bad%20ass) . É jargão, eu sei, mas é precisamente isso o que o Flautista é.

Bem...mais não direi sobre a história, só vos digo: é uma das histórias que contém mais aventuras e desafios para as personagens principais. Não gosto de personagens totalmente bonzinhas ou cheias de virtudes. De modo a que temos uma princesa herdeira viúva facilmente depressiva e que esconde as suas fragilidades através de austeridades e excessos na vida nocturna - Swerdinada Eudóxia II Di Neptunvs - e um feiticeiro branco adulto Irmãozinho com um humor cínico e um pragmatismo assassino na batalha. Fumador constante, Irmãozinho esconde um lado paternal e um amor pela honestidade.

As personagens secundárias são mais ou menos bem feitas - gosto muito da maneira como criei a Katharina, mas ela ainda precisa de algumas coisas que precisam de ser melhoradas. Aliados ou inimigos, as personagens secundárias falam muito sobre a Bellanária ou a sua relação com o mundo ocidental e oriental. Outras - como Isaías - embora não muito importantes nesta história, revelam-se como grandes amigos - ou rivais, como é o caso do Conde James Dark Sword - às personagens principais.

Os deuses algumas vezes não são para aqui chamados. Acho que são mais uns "apêndices" ou "figurantes" que dão uma mãozinha à história. As personagens principais contam mais a vida entre humanos, fadas, bruxos, bruxas, feiticeiros brancos e demónios nas ilhas atlânticas da Bellanária.

Gostava de ter mais personagens no livro, mas o facto é que a centralização (bruxos, humanos, fadas e feiticeiros brancos) da narração fez-lhe bem.

Como estou na universidade e não posso postar aquelas sete páginas do prefácio que escrevi para " O Sopro do Feiticeiro", deixo-vos com esta canção tipicamente Napolitana: "Guaglione".

http://www.youtube.com/watch?v=99FxBf1uGF8

Uma música Japonesa de um dos meus animes preferidos de infância: "Tactics"

http://www.youtube.com/watch?v=WujimpD8PdU&feature=related

E uma canção Alemã, "Fieber", industrial rock da banda Oomph com Mina Hagen:

http://www.youtube.com/watch?v=jKCqrkEZBT0



O nosso Flautista de olhinhos roxos adoraria ouvir uma canção dessas. Ele compreenderia as três linguas num instante. De romântico a completamente perverso e possessivo, essa é a personalidade afectuosa de Georg-Maria Schwarzjaguar Como o Rei dos Bruxos Kasimir Malaghetyev diz:



Até um bruxo se pode apaixonar...até mais que os peixes e as flores!