terça-feira, 29 de maio de 2012
Lermmhiar o demónio da inveja II
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Lermmhiar, o demónio da inveja
"...E depois havia Yemelian, o primeiro filho da Primeira Mulher do Velho...Embora esse não fosse o seu nome verdadeiro, foi obrigado a mudar de nome quando chegou à Bellanária. O próprio nome dele que o Velho o tratava significava "O Inominável". Isso significava que Yemelian (o seu nome Latino significava "O Rival", nome esse que lhe assentava que nem uma luva) era tratado como o filho primogénito na nossa numerosa família. O outro nome dele era Berke, o que significava "Duro", que traduzido para Beno (Urso) em Latim dava um ar nada ameaçador ao meu meio-irmão adoptivo. Rival Inominável - cá para mim podiam ter-lhe crescido os dentes caninos mais cedo e ele continuava o mesmo idiota demoníaco lambe-botas de sempre...."
Yemelian, o filho mais velho de Uarasaki, era um jovem dos seus vinte e poucos anos quando descobrira que Zah Min (como era tratado nos bairros de imigrantes, de comerciantes e de escravos da Cidade dos Deuses) tinha-se apaixonado pela sobrinha do Imperador. A Samiel, Jamelino lembrava uma coruja com os olhos negros como duas opalas, um nariz pontiagudo e pequenino, curvo, e o seu rosto redondo....por vezes chamava-lhe outros nomes piores. Nessa altura, Jamelino não passava de um jovem aprendiz de bruxo que gostava de praticar as ciências ocultas da Magia Universal. Enquanto o irmão era um apaixonado pela harpa, o irmão preferia atiro ao arco, o manejar da espada e passava os dias na caça com o seu querido familiar preferido. Não é que Yemelian não tivesse aptidão para a música...só achava que era demasiado fanhoso e masculino para que alguma dama - nem que fosse uma cortesã dos bairros onde a família vivia - apreciasse o seu canto.
Para aqueles que se perguntavam de onde e como viera ao mundo este homem - que apesar de ter menos beleza do mais famoso sedutor que alguma vez navegara entre o arquipélago das ilhas Bellantes, não se podia dizer que não fosse menos astucioso que o protagonista das Crónicas do Tempo e da Lógica - eis a história de Yemelian Berke Di Euncätzio.
Ora, conta-se que certo dia, o filho primogénito dos Di Euncätzio, numa tarde de feriado no calendário lunar Bellante, foi à caça de uma bela corça Bellante, acompanhado pelos seus irmãos mais novos Saburou, Hayabusa, e os amigos de Samiel: Nimtauk e Jerininantus. E todos eles, disfarçados de Encantadores das Montanhas, se encaminharam nos seus distintos cavalos em direcção ao Gulmin. Pois Hayabusa, tendo visto o irmão mais velho atormentado pela seca que se vivia no Sul, sugeriu que era melhor passarem pelos rios do norte, pois estes podiam refrescar a vivacidade de um homem com as suas qualidades divinas.
Depois de algumas horas a perseguirem uma daquelas preciosas corças que só vendo uma pessoa poderia acreditar o quão graciosas e o quão suculentas poderiam ser, perto das margens do Gulmin, os cinco feiticeiros repararam numa voz doce e sonhadora a cantar em Bellante. E como o sotaque Greco-latino da elite Bellante era sempre muito difícil de entender para os comerciantes e nómadas vindos da Ásia, Yemelian pediu a Jerininantus (o único aprendiz de feiticeiro que tinha origens verdadeiramente Bellantes) lhe traduzisse o que aquela voz de santa estava a dizer.
Jerininantus, um homem de estatura baixa e com uma falta de escrúpulos notável, traduziu o que a voz estava a dizer:
Se ao menos soubesse, querida flor de lótus, ai, ai,
Quem é realmente o jaguar na escuridão,
Do licor de framboesa inebriante, vermelho e negro
Oh, eles aparecem ambos nos olhos de jade,
Ai, ai, coração de jade, coração de seda mais branca,
Vê se não te ofereces em sacrifício ao Deus alheio,
- Mas como poderei eu, ai, ai,
Se o meu coração é uma pomba, o meu coração é uma folha
No meio do Outono, a voar pelo vento nocturno?
O olhar do barco de jade é um convite,
Ai, ai, se eu conseguisse descobrir o que está por detrás da caixa,
Oh, oh, se for uma adaga de obsidiana, pode furar a taça,
Que vergonha e que doce fruto sairá do cálice....
Ao saber o que as estrofes significavam, o filho varão perguntou:
- Saburou, a quem pertence tão bela voz?
Respondeu o terceiro filho de Uarasaki:
- Meu respeitável irmão mais velho, em boa verdade, o meu ouvido nunca ouviu voz mais bela e deliciosa!
De súbito, Hayabusa ficou um pouco tenso.
- Irmão mais velho, é melhor esconder-nos, senão me engano este trote são os dos cavalos da Guarda Imperial! - Avisou o jovem irmão do meio.
O gigante mongol Nimtauk começou a cantar uma canção ruidosa e cómica em Chinês antigo. Tinha uma boa voz que ressoava no entardecer como se fosse o ruído de um barco. Hayabusa e Saburou fizeram um enorme esforço para não se rirem, enquanto tiravam de alguns pergaminhos e começaram a acompanhar a melodia com umas ladainhas e rimas inventadas na língua das mulheres Japonesas. Espalharam um pouco de incenso queimado pelo chão, enquanto cavalgavam ao lado do irmão mais velho.
Detiveram-se por uns momentos, e ali estavam os Guardas Imperiais com os seus cavalos cor de bronze altíssimos e sagrados, de crina encaracolada e cor de avelã prateada.
Jerininantus acompanhou no acordeão Bellante, enquanto baixava o capuz do manto esfarrapado cor de sangue.
Os guardas, espantados com o talento dos "Encantadores das Montanhas, bateram palmas enquanto os pequenos filhos dos camponeses das margens do rio se debatiam para ver mais de perto os tais artistas ambulantes com vozes exóticas e perfumes encantadores.
Mas Yemelian não ficou de todo embaraçado com este espectáculo. De facto, isso era uma maneira de evitarem uma luta desnecessária com os guardas.
Limitou-se a inclinar respeitosamente a cabeça, enquanto ocultava a fealdade demoníaca do rosto com o capuz da manta de Inverno. Os seus companheiros - alguns amigos do bairro dos comerciantes e escravos - fizeram o mesmo, ao baixarem solenemente as armas, em sinal de respeito e submissão ao Imperador das ilhas Bellantes. Fizeram um solene silêncio ao passarem pela carruagem da princesa da família Imperial.
Com o falcão num dos ombros e em cima do cavalo, ele não pronunciou uma palavra sequer.
Estivesse Eris ou não encantada pelos seus modos, ele continuou a trotear com o cavalo. Porém, a ave encantada continuava com os olhos fixos nos belos cabelos cor de fogo da jovem princesa, ocultos aos olhos do mais comum dos mortais, velados por um véu de cor aveludada e roxa.
Ao voltar para casa, no entanto sem saber de quem era tal voz - adivinhava que se tratava de uma princesa, mas nunca tivera passado pela cabeça que fora a mesma que Samiel arrebatara o coração - ele sonhou com a princesa e imaginou-a como viera ao mundo, com os seios brancos e bem proporcionados...!
segunda-feira, 30 de abril de 2012
A boneca de maçapão
980 depois de Cristo
sábado, 14 de abril de 2012
Quando o Inverno se aproximou,
Deixaste um pequeno pássaro a morrer,
Será que não percebeste que o verbo "ter",
É uma prova evidente que a túnica,
De sangue se sujou!
Se te tocar com os meus lábios de pecador,
Sentirás todo o meu ódio que o meu coração,
Tem guardado para o mundo,
Mas, por favor, não largues a minha mão,
Senão nunca mais desaparecerá a minha dor!
Fica atenta, querida e sombria Narciso,
Pois quando o meu carro passar,
Para aonde quer que vás, sentirás o medo,
Sentirás que recuperaste aquele maravilhoso siso,
Sentirás a memória dos tempos antigos voltar!
Isto foi tudo o que o assassino deixou: uma carta com uma mensagem escrita nos lindos caracteres do dialecto do Norte da Bellanária. Ao acordarem para verem o que tinha acontecido, o Tenente Irmãozinho e o Capitão Jaguar Sangrento apressaram-se para verem o que se tinha passado no palácio da Avenida Schesrfhafranneega na Cidade dos Deuses. A Avenida não fazia parte do districto sagrado de Suryadevnahutbal. Um bruxo poderia muito bem entrar na residência de Sua Divina Majestade, a Mãe da Bellanária, a Imperatriz Melnjar IV sem que os guardas oferecessem muita resistência.
E o que eles viram foi ainda pior do que imaginaram: a Imperatriz Karolina Stephanie Di Neptunus deitada na sua cama de cetim branco, nua e ensopada no próprio sangue com pequenas tiras de cetim negras a amarrá-la à cama. Estava pálida, os seios tinham-lhe sido arrancados com corte de adaga profundos, o olhar de safira petrificado de medo, a boca estava aberta numa expressão que se podia dizer que ela tinha gritado por socorro, mas ninguém tinha vindo em seu auxílio. Tudo isto demonstrava não só uma inegável tendência perversa do assassino para jogos de Sadismo e Masoquismo, mas também uma referência à tendência artística Bellante do Novae Ero Art, com pequenos espinhos de plantas a segurar a cabeça pelo pescoço. Havia uma estaca nas partes femininas de Sua Majestade, uma ferida profunda de uma espada numa veia do pescoço onde não se podia morrer rapidamente, e marcas de dentes afiados de demónio na zona intermédia entre o pescoço e os seios agora ausentes da mulher.
- Credo, por todos os Deuses! Quem é que poderia ter feito uma coisa destas à minha mãe?! - As lágrimas caiam dos olhos da pobre Princesa Swerdinada ao procurar refúgio nos braços do Capitão Thomas Migntetiyte, pois era esse o nome do membro da Guarda Imperial.
- Não se preocupe, Princesa. Quem quer que tenha sido o depravado que fez uma coisa tão horrível à Imperatriz, não é um vampiro. Os vampiros só se alimentam de sangue de humanos mortos. - Thomas Migntetityte assegurou no seu sotaque de leste Europeu.
- Claro que não foi um vampiro! - Comentou o Tenente Irmãozinho ao acender friamente um cigarro. - Isto é obra de um bruxo...um bruxo demoníaco!
Com o cigarro aceso ele apontou para o chão de mármore: tinha escrito com o próprio sangue da Imperatriz um carácter muito particular, a primeira pincelada desenhava uma perna encurvada, duas flechas juntas, e uma espiral na flecha superior. A quarta pincelada era um losango, com uma Lua a contornar em quarto-crescente o losango como última pincelada.
- Este é o primeiro carácter da assinatura do Assassino do Amor. Nenhum outro demónio, cyborg ou feiticeiro seria assim tão tolo para assinar um crime destes com este carácter...a não ser que seja um daqueles fanáticos que acreditam na profecia de que um dia o Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio voltará. - Irmãozinho sugeriu com um ar pensativo ao inalar um pouco do seu cigarro.
A Princesa Swerdinada tremeu.
- Não se está a referir àqueles selvagens da Irmandade do Tigre Azul, pois não?! - Ela gemeu, com um calafrio nas costas. - Não diga isso nem a brincar, Tenente!
Ao soprar mais uma nuvem de fumo cinzenta, o Kulmabgigi respondeu, com uma mão nos bolsos:
- Foi só uma suposição Princesa...De qualquer maneira, o sacana pode muito bem parecer-se com um homem completamente normal.
Entretanto, Isaías continuava escondido no armário, a tremer que nem varas verdes. De um momento para o outro, saiu do seu esconderijo, encharcado em suor. Tinha estado paralisado de medo como nunca estivera! Dorido tanto nas costas humanas como nas patas de cavalo, ele ajoelhou-se apressadamente diante da Princesa. Pousou as mãos aparentemente humanas nas da Princesa, embora ela não o conseguisse ver, podia senti-lo.
- Quem era o homem que te fez ficar assim? Quem é que matou a minha mãe? - Perguntou Swerdinada, preocupada, ao sentir o medo que transpirava dos poros daquelas mãos do jovem de dezasseis anos.
Depois de tomarem notas de tudo o que o jovem centauro dizia, o Princípe Migntetiyte e do Tenente Irmãozinho repararam que a Princesa Swerdinada ficara tão chocada que quase desmaiava. Senão fosse o facto que o tenente estava por perto, ela teria ficado inconsciente.
- Ele tocou mesmo na minha mãe, não tocou?! - Soluçou a pobre princesa, amparada pelos braços do tenente.
O cigarro ainda estava naqueles lábios secos e trigueiros do oficial subalterno e aquele fumo...Fazia-lhe lembrar um pesadelo que tivera há anos atrás. Ou talvez fosse num sonho que ela tivesse inalado aquele cheiro desagradável e forte a enroscar-se à volta do pescoço dela...Estava a comer umas gomas coloridas em formas de lindas creaturas Chinesas, embrulhadas em pétalas de flores. As nuvens de fumo saíam de uma boquilha de prata resplandecente, enquanto alguém olhava para ela com um pequeno sorriso. No sonho, era uma criança de oito anos, e estava num enorme sofá. Aquele sonho tinha sido agradável e arrepiante ao mesmo tempo. Talvez fosse por causa disso que gostasse tanto dos feiticeiros e dos Cy-bata, embora não podesse ver muito bem estes útlimos.
Comovido com a doçura e inocência da Princesa, o Princípe Migntetiyte, Capitão da Companhia dos Jaguares do Leste da Guarda Imperial da Resistência, corou, com um pouco de inveja do Tenente.
- Princesa... - Murmurou o Princípe de trinta e dois anos.
Porém, o Tenente foi muito cortês ao pousá-la na cama. Quando fumava, ele parecia que se tornava mais velho e sério aos olhos da Princesa. Porém o Tenente não se achava particularmente atraente. Apesar do seu aspecto andrajoso e o seu ar um pouco rude, os seus olhos cor de âmbar reflectiam uma alma honesta. Ele era o que se podia chamar de um diamante em bruto.
Com o longo e grande nariz partido tipicamente de feiticeiro, qualquer um poderia pensar que ele um homem muito duro de roer! Como tinha um horror a usar o uniforme, ele parecia-se com tudo menos com um oficial do Exército Imperial da Bellanária. Porém andava sempre com a barba feita.
- Não se preocupe, Princesa. Nós vamos apanhar esse lunático!
A Princesa , um pouco mais calma, observou o pergaminho um pouco molhado com o sangue da própria mãe. Com as mãos, ela tacteou a tinta cor das flores violetas, que brilhava como se fosse do mesmo material das estrelas.
- Consegue traduzir este poema Chinês, Tenente?
- Com certeza, Vossa Majestade, Senhora do Palácio Sul de Suryadevnahutbal. - O Tenente juntou firmemente os sapatos, ao tirar o cigarro da boca. - Bom...quem quer que seja o diabo que tenha assassinado a sua mãe, ele sabe falar muito bem Chinês! Esta caligrafia já deve ter pelo menos mais de dois mil anos!
Isaías arqueou as sobrancelhas ao inclinar a cabeça num misto de curiosidade e medo:
- O que é que diz?
- Não me apressem, esta língua é muitíssimo arcaica e é preciso saber-se muito bem que tipo de variante Chinesa é que estamos a lidar! - Resmungou o Tenente ao usar a luz do cigarro para decifrar a complicada língua.
Por uns momentos, houve um silêncio de cortar à faca. Nesse instante, viu-se como os dois homens eram muito diferentes: enquanto o Princípe Migntetiyte, Capitão da Resistência era pálido, e aparentava ser muito inocente para um homem de trinta e dois anos, o Tenente da Resistência Irmãozinho já tinha quarenta anos contados. O sorriso deste último era sempre cínico. Enquanto o primeiro era refinado e sonhador, o segundo tinha os pés bem assentes na terra. Muito antes de ela ter assistido a tal horrível espectáculo, já a Princesa tinha as faces coradas ao encontrar na rua, ainda por cima à noite, o Tenente da Resistência.
Encantada pela maneira como o Tenente fazia o seu trabalho, a Princesa piscou-lhe os olhos cor de avelã, ao observá-lo com aquele ar concentrado e austero.
Subitamente, ele esboçou um raro sorriso aliviado:
- Ah, por uns momentos fiquei assustado...este é Mandarim do século dezanove...mas há uns elementos na primeira e na última estrofe que me pareceram um pouco arcaicos...é uma típica trovi dos bairros Chineses.
O princípe Migntetiyte arregalou os olhos verdes, muito espantado.
- Dos bairros Chineses?! Mas os seguidores dessa maldita profecia não eram Japoneses?
- Não sei por que razão, mas o nosso assassino está a tentar jogar um jogo muito perigoso connosco. De qualquer maneira, este não é o momento para discutir estas porcarias. - Comentou ao apontar para o velho relógio de cobre de pulso com uma fénix gravada. - Precisa de mais alguma coisa, Princesa?
- Não muito obrigada, Tenente. - Sorriu a Princesa Swerdinada num gesto delicado.
- Não tem de quê, Vossa Divina Majestade. - Respondeu ele num tom distante ao soprar mais uma nuvem de tabaco para o ar. - Creio que é melhor voltar ao meu apartamento.
O Princípe Migntetiyte acenou impacientemente com a cabeça.
- Sim, é melhor, Tenente. Eu próprio levarei a Princesa até ao Palácio Sul de Suryadevnahutbal.
Suryadevnahutbal era o ponto mais alto da Cidade dos Deuses, construída sobre as fortes e firmes colinas atrás das montanhas do sul e do centro da Bellanária. Suryadevnahutbal era o districto da cidade onde só os Deuses, os feiticeiros da nobreza, as Fadas de alta patente e os sacerdotes poderiam visitar a Família Imperial Bellante. Naqueles tempos era também a mais imponente fortaleza e o lugar mais seguro de todo o Império Bellante.
Só a notícia de que a Imperatriz tinha sido assassinada por um mero bruxo de uma patente medíocre era suficiente para envergonhar a Princesa. E aquela criatura de mãos brancas e brincalhonas como duas folhas numa brisa calma de Primavera, ainda abalada pela trágica morte da sua mãe, sentou-se na cama manchada com o cheiro da morte.
Ao retirar das confortáveis e sedosas roupas de dormir um lenço perfumado com incenso de baunilha, ela fechou os olhos, um pouco repugnada.
- Tirem-me este horror daqui! - Ordenou ao apontar, sem oferecer um único olhar de compaixão, para o cadáver da Imperatriz.
O Capitão Migntetiyte arqueou uma das sobrancelhas, admirado, ao inclinar respeitosamente a cabeça.
- Não deseja ao menos pensar como é que será realizado o funeral oficial da sua Honrada e Pobre Mãe? - Perguntou no clássico e refinado dialecto da Capital da Bellanária.
- Não estou com apetência para tais salamaleques. - Resmungou a Princesa Swerdinada com um ar muito aborrecido enquanto abanava o lenço de um lado para o outro, como se fosse um leque. Embora usasse roupas muito ocidentais, a Princesa Swerdinada Di Neptunus continuava a ser a filha única do Imperador.
O Tenente Irmãozinho ofereceu o braço à Princesa.
- Se Vossa Majestade consentir, pode ficar no meu quarto de hóspedes, em Cyborg Town.
O Capitão Jaguar Sangrento lançou um olhar de desprezo em direcção ao homem com um sotaque rude do Norte.
Foi então que a Princesa levantou-se e interpôs entre os dois oficiais e disse numa voz muito doce:
- Agradeço a vossa hospitalidade, meus senhores. Mas não precisam de se preocupar comigo, eu estou bem. Eu posso apanhar um táxi para casa.
- Está a falar daquela velha residência em Cyborg Town?! Nem pensar, jamais iria deixá-la numa cidade infestada de...
Antes que o Capitão pudesse terminar a frase, os olhos de âmbar do Tenente fixaram-se nos dele com um desprezo tal que este desculpou-se ao abanar a cabeça.
- Peço imensas desculpas, Tenente! Esqueci-me completamente que o seu avô protegeu com unhas e dentes Cyborg Town dos Russos.
Inesperadamente, a Princesa deu a mão ao jovem e invísivel centauro.
- Sabes onde é que a Praça Utzurumaru em Cyborg Town?
O jovem centauro ficou surpreendido como é que a Princesa Swerdinada poderia confiar nele, sendo ele um demónio que ela não conseguia ver, e ainda por cima um Judeu, de quem a Honrada e Pobre Mãe tão falara em vida.
- Vossa Majestade confiara num rapaz que não consegue ver?
- Como diz o povo: as pessoas vêem melhor com os olhos fechados. - Sorriu a jovem princesa, ao tentar parecer mais forte do que realmente era.
E os dois homens concordaram que ela não era apelidada de "Flor de Baunilha" pela gente do Norte à toa.
quinta-feira, 1 de março de 2012
A Morte da Noite das Estrelas (Parte II)
Um aprendiz de feiticeiro de vinte anos apressou-se a abrir uma das portas da frente: parecía ser Chinês. Precipitado, ele correu para o lado do carro onde o dono do cigarro estava sentado, como se estivesse morto de medo. Com a pouca luz dos candeeiros de rua, consegui ver o rosto do coitado: era mais velho que eu um ano.
Com a pele toda arrepiada, ele abriu ao de leve a porta de trás.
Mas, em vez de responder cortesmente, as luvas semi-ocultas na penumbra da limusina pegaram numa pistola e alvejaram o rapaz inocente! Não consegui conter o horror ao ver o jovem a cair morto no chão. As minhas pernas não se conseguiam mexer de tão assustado que estava: era como se tivesse ficado paralisado com o choque, a própria boca recusava-se a dizer fosse o que fosse! Sem saber o que fazer, permaneci escondido atrás de um pessegueiro.
Depois de tudo isto, uma das luvas de pele finíssima guardou a arma, fazendo-a desaparecer no interior da limusina. Engoli em seco, ao tentar dizer a mim próprio que aquilo era tudo real. Ao mesmo tempo, estava curioso: o que é que aquela figura sinistra quería de Sua Majestade? Era tudo muito estranho! Não havía qualquer sinal de feridas causadas por balas na parte do corpo onde a luva tinha apontado.
Dentro da limusina, saiu um vulto escuro e alto, com os olhos cobertos pelo chapéu de feltro preto que usava. Tinha uns sapatos pretos a combinar com a gabardina de couro comprida. E de repente, parecia que a avenida estava gelada!
Mesmo que esteja habituado ao frio do Inverno precoce do Norte, eu estava a tremer de frio! Aquilo não era normal. O fumo que saía daquela boquilha transformou rapidamente a avenida amena numa paisagem digna de um filme de terror. Eu mal conseguía respirar na avenida. Respirava-se um ar pestilento e quase tóxico, onde uma espessa neblina prateada cobría o céu outrora coberto de estrelas. O fumo do cigarro sugou todo o oxigénio que ainda restava do jovem rapaz humano. Foi aí que o vulto coberto naquela gabardina preta estalou os dedos livres da mão direita, e o cadáver elevou-se até estar à altura daquela figura sinistra. Numa questão de minutos, ele sugou com os caninos afiados tudo o que era carne do corpo do pobre diabo, devorando com um espantoso apetite o coração e as tripas do rapaz Chinês. Aconteceu tudo muito depressa, mas quem quer que fosse o homem, ela era um filho da mãe completamente passado dos carretos! Já se passaram milhares de anos desde que os bruxos costumavam devorar a carne de outras classes.
Mais uma fumarada saiu daqueles lábios sangrentos e secos, e todos os candeeiros da avenida apagaram-se! Só se via as luzes fantasmagóricas de fogos-fáctuos a brilharem na penumbra daquela noite gelada.
Ao certificar-me que aquele vulto não me via, comecei a segui-lo. Enquanto subía as escadas de mármore branco, o vulto negro pisou o que restava do coitado do rapaz Chinês com um prazer sádico.
Entretanto, Sua Majestade estava a tomar banho. A Imperatriz é de origens Alemãs, ou pelo menos foi isso que ouvi dizer. Ao encontrá-la naqueles preparos tão embaraçosos, corei como um tomate.
- Perdoai-me se vos incomodei, Vossa Majestade, mas correis perigo de vida! - Gritei o mais alto que pude, enquanto corria ao de leve as cortinas que a separavam do meu olhar. - Tendes de sair daqui o mais depressa possível!
- Oh, meu Deus! Quem está aí?! - A Imperatriz gritou, aflita, ao olhar para todos os lados com os seus caracóis louros molhados e a sua figura eternamente bela.
Tinha-me esquecido completamente que sendo um demónio centauro, era invísivel aos olhos da esposa Alemã do Imperador.
Então, ouvi homens a sufocar nos andares inferiores, a gritarem de agonia e de terror, provavelmente cortados às postas por uma espada afiada e silenciosa. Era impressão minha ou aquelas vozes eram as dos guardas?!
Meu Deus! Se os feiticeiros experientes da Guarda Imperial da Resistência não podem contra aquele bruxo, que farei eu?
Pensei para com os meus botões, e como se os meus pensamentos fossem mais rápidos do que as minhas quatro pernas, corri o mais depressa que pude até ao armário. Mesmo assim, tentei espreitar pela fechadura o que iria ser da Imperatriz.
Estava a imaginar coisas que não existiam...A senhora de quarenta e cinco anos, mesmo assim, muito bela, ficou um pouco preocupada. Até dava pena, ela, coberta com uma túnica branca de dormir, quase transparente. Passar por um escândalo como aquele de ter sido vista com outro homem que não o Imperador deve ter sido um duro golpe para a Coroa Imperial Bellante.
Sua Majestade sentou-se numa chaise-longue verde-escura, enquanto que lia um jornal parecido com aquele que eu costumo vender.
O espelho reflectía a data de 30 de Maio de 1936 estampada no jornal. A fotografia principal era o título do cabeçalho do jornal sensacionalista: tudo preto no branco, com todas as letras maiúsculas em negrito.
A nossa Imperatriz foi apanhada com um vadio tatuado numa rua duvidosa!
O título explicava bem o contéudo do "artigo". Os fotógrafos - se é que se pode chamar fotógrafos a pessoas daquele jornal horrososo que é a Lagarta - nem sequer tinham tido a decência de tirar uma imagem em condições com o suposto "amante" tatuado. Que eu saiba há muitos bruxos Japoneses que têm tatuagens nas costas e ainda por cima, era um dia húmido e quente. A malta da Lagarta deve ter aproveitado o facto de que o aguaceiro tinha passado para conseguir uma imagem pouco nítida de Sua Majestade de frente e o tal "amante" de costas, perto de uma cerejeira em flor, numa esplanada com um ar muito boémio em Cyborg Town. Ele parecía-se com um outro bruxo qualquer. Sinceramente, não havía nada de interessante naquele personagem.
A Lagarta é mais conhecida entre os intelectuais como "A Última Palavra da Lagarta". As minhas orelhas captavam aquilo que poucos humanos tinham visto no rosto da Imperatriz naqueles meses: desespero, puro desespero!
Cá para mim, ela estava disposta a ser perdoada pelos Deuses por ter amado outro homem...eu cá nunca percebi como é que uma mulher ficar cansada de um homem. Ainda sou virgem. Como é que o Imperador estaria a reagir a tudo isto? A opinião pública mais conservadora de certeza que não a faria esquecer assim tão cedo aquele pecado! Melnjar IV (tinha sido baptizada, como era hábito na Bellanária quando pessoas estrangeiras se uniam à Família Imperial, o seu verdadeiro nome era Karolina Stephanie Von Habsburg) era conhecida como uma imperatriz muito conservadora, muito amarga, mais amiga do dinheiro do que do marido...Mas enfim, as pessoas gostavam dela...Como é que Sua Majestade tinha podido descer tão baixo?
Após uns minutos de um silêncio apenas perturbado por um pequeno soluçar da Imperatriz, escutou-se um repentino forçar da porta do último andar. Um feixe de luz atravessou a fechadura e a porta abriu-se sozinha, à medida que Sua Majestade olhava, muito envergonhada e nervosa para o jornal.
Era o homem que tinha devorado os órgãos do pobre rapaz Chinês!
- Oh...És tu! Porque é que não me deixas em paz? O que é que tu queres de mim? - Perguntou a Imperatriz em Alemão, ao cobrir os seios com ambas as mãos.
Eu estava a tremer que nem gelatina, preocupado com a segurança de Sua Majestade.
Mesmo assim, ela continuava a encarar o bruxo, num misto de desprezo e de medo.
- Fizeste com que a minha vida caísse na lama, destruíste a minha alma pura! Agora que não me resta mais nada senão vergonha e desonra, porque é que não me deixas descansar em paz...?
O homem não respondeu. Aproximou-se dela e tirou uma das luvas. Sua Majestade só podia imaginar o que é que iria acontecer a ela a seguir, fechou os olhos e disse para consigo própria:
Entretanto, eu vi que os lábios frios do bruxo estavam a tocar na pele branca do pescoço da Imperatriz. Deve ter sido uma sensação arrepiante para a pobre senhora! Até parecía que fora o próprio Diabo que a beijara! De repente ela sentiu que uma lâmina passeava perto do pescoço dela, quase numa carícia. Como que se fosse um sabre vindo do Inferno, a lâmina arrancava-lhe uma boa parte pescoço!
Ao provar com uma língua exageradamente longa e bifurcada o sangue que escoava do pescoço dela, ele beijou uma vez mais o pescoço, desta trincando a parte tenra da pele que ainda não tinha sido esfolada.
Eu estava a suar em bica, arregalando os olhos...Nunca pensei que um bruxo fosse capaz de cometer uma coisa tão horrível!
A Imperatriz ainda quis gritar por socorro, mas o seu agressor conseguiu abafar o som de qualquer forma, ao beijá-la nos lábios.
Depois, uma voz fria e arrepiante disse suavemente:
- Gute Nacht, meine feines Liebe...
Depois de ter pronunciado aquelas palavras, o vulto não disse nada, ao deixar a Imperatriz estatelada e ferida no chão. Retirou dentro da gabardina de couro uma outra espada e ouviu-se um som parecido com o sibilar de um vento gelado de Inverno, que capturou no aço a alma da pobre Imperatriz. Eu e Sua Majestade tínhamos visto quem é que era o assassino perverso; o grito que eu quería dar não saía da garganta. Estava demasiado assustado para fazer fosse o que fosse.
No meio da noite, escutou-se uma gargalhada maníaca de um homem, semelhante ao ribombar de um trovão, que arrepiou as Fadas da Floresta de Cristal, uma risada de hiena que provocou o terror nos corações e almas de todas as criaturas que viviam na Bellanária!
Não posso dizer mais...
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
A fada com cauda de vaca...
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
A língua tramada e uma conversa de raparigas
- Estava tanta gente no último exame de Bellante do Sexto Grau, acredita em mim! - Uma voz mais nova do que eu acordou-me. Eu cá tinha a cabeça inclinada para o outro lado da janela do autocarro.
Eu acreditava nela...O Bellante é uma língua tramada, principalmente para uma rapariga como eu que teve de estudar durante o Verão inteiro para conseguir perceber os diferentes dialectos que existem na ilha principal, como é que se escrevem os caracteres, quais são os sistemas em que se usa em cada um deles, e quais são os equivalentes em cada caso sintáctico. Estava exausta depois de no dia passado ter dado uma queca com o Pedro. A maior parte das miúdas e rapazes da minha idade já sabem fazer poemas ou ler o Bellante Arcaico do Norte, que é uma coisa muito esquisita e muito parecida com o Japonês e eu que me dá em doida sempre que os professores me perguntam qual é a conjugação formal do verbo "ver" ou "receber", ou "ser", ou lá o que o valha.
Mas enfim, que é que pensas que eu sou? Uma coscuvilheira que anda a ouvir a conversa dos outros? Só estava a tentar ver se conseguía perceber o dialecto dela, que devia ser da Cidade dos Deuses.
Bocejei. Sentía o aroma rico e formal a pão-quente com canela doce que emanava das palavras refinadas dela.
A segunda jovem de cabelos acastanhados e encaracolados (tal e qual os caracóis que por vezes aparecem na mousse de chocolate às terças-feiras no jantar) falava com um sotaque arranhado da Floresta de Cristal, mais informal, um pouco apressado nas sílabas, como se estivesse impaciente. Por mim, diria que elas tinham dezasseis a quinze anos. São mais maduras que eu, disso tenho a certeza. Pensei para com os meus botões.
A acompanhá-las, havía outra miúda, esta mais velha que eu um ano, de cabelo escuro e curto, olhos amendoados. É do Norte, e apercebi-me imediatamente disso quando cumprimentou as amigas no sotaque informal da Cidade Perdida, mais familiar para mim do que um lanche de arroz de camarão com algas doces a decorar o arroz que levava comigo.
- Vocês acham que vamos chegar a tempo? - Perguntou ela, enquanto ajeitava a carteira preta aos quadrados.
- Só se o Sr. Director não reparar que estamos lá. - Respondeu a rapariga com sotaque da Cidade dos Deuses. Tinha sardas na cara pálida e um cabelo alaranjado, com olhos claros.
Todas nós estávamos a caminho da Escola de Dois Dedos Perto da Lâmina
de Obsidiana (um nome muito apalavrado para o equivalente a uma secundária para pessoas da burguesia como jovens humanas e bruxas de famílias menos prestigiadas). Por que é que eu ia com elas? Bom, acontece que a minha Escola secundária na Cidade dos Deuses não tinha espaço suficiente para fazer o exame a mais de duzentas raparigas, que é exactamente o número total das miúdas (incluindo eu) da minha turma. É um bocado estranho, mas a minha turma só tem dez rapazes. Talvez porque eu tive que ir para uma turma de burras e de pessoas que ainda andam muito atrasadas na matéria em relação ao mundo Bellante e às línguas e à Magia. A maior parte dos rapazes da minha idade estão quase para ir para uma faculdade de magia. E como o meu pai nunca quis saber da minha educação como uma jovem Bellante, lá tive eu de me instalar com jovens humanas e com fadas e com bruxas de famílias menores. Na verdade, é muito melhor do que estar à beira daqueles gigantones dos Bruxos da minha idade. Eu, que sou um pouco alta, sou levada ao palmo por aqueles rufias de Cyborg Town e de Losjafhden! Se fosse levada para uma turma digna da minha classe e do nome da minha família, tinha de aturar uns quantos setenta magricelas de pele ressequida pelo gelo do Norte e borbulhados a olharem para mim como se eu fosse um gelado numa seca!
O mais engraçado de tudo isto é que eu não conhecia aquelas raparigas de lado nenhum, e no entanto, simpatizava com elas.
- Ele estava uma fera, o Sr. Director de Turma! - A mais nova da Cidade dos Deuses conteve um risinho embaraçado.
- Só espero que tenha tomado um café, ainda nem são oito da manhã! - Comentou a de cabelos encaracolados da Floresta de Cristal.
Deve ser difícil para os feiticeiros mais conservadores - e já agora, mais velhos - terem alunas como nós. Sabes como é, nós somos todas de uma geração que está a milhas da deles! Já para não falar de uma aluna como eu, que está sempre a falar nas aulas. Somos completamente diferentes das raparigas dos Anos 20 ou dos Anos 30 do século passado. Mas isto é mesmo assim...acho que é por isso que são homens a ensinar raparigas e mulheres a ensinar rapazes. Eu também tenho professoras, e o mesmo acontece com os meus colegas da Cidade Perdida, de Cyborg Town e de Losjafhden. É muito mais justo, não achas...? Só depois dos Anos 70 é que começaram a haver aulas com turmas mistas.
Porém há uma coisa que nunca muda: a maior parte dos directores de Turma são bruxos muito velhos, muito resmungões, e muito exigentes. Felizmente que já não existem castigos corporais! Havia professoras do sul que picavam uma jovem desobediente com um espinho de agave - uma planta que, na Ilha principal da Bellanária, só existe na Vila Enublada - na mão. A Sara diz que doía que se fartava e que ao cabo de cinco minutos, a fada que a tinha castigado já lhe tinha retirado o espinho. Não queiras saber quais eram os castigos que os Bruxos do Norte aplicavam aos jovens aprendizes e demónios, porque era muito pior. Aliás, acho que nessa altura - há mais de setenta anos - os homens nunca ensinavam as raparigas. Os Humanos eram sempre ensinados pelos pais, e só aos dezoito anos é que podiam alistar-se no Exército Bellante.
As coisas mudaram muito pela Bellanária, e eu estou tão contente que não nasci na mesma altura que a Sara!
Ora bem, aonde é que eu ia? Ah, sim. Então, as raparigas tinham entrado na Estação Manuelina, que é uma das estações principais de comboios na Cidade dos Deuses, que tem inúmeras paragens de autocarro.
Via-se logo que a ideia de terem um exame com o Director de Turma não lhes agradava nada. A dos cabelos alaranjados acendeu um cigarro, enquanto comentava:
- Isto é muito injusto! Termos que aguentar aquele sapo do Alho do Palácio das Reuniões num exame da Língua Bellante...
A rapariga do Norte esboçou um leve sorriso.
- Pelo menos não temos que aturar os rapazes do 1º ano da Faculdade de Magia Universal de Cyborg Town. - Disse ela, ao pentear o cabelo.
Foi aí que eu decidi meter o bedelho e lançei um olhar espantado para as três:
- Vocês conhecem o Alho? - Exclamei, admirada.
- É claro, ele foi o meu professor de Língua Bellante no 1º Grau. - Respondeu a rapariga de cabelos alaranjados com sotaque da Cidade dos Deuses.
- E também foi o meu! - Acrescentou a fada da Floresta de Cristal. Tremeu com um ar de quem não gostava de pronunciar a alcunha do homem com o sufixo honorífico Bellante - Ele é sinistro, não é?
Acenei com a cabeça, ao aproveitar o semáforo vermelho para abrir a caixa onde estava o meu lanche.
- Sinistro é a favor!
Então, a rapariga da Cidade Perdida reparou na minha marca de família. Ficou parva, enquanto olhava para mim de esguelha, um pouco desconfiada.
- Eh lá, tu és a Jessica Von Tifon! O que é que estás aqui a fazer?
Pousei os pauzinhos com que ia comer o arroz e franzi o sobrolho, aborrecida.
- O mesmo que vocês: a ir para o exame de Língua Bellante do 6º Grau, que é que acham? - Perguntei, com um ar nada surpreso. Não é raro as pessoas reconhecerem-me como a neta do Duque Von Tifon, mas até parece que eu sou uma das noivas do Conde Drácula ou coisa parecida. É muito chato ser-se famosa. Quer dizer, só porque eu tenho aparelho nos dentes, os olhos azuis, esta altura descomunal e um ar de má isso classifica-me como uma Von Tifon, é isso?
Suspirei quando elas ficaram com um ar envergonhado, como que a dizer: "Pois claro, somos mesmo estúpidas..."
- Não faz mal, também posso ser vossa amiga. - Disse eu, ao esboçar um pequeno sorriso, enquanto que dedilhava nos meus caracóis cor de sangue. - Então, quais são os vossos nomes?
- Eu chamo-me Júlia Nestorovna Kaminskaya, sou humana. - Disse a de sardas com cabelos alaranjados e lisos.
- Eu sou a Oshiro Riko, filha de bruxos de patente baixa. - A mais velha da Cidade Perdida sorriu ao inclinar a cabeça.
- O meu nome é Sophia Xocolatlicue. - Timidamente, a fada acenou com uma das mãos, mas de cabeça erguida. - Sou uma dríade.
Vou-te explicar por que razão nós na Bellanária quando nos apresentamos a alguém, temos de dizer que classe é que somos: é uma questão muito antiga, pela qual a língua Bellante se rege em graus de formalidade.
Assim, eu podia saber como é que trataria as três. De qualquer maneira, eu não ligo muito a isso. A língua Bellante é mesmo tramada! Mas ao menos encontrei raparigas da minha idade - ou que pelo menos, compreendem-me. Começámos por falar sobre como eu era uma nódoa a Bellante, e elas disseram que não era assim tão difícil. Ao chegar à Escola Dois Dedos Perto da Lâmina de Obsidiana, não estava mais sozinha. Tinha três amigas muito simpáticas!
