quinta-feira, 22 de maio de 2008

A Lua dos Meus Sonhos - O Início antes do início


Tal como muitas demais histórias, esta começa com o fabrico dum precioso e raro objecto, o qual suscita a admiração de uns e a cobiça de outros.
Este tal artefacto, de grande valor, era denominado por Lua dos Sonhos. Enganam-se aqueles os que julgarem que este material fosse uma coisa bem rica, como um diamante ou uma jóia, feita a partir dos melhores joelheiros! Não...A Lua dos Sonhos era, de facto, uma pedra preciosa, mas não era uma pedra qualquer! Concebida com uma mistura de quartzo róseo e turquesa e âmbar, esta bela gema da forma duma esfera, do tamanho aproximadamente duma noz, que cabia perfeitamente no palmo dum adulto, possuía poderes misteriosos e místicos.
Diziam, em todos os cantos da Atlântida, que, quem a tivesse nas suas mãos, teria todas as raças e criaturas da Dimensão Mágico dominadas! Como funcionaria, é que foi, desde tempos imemoriais, um dilema enigmático e intrigante...! E porquê, perguntam vocês, meus caros leitores? Ora, a razão é simples: Vulcano, o deus romano do fogo, filho de Juno e Júpiter – o pai de todos os Deuses – e deus da metalurgia.
Era conhecido como o ferreiro e artesão dos Deuses, e, assim sendo, ele trabalhava nas mais profundas cavernas do centro da Terra. Isto tudo aconteceu há mais de mil anos, possivelmente nos tempos da fundação da Atlântida, quando nem sequer os Bruxos andavam pelas terras, voavam pelos céus, ou navegavam pelos mares.
Vulcano, o único deus fisicamente feio, com um terrível ódio de morte a Marte, o deus romano da guerra e amante da sua mulher, a bela deusa do amor, Vénus, decidiu vingar-se – mais uma vez – das aventuras amorosas entre o famoso casal.
E, foi no mais escuro e quente dos abismos no amaldiçoado Vale da Morte, uma região maldita da Atlântida, que este poliu e criou, com as suas artes de magia, a famosa Lua dos Sonhos. Vá-se lá saber por que é que pobre coitado pensou numa loucura dessas!...
A seguir, com a vingança a arder no peito, dirigiu-se ao reluzente e majestoso Palácio das Reuniões, localizado no grande e vasto Deserto da Sabedoria.
Para os que não sabem, o Deserto da Sabedoria cobre toda a costa sudeste e um pouco da sudoeste da nossa querida Atlântida. Com a forma dum barco, segurado por duas extremidades em forma de “L’s” invertidos – ou seja, o Deserto da Sabedoria no Norte, a conectar a Atlântida com o continente americano, e os Alpes das Sereias a ligarem o país com a Europa – esta era a forma desta curiosa e abundante ilha.
Como já dissemos, o Palácio das Reuniões era duma grande beleza, situava-se no centro do deserto, e, rodeado grades feitas de cristal inquebrável a um raio de cem metros, o palácio, sob o modelo dum cilindro achatado com mais de trezentos metros de altura, todo ele decorado minuciosamente com cristalinas pedras. Sustido por magníficos pilares de marfim branco na ordem jónica. As incontáveis janelas rectangulares, maravilhosamente esculpidas a prata, com dimensões de três metros de altura e dois de largura, mostravam finas cortinas de seda, sem quaisquer persianas.
Separadas pelos sete frisos da sorte de oiro, que, de certo modo, pareciam enrolar o palácio, tornando-o numa bela flor em botão do deserto.
Por debaixo das altas colunas, situavam-se, em cada lado do palácio com forma de prisma cilíndrico de seis lados, estava um portão de mogno, decorado com alto-relevo clássico, representando a beleza da Matemática, Artes, Letras e Direito.
Era neste local, construído pelos filhos de Neptuno – o Rei do Mediterrâneo e Atlântida, deus romano dos Mares – que os deuses das várias mitologias se reuniam e viviam.
Aqui também funcionava uma escola, desde o primeiro ano até ao secundário, para jovens feiticeiros brancos, fadas, bruxos e outras criaturas que tinham o dom da magia.
Vulcano, ao passar pelas portas, ignorou estupidamente a divindade deste maravilhoso local, na sua infinita burrice, nem reparou que a Lenifg, ou a Sombra, uma espécie de ninfa das trevas o seguia.
A Sombra, ser das trevas, e portanto, serva de Tsesustan, o Mal Supremo, ficou muito interessada ao ver com os seus olhos azuis-claros e frígidos que um deus coxo e corcunda, de barba castanho-escuro, mas olhos muitos expressivos e cabelo desgrenhado e solto, a dar-lhe pelos cabelos, caminhava por entre aquele chão sagrado.
Felizmente que a Sombra não podia entrar no Palácio das Reuniões, apenas entrar nas imediações do território. A Sombra, se ainda não perceberam, é representada por, exactamente, uma sombra duma bela mulher, pequena, despenteada, e de top preto.
Quando quer assumir uma aparência “humana”, esta é mostrada como uma pequeníssima – exactamente de cinquenta centímetros de altura – com lábios vermelhos como o sangue dos Homens; cara mais pálida que a Lua-Cheia; braços mais brancos e magros que as patas dum gato escanzelado; mãos tão pequenas e secas quanto as patas dum corvo; cabelo negro e despenteado, encaracolado e olhos frios, inexpressivos.
Estava classificada na classe das Fadas, mas há muito que a rainha a tinha banido, pois a sua ganância e orgulho fizeram com que as suas asas caíssem mortas, no chão.
Há muito que tinha unido forças com Tsesustan, aquele que, segundo as lendas atlantes contam, é o verdadeiro diabo. Não é nem um bruxo – feiticeiro mau – nem um deus. Ninguém sabe ao certo como é que apareceu nem donde veio, apenas se sabe que é maléfico e terrível!
Uma criatura, ora masculina, ora feminina, que se esconde na escuridão e nos infernos, e que apenas se representam sob a forma de dois olhos aterrorizadores, manchados da cor do fogo, avermelhados e repletos de ódio!
Dois olhos que vêem e observam tudo...E que detestavam a bela e maravilhosa luz e Bem que emanavam do Palácio das Reuniões...No começo da Atlântida, Tsesustan, a incarnação do Mal Supremo e criatura das trevas, ansiava por destruir e envenenar tudo o que os Deuses sábios criavam.
De repente, a Sombra viu outra figura a andar, num passo acelerado, em direcção ao palácio. Escuro e alto, com uma capa a tapar-lhe por completo o rosto disforme, mal se podia dizer que era humano.
Uma voz grossa e poderosa, vinda dum homem, com um bafo sujo de há mais de milhões de anos soltou uma risada amarga.
«Amo?!» Outra voz exclamou, num tom quase ondulado e suspirado sensualmente, como o barulho do sibilar duma serpente. «Também o sentistes?»
A voz grossa, e rude, e muito sinistra, respondeu friamente. «Sim, minha querida Lenifg, o ódio corrompia a alma daquele infeliz.» O homem – ou o quer que fosse que estivesse dentro daquelas vestes negras – respirou bem fundo, soltando uma tosse seca e longa. «Conseguiste apanhar o seu doce odor: o delicioso aroma a algo malicioso e falso, minha escrava?» Disse num tom maldoso. «Sabes o que tens a fazer...Cobre aquela horrível luz com a maravilhosa escuridão!»
O vulto ergueu solenemente as suas mãos, como se estivesse a invocar, possuído, algumas forças maquiavélicas.
«ESPÍRITOS! DOENÇA! PESTE, GUERRA E SOMBRA, E, POR FIM, QUERIDA ILUSÃO!» Gritou histericamente para o céu límpido. «FAÇAM COM QUE OS MEUS INIMIGOS CAEM DE DESESPERO E DESTRUAM AS SUAS CASAS, OS SEUS BENS, AS SUAS FAMÍLIAS, O SEU PRECIOSO E PATÉTICO AMOR!...»
Debateu-se a seguir uma terrível guerra, mas, felizmente, os Deuses ganharam a batalha contra as forças demoníacas e mulheres-generais dos exércitos das trevas, que se intitulavam como Tin, Fer e Nom – Guerra, Peste e Ilusão em Atlante – todas elas furiosas por matar, contra Júpiter, Plutão e Neptuno, que triunfaram, juntamente com os seus colegas, o glorioso Consílio dos Deuses.
Houve muitas baixas, de ambos os lados, mas Tsesustan não conseguiu escapar!...
Para o seu próprio bem, os deuses aprisionaram o Grande Mal numa gruta, na mais profunda das trevas, onde, encerrado numa flecha maligna, para toda a eternidade, ficaria.
Quanto à Lua dos Sonhos, bem....Ela, na verdade foi a arma da sorte para as forças do Bem, pois, quando usada com bons intuitos, a pedra reluziu triunfalmente, e, num raio de luz insuportável para os Demónios – os servos de Tsesustan que estavam mesmo em frente das linhas de batalha – e recuaram, assustados com a Gim, a Luz ou a força interior da pedra. Houve, porém, em toda a história da Atlântida, um anti herói que usou a pedra a seu favor e a propósitos, como e quando precisasse de usar a jóia, o bruxo Rwebertan Samiel Di Euncätzio, o apelidado Assassino do Amor, cujo segredo da utilização apenas revelou à mulher no leito de morte, deixando-lhe várias pistas, para que, um dia, ela encontrasse a jóia, e ajudasse a lutar contra as Forças do Mal.
Com os Demónios banidos para a Fronteira – o lugar mais noroeste da Atlântida e igualmente tenebroso – e com o Tsesustan derrotado, o único problema dos Deuses foi esconder a Lua dos Sonhos para que mais nenhum outro mal antigo ameaçasse a existência divina....!
Qual seria o paradeiro verdadeiro da maravilhosa relíquia...?
Para que propósitos tinha-a Vulcano construído...? E estaria, para sempre, Tsesustan, condenado a ficar reduzido a uma flecha negra...? Sim, mas não a sua serva, Lenifg, que, condenada a renascer todos os séculos como uma mulher malvada e traiçoeira, tão venenosa como as cobras, e mais hipócrita e falsa que um crocodilo, fora incumbida de recuperar a Lua dos Sonhos para o seu senhor, e que, com a sua caixa de mil males, uma vez em cada cem anos, Lenifg libertava todos as forças do Mal sobre a Atlântida, atraindo-as com os seus olhos demoníacos e maléficos…!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Senhor do Castelo (Parte II de III)

Quando, por fim, ele se viu a sós com a rapariga, ele olhou-a com um ar encantador.
- Vamos comer qualquer coisa? – Perguntou, numa voz que podia passar por gentil, e estendendo uma mão a Eleonora, que ela não aceitou. – Então, Princesinha? Não é preciso teres medo de mim, de momento, a única coisa que eu estou interessado em provar é o meu pequeno-almoço normal. Podias esquecer as nossas divergências durante algum tempo e tomar qualquer coisa comigo. Afinal de contas, depois de um mês sem comer absolutamente nada de jeito, deves estar com muita fome, não é?
Eleonora sentiu uma onda de irritação e ultraje a invadi-la, mas expulsou-a, rapidamente. Precisava de estar calma e pensar claramente, e, logicamente, não conseguiria fazê-lo de barriga vazia. Para além do mais, pelo que tinha visto daquela demonstração de raiva do senhor do castelo, ele parecia ser bastante cruel e severo para com os seus escravos!
Deu a mão ao Assassino do Amor, como se toda aquela confiança fosse normal e aceitou o convite dele.
Logo que viu que ela estava segura que não lhe faria mal, Samiel assobiou alto cinco vezes e em cinco segundos, apareceram, vindos de uma porta escondida através dum retracto do pai do senhor daquele castelo, a levitar assombrosamente, dois tabuleiros com três pratinhos de porcelana dispostos em cada ponta, cada cinco fatias de pão quente, acabados de aquecer. Uma baixela de mousse de chocolate veio logo, juntamente com uma jarra de cristal, com sumo de laranja.
Mal desse conta, já toda a comida estava pronta e posta na mesa por aqueles criadas invisíveis, que não passavam de fantasmas das muitas raparigas que o terrível Assassino do Amor matara, apenas com um feitiço muito difícil e complicado fora possível tornar o ectoplasma destes seres deprimentes de forma a que não se visse.
- Desejas um pouco de açúcar e chocolate no teu leite, Eleonora? – Perguntou ele, naturalmente, numa voz simpática, como se fosse normal que uma ondina, ainda por cima uma filha de Neptuno, tomasse o pequeno-almoço com um terrível e maléfico bruxo.
Lambendo os beiços de satisfeita com a torrada com manteiga que tinha comido com grande apetite, a rapariga anuiu timidamente.
O que é que ele queria...?
Estava com algum medo, e era natural. Afinal, ele estava a tratar-lhe como uma igual, e isso era raro na personalidade arrogante e egocêntrica de Samiel.
Por que é que ele não a desprezava, ou dizia coisas vergonhosas a seu respeito...?
Seria muito mais fácil aceitar essa realidade do que a que estava a viver realmente; e, apesar de ser corajosa, só esperava que Indra e Anúbis viessem o mais depressa possível para a irem buscar!
- Sim, pode ser. – Disse ela, nada nervosa.
- Muito bem. – Disse ele calmamente.
A seguir, olhou para o açucareiro e para a baixela de prata e chamou alto, fazendo sinal para eles se aproximarem:
- Açúcar e Chocolate! Venham cá.
Eleonora nem pude acreditar quando a baixela e o açucareiro ganharam vida de novo e levitaram alegremente, quase como crianças irrequietas, até ao copo do gentil anfitrião, que agora, nem parecia o mal-humorado feiticeiro de pedra que há pouco tempo mandara os seus lacaios embora.
Ele sorriu levemente e abanou a cabeça, resignado e, com uma cara que podia passar por a dum homem compreensível.
- Não! – Riu-se honestamente. – Sirvam a nossa encantadora convidada primeiro, minhas chinesinhas incompetentes. Já deviam saber isso.
Num momento inacreditável, ele deu um beijo suavemente na palma da mão da princesa, e acrescentou, num tom gentil:
- Nem que procurassem em todos os cantos do Universo, mulheres idiotas, conseguiriam atingir a beleza e castidade desta adorável e nobre menina.
Eleonora sentiu-se profundamente revoltada e dirigiu o olhar para outro lugar que não o rosto de Samiel.
Ele admirava-a!? Como poderia ser lá isso, se ele detestava todas as Fadas, Deuses e tudo o que fosse benéfico e divino?!
Estava a acontecer tudo como no caso de Eris e do Assassino do Amor…E, no entanto…Não! Samiel nunca era honesto.
As mãos invisíveis dos fantasmas pegaram cuidadosamente no açucareiro e na baixela, estenderam-nas de forma silenciosa até ao tabuleiro de madeira da rapariga.
- Diz-lhes que chega quando não quiseres mais, Princesa. – Aconselhou Samiel com um ar bem disposto. – Depois de acabares o leite, gostaria imenso que me acompanhasses num passeio pelo meus domínios e tivesses uma palavrinha comigo...
Eleonora apenas cruzou firmemente os braços; bastante aborrecidos e retorquiu num tom de desafio:
- Ah, sim! Pois, claro. Eu gostaria imenso de falar com um bruxo velho, feio e mau como vós, ò arrogante e fantasioso Assassino do Amor!
A ondina esperava uma ameaça ou insulto horrível por parte do feiticeiro, mas ele, em vez disso, bateu palmas entusiasmadamente.
Com um sorriso, bebeu um pouco de Frambinam rapidamente, engolindo de forma muito perturbadora a bebida alcoólica.
- Bravo, Eleonora. – Disse ele satisfeito. – Afinal, também consegues ser sarcástica.
Por esta altura, já a princesa começava a ter dúvidas se o Assassino do Amor realmente era um monstro sádico e sedento de poder ou um bruxo com um coração de manteiga.
As faces de Eleonora coraram de pudor, enquanto bebia o leite com ambas as mãos nervosas.
Engoliu duma só vez o doce leite, que tinha um aroma divinal a pêssego e canela, com o qual ela ficou quase que relaxada e olhou para os olhos verdes de Samiel, escondendo timidamente as mãos debaixo da mesa.
- Desculpai se foi isso que as minhas palavras vos pareceram. – Disse num tom defensivo e humilde. – Não queria, de maneira alguma, ser admirada por vós.
Ele estava a ser tão simpático e querido para ela...! Não podiam haver dois homens no mesmo corpo! E isso, assustava-a imenso. Ainda mais do que o próprio aspecto dele. O facto é que com ele, tudo era imprevisível, ele nunca fazia o que realmente se esperava da sua parte. Era esse o terror que o perverso Mestre Samiel influenciava nas pessoas: não há nada mais assustador do que não saber o que é que o destino nos reserva...!
Para além de Indra e dos guardas, ela nunca tinha visto um homem a sério em toda a sua vida – muito menos um bruxo – o que a mantinha numa posição ainda mais ingénua e ignorante. Apesar de demonstrado ter muita fibra e valentia, estava com receio que Samiel a pudesse apanhá-la nas suas garras.
Foi obrigada a admitir que ali, ele era o senhor, e ela, apenas uma mera rapariga, que Samiel poderia muito bem assassinar num piscar de olhos, ao virar duma esquina, e ela, neste caso em particular, estava em desvantagem.
Quase que virando o leite, aceitou a proposta com um anuir humilde da cabeça, mas lançou-lhe um olhar desconfiado.
- Só depois de me prometerdes que não tentareis violar-me. – Um sorriso de desafio apareceu de repente no rosto de Eleonora.
- Isso será uma promessa difícil de cumprir, minha querida. – Respondeu o bruxo, retribuindo com um sorriso matreiro, mas um pouco levado na brincadeira. – Mas não te preocupes, que eu não te quero fazer mal, és a minha convidada, afinal de contas.
De súbito, ela deu – por sua própria vontade – um beijo brincalhão no rosto desfigurado do bruxo, com um sobrolho levantado, mas com um sorriso amarelo nos lábios femininos.
Seria…?

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O Senhor do Castelo (Parte I de III)


Ao chegar ao colossal átrio de cinquenta metros de altura, com uma gigantesca cúpula de vidro em forma de esfera, viu que o Sol incidia propositadamente sobre o centro do salão pentagonal, onde uma figura em mosaico dum tigre branco a chacinar, em cima de uma fada, os órgãos sexuais desta, que estagiava-se em sangue...!
Do lado direito do extenso átrio, havia duas portas às quais davam acesso a dois salões – Salão de Jantar e Biblioteca, segundo as placas. No esquerdo, haviam também duas portas, menos ricamente decoradas, que tinham os seguintes letreiros: “Escritório” e “Sala Proibida”.
Com o espaço totalmente vazio, um homem de média estatura, capuz amarelecerão e um manto de viagem sujo e empobrecido, com botas de cano alto castanhas, apoiado num bastão de um metro e sessenta, feito com madeira de um carvalheira, estava de pé no centro desse mesmo mosaico.
Então Eleonora apercebeu-se que era Jerininantus, o desprezível motorista e fiel braço-direito do Assassino do Amor.
Que estava ele a fazer numa casa tão fina como aquela...?
A jovem engoliu em seco: só esperava que as suas previsões não se tornassem em certezas!
Os dois bruxos anuíram simultaneamente com a cabeça, com olhares amarelos e a rirem-se baixinho.
A seguir, escoltaram a princesa até à primeira porta do lado direito, onde mal ela entrou, as portas fecharam-se rapidamente atrás de si!
Estava numa enorme sala rectangular, sem janelas, nem portas, com um grande candelabro de setecentas pedras preciosas a brilharem o escuro recinto.
Quatro mesas compridas feitas de madeira estavam praticamente dispostas em forma de “E”, com todas cadeiras pequenas numa madeira vermelha. Na base da letra, um homem alto estava refastelado num grande trono de madeira preto. Neste trono estavam esculpidos em baixo-relevo um “D” vermelho e um “S” que serpenteava pela outra letra, dispostos sobre um tigre prateado com riscas azuis, de com braços fortes e altos. Debaixo dele, havia uma cauda branca às riscas pretas que fazia uns certos barulhos estranhos.
O seu rosto estava coberto pelas sombras do capuz preto, mas mesmo assim, ficava extremamente elegante e, de certa forma, as roupas escuras com estranhas linhas vermelhas de sangue e roxo davam-lhe um certo ar poderoso. Com um estranho objecto prateado a pender da luva direita de cabedal, igualmente roxo, o tal feiticeiro tinha um aspecto deveras sinistro. No entanto, a princesa não se deixou intimidar.
Sem esperar que a chamassem, a rapariga avançou em direcção do feiticeiro, com uma altivez quase etérea, o vestido a ondular à sua volta, de forma adorável. Apesar de, no fundo estar receosa e preocupada, não havia dúvida que era uma das filhas da velha Rainha Melnjar das Fadas, Senhora da grandiosa Floresta de Cristal, Esposa do Rei Neptuno.
O feiticeiro soprou uma misteriosa baforada de fumo para a cara da corajosa menina.
- Bem vinda, Princesa Eleonora. – Disse Samiel com um sorriso falso e uma voz aguda, muito familiar a Eleonora, parecia já a ter ouvido num tom mais grave e masculino, quando Samiel era ainda um feiticeiro normal. Retirou das vestes uma adaga de jade com a qual arrancou cuidadosamente qual artesão a refinar os pormenores duma jóia as correntes nos pés e mãos de Eleonora, e, mal a lâmina passou pelas ferrugentas e desconfortáveis algemas, estas desfizeram-se em pó, que a boquilha presa na boca de Samiel aspirou. – Já não precisas delas, agora estás comigo.
Depois, examinou atentamente os pulsos de Eleonora por um momento.
«…como eram bonitos e frágeis, como pequenos pastéis morenos, recheados de mil pozinhos de chocolate de avelã, com um uma pitada de açúcar escondido nos lagos da floresta, símbolos de humildade e formosura eram, aquelas canas de canela e mel, que tive o prazer de cheirar e sentir. Oh, como a seta do Cupido me atingiu naqueles trágicos instantes. Aquele aroma a canela e pêssego lembrava-me as românticas recordações de Samielzinho, menino, aprendiz de chocolateiro…» e ergueu o olhar para a única porta ao longe.
– Tsc, tsc, tsc. Jerininantus! Nimtauk! – Ordenou alto num tom irritado os nomes dos seus mais fiéis lacaios.
Os dois homens andaram em passos apressados para irem ter com o seu mestre, e ajoelharam-se numa vénia profunda.
- Sim, Patrão? – Disseram ambos com olhares vazios e em tons respeitosos.
- Vocês fizeram um trabalho deficiente. Usaram demasiada força ao trazerem a Princesa Eleonora, primeiro no fim da batalha, agora, quando tu, Nimtauk pediste que te seguisse. Os pulsos da princesa estão não só esfolados, mas rasgados. E há sangue fresco nas feridas. Mesmo com um banho, é possível ver as cicatrizes.
Samiel quase parecia zangado, e, atrás de si, a princesa ouviu um comentário atrapalhado por parte de Nimtauk:
- Perdoai-nos, Mestre...
O feiticeiro agitou a cigarrilha de forma quase desinteressada, e, olhando com incrível crueldade os lacaios, com os braços cruzados, deitou uma fumarada arrogante para as caras dos subordinados.
- No Castelo Negro, não há lugar para vencidos. – Comentou ele de forma fria e autoritária. – Mas, uma vez que sou generoso, vou dar-vos uma última oportunidade. Se algum de vós cometer mais um erro que seja, fiquem a saber que o CASTIGO que vos estará reservado será doloroso e prolongado!
Os dois carrascos estremeceram ao ouvirem estas palavras. Nenhum deles tinha-o visto tão ameaçador como naquela altura.
Levantaram-se cuidadosamente, e, permaneceram de calcanhares juntos até que este lhes disse com um sorriso irónico:
- Bom...! Afinal, até fizeram um bom trabalho ao dominarem a princesa, uma vez que, se fosse Sua Majestade, a Rainha Melnjar, já estariam sem mãos para o resto da vida.....
Já lhes ia ordenar ainda mais alguma coisa, se não fosse a interrupção ousada de Eleonora.
- Deixemo-nos disto, Assassino do Amor! – Disse ela, numa voz tão convicta e alta, que até Nimtauk e Jerininantus desviaram o olhar, muito surpresos com a valentia dela. – O que é pretendeis realmente, agora que me tendes nas vossas mãos?
Samiel levantou-se de seguida, e, fitou o seu olhar no de Eleonora, permanecendo contudo no lugar, e, tirou rapidamente o capuz.
- Para já, apenas conversar convosco, Vossa Alteza. – Respondeu ele calmamente, num tom agradável. Só aí, é que Eleonora se apercebeu do quanto diferente Samiel estava da primeira vez que o vira, há uns anos, quando ela ainda era uma criança.
O seu rosto oval, antes belo e jovem, estava desfigurado por enormes queimaduras e terríveis cicatrizes, que se prolongavam pelo pescoço, mas que quase não chegavam ao tronco. Eris tinha sido misericordiosa em poupar o resto do corpo do bruxo a semelhante castigo. O seu cabelo ruivo cor-de-fogo, outrora longo e comprido, estava reduzido a um cabelo rebelde e que não chegava aos ombros por uma unha negra. No entanto, os lábios permaneciam os mesmos sempre: tentadores e efeminados, um bocado seco.
O seu aspecto era tão horrendo que Eleonora assustou-se.
Samiel esboçou um pequeno sorriso, talvez o primeiro em que não havia nada de maldoso, e olhou para os dois ajudantes, mais um grupo de cinco demónios que os observavam.
- Mas ainda estão aqui, minha cambada de imbecis? – Perguntou autoritariamente numa voz alta. – Voltem ao trabalho e vigiem as portas. Nada disto vos interessa, escumalha. Depois asserto contas com vocês e o vosso líder mentecapto!
A sua voz suou como um poderoso trovão, e atingiu de rompante os acéfalos demónios, que logo ficaram surdos.
Olhou por um momento para a rapariga, já sentada ao seu lado direito, e esboçou um sorriso cínico, acrescentou:
- Só para o caso de termos certos convidados indesejados...
Imediatamente, Jerininantus, Nimtauk e os demónios desviaram a atenção, e, num olhar solene apressado, dirigiram-se às portas, fechando-as rapidamente.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

A Lua dos Meus Sonhos…


Uma conspiração ainda mais terrível do que a própria segunda grande guerra mundial abate-se na pacata ilha do Atlântico mais próspera de 1932, quando um estranho assassinato ocorre no dia de S. João, durante um baile, em Cyborg Town.

Em breve, os peritos e uma organização com a causa no pacifismo e no conceito da paz duradoura, a Resistência, contacta um português, um feiticeiro melindroso que acaba por guardar com a vida a Princesa Swerdinada De Fogo, avatar da princesa viúva do Assassino do Amor.

Mas, como Manuel Irmãozinho irá descobrir, nesta batalha secreta, as Forças do Mal unem forças para desvendar a tempo um mistério ainda maior que a própria vida, fechado numa gema preciosa, cuja chave para tal tesouro é uma ninfa dos bosques desaparecida e esquiva, que, com a sua magia, revelará o lado mais obscuro da magia.

Um conto enigmático de amor, crime, e fantasia, onde descemos, desde às mais alegres e humildes ruas atlantes, até aos palácios dos senhores da magia negra, ambos repletos de realismo e naturalidade quase inimaginável…

Só visto no Grito da Verdade, brevemente…!

sábado, 26 de abril de 2008

Prisioneira ou hóspede?...



Eleonora acordou sobressaltada, abrindo violentamente os olhos, a suar tremendamente da testa morena, como se tivesse acabado de acordado de um sonho mau.
Ao olhar à sua volta, viu um amplo quarto, com um tecto piramidal, onde fadas brincavam alegremente nas pinturas de pequenas nuvens celestes em curvas e espirais. Toda a suite era pintada num azul inócuo e luxuoso, onde o rodapé e os cantos tinham sido banhados dum dourado fino e elegante. No espaçoso quarto verde de jade, à direita havia um toucador de madeira de cipreste, uma cadeirinha confortável de veludo vermelha-escura, e, por fim, uma lâmpada de incenso para iluminar a sala. Na antecâmara, havia uma banheira feita de um produto bem macio e branco, com linhas prateadas à volta, com pés de leão, e ao pé da berma do quarto de banho com nove metros de largura sem janelas, havia um gel de banho de pêssego perlado – a substância preferida de Eleonora – e uma toalha cor-de-rosa, com um E em turquesas bordado no canto direito. Ao lado direito, brilhava o Sol em duas longas janelas em forma de triângulo abriam-se para a linda paisagem das montanhas verdejantes ao longe, de manhã. Aquele lugar era simplesmente maravilhoso... Mas...Aquele não era o seu quarto de dormir! Onde raio é que estaria...? Sabia que aquilo tudo era demasiado bom para ser verdade, e perguntou a si mesma se não seria um produto das ilusões criadas por aquele demónio.
Parecia igual a um sonho que tivera anos antes…Com um estranho nevoeiro espesso a rodear o chão branco de mármore, aquele mesmo quarto, a dormir com um perfeito estranho. Subitamente, apercebia-se que não era um homem, mas sim uma serpente que a enrolava nos seus anéis com muita força na cama. A seguir, a serpente transformava-se num bruxo, de olhos verdes aterrorizadores!
No entanto, ali estava ela, com uma bonita camisa de dormir esvoaçante branca, que dava a ilusão de ter cauda. Só se apercebeu que alguém lhe tinha tirado o soutien quando tocou no peito redondinho e roliço com as mãos atadas uma à outra com correntes a deitar chamas azuis-claras. Corou de vergonha.
Fosse quem fosse o senhor ou senhora daquele paço, não a gostaria de a ver, vestida naqueles modos.
Automaticamente, com a ajuda de algumas ninfas e escravas que moravam no castelo, tomou um relaxante e rápido banho pensando em mil bolhas de sabão que escorregavam pelo corpo esguio e esteticamente perfeito, uma ondina secou com grande beleza o longo cabelo encaracolado, e ao ver que elas se retiravam com vénias solenes, sorriu, feliz. Tinha de agradecer a enorme hospitalidade à pessoa que governava naquele castelo. Contudo, não percebia porque é que não lhe tinham tirado as correntes. Estariam com medo que ela ficasse assustada? Porque é que lhe tinham amarrado?...
Com as brisas fracas e gélidas das sílfides, penteou numa elegante trança grande que lhe caía até ao peito descoberto e belo, jovem. Procurou pelo armário de mogno castanho e descobriu um lindo vestido azul com linhas douradas, com um grande decote que chegava ao centro do peito e terminava numas formosas e refinadas linhas dos pezinhos delicados, calçados por umas sabinas brancas de seda.
Pintou os lábios com um glose leve e discreto feito de groselha, que lhes deu um brilho bonito e maravilhoso. Com um colar simples com um tridente azul – o símbolo da Atlântida – esperou, quieta e sentada no toucador.
Achou-se incrivelmente bela, com as linhas do seu corpo delimitadas pelo vestido feito de tecidos vindos especialmente do oriente, e, com as suas mãozinhas bem retocadas com um pó branco e fresco, um unguento de algas que lhe amaciou a pele e o cabelo negro encaracolado. Eleonora já era uma rapariga deveras atraente, agora, com aqueles preparos, estava naturalmente amorosa e encantadora.
Nunca tinha sido mimada com tantos presentes…Sentia-se como uma pomba num mundo só seu.
Cinco minutos depois, o gigante germânico conhecido como Nimtauk abriu a porta e sorriu maldosamente.
Agarrou com alguma força o braço direito de Eleonora, que o olhou com menosprezo e nojo.
- Bons dias, Princesa Eleonora. – Disse num tom irónico. – Vinde comigo, o meu mestre está à vossa espera.
Com algum desdém, ele arrastou-a bruscamente até aos azuis-escuros corredores, qual lobo faminto, a segurar firmemente na sua presa.
Depois duns longos metros a percorrer largos corredores, entapetados com rastos macabros de sangue prateado de ninfas e fadas, Nimtauk fê-la descer uma escadaria em caracol, perfeitamente arquitectada para se parecer com um enorme tigre de mármore que se erguia majestosamente até ao último andar, com os seus dentes de marfim longos e afiados.
Ao longo da descida, ela questionava-se o porquê de tanta monumentalidade na arquitectura daquele castelo.

terça-feira, 22 de abril de 2008

A Princesa Eleonora em Perigo...!


O Sol punha-se perigosamente sobre as montanhas, colorando lentamente o branco da neve, nunca derretida da altíssima cadeia montanhosa num lindo rosadíssimo. Os Alpes das Sereias são um lugar sagrado para a maior parte do povo atlante, e, igualmente, assombrado!
Várias criaturas assustadoras e espíritos malignos habitam neste despenhadeiro entre o alto e o baixo. Quem passar da Europa para a Atlântida por este tortuoso caminho só pode ser louco, pois desconhece os inúmeros perigos que lhe estão reservados. Há mais de noventa mil anos, um grupo de pessoas decidiu ficar na Montanha Lelsut – a Amaldiçoada! Passados sete anos de azar, estas transformaram-se em seres canibais e de uma fealdade indescritível.
Diz-se que a maior parte dos Demónios descende destas almas penadas.
Na gruta escura onde Eleonora estava presa, o demónio olhou para ela com os seus olhos raiados em sangue e esboçou algo a que se podia ser um sorriso, se não fossem aqueles horríveis dentes afiados.
- Me amor, porquê tens medo de mine? – Resmungou a voz grave e rude, como um trovão. – Nom te preocupes, quando ouvires a manha música, Nom ficarás tão tímida.
Mas, a pobrezinha, um pouco aflita no coração, mas serena no semblante, tapava sempre a cara e os ouvidos, perturbada com a visão hedionda que era o demónio.
De repente, ouviram-se trombetas de combate, e a saliência cinzenta e perigosamente inclinada foi alvo de uma enxurrada de setas.
Apanhado de surpresa pelo ataque, a feia cara do demónio tornava-se ainda mais vermelha, de tão irritado que estava, e barafustou bruscamente para as suas loucas concubinas para que se fossem atirar do precipício de propósito, para que assim ele estivesse seguro. Astilmutchan era, logicamente, um cobarde, e, por mais ilusório que fosse, não queria ver a sua pele dilacerada pelas setas vindas debaixo. E esse foi o seu maior erro!
As raparigas, dentro de trinta minutos, desvairadas como tudo, do mesmo género das escravas de Samiel, mas ainda com um aspecto mais podre e sem grilhetas, atiraram-se imediatamente. Num curto espaço de tempo, o senhor da gruta escutou os gritos das suas donzelas a serem brutalmente dilaceradas lá em baixo por espinhos, altamente tóxicos, preparados especialmente para elas. A batalha nem quinze minutos durara e o idiota homenzinho já perdera todas as suas esperanças, uma vez que a ofensiva do Assassino do Amor tinha sido tão bem pensada e cuidadosamente preparada até ao mais ínfimo detalhe de vantagem do campo.
Julgar que as salvas de flechas mortíferas vinham da parte de baixo da montanha e que não eram letais fora um erro crasso.
Sem saber o que fazer, pegou com a mão esquerda na sua espada de dois gumes e, com um movimento quase patético, levantou a princesa rudemente, sem sequer lhe pedir licença. Os demónios, como Samiel dissera, eram – e são na sua maioria – criaturas estúpidas, e o que lhes falta em inteligência, é preenchido com a sua ferocidade. Obviamente que ele não ia ficar parado até que os arqueiros parassem de disparar. Ele, como Senhor das Profundezas (o que, diga-se de passagem, não era lá muito, a contar com o código quase senhorial atlante da época) devia defender o seu território e todos os que nele habitassem.
A salva de tiros parou quando os homens do Assassino do Amor repararam na rapariga, meio chateada, a fazer das tripas coração para não vomitar aos ombros do desajeitado monstro. A maior parte dos cavaleiros iam de cavalos alados negros com asas de morcego vermelhas, que relinchavam fantasmagoricamente.
Atrás deles, vinham Indra com o seu elefante branco, numa das grandes saliências e Anúbis, na forma de
Um homem de cabelos louros e aspecto germânico – que parecia o líder daquela montada de vinte bruxos – ordenou numa voz alta:
- Rende-te, ò Senhor das Profundezas, e o meu mestre te dará uma morte rápida e indolor, digna de um grande demónio como tu...
O demónio balançava maldosamente a rapariga entre os braços deformados e vermelhos, como se esta fosse um brinquedo, e enquanto isso, empunhava a sua ridícula lâmina de jade qual um disco rígido e pesado.
- Nunca! – Rosnou Astilmutchan rispidamente. – Achais mesmo que me meteis medo, Nimtauk?! Eu tenho aquilo que o vosso senhor tanto procura, e se a quereis tanto, aqui a tendes!
Dito estas palavras, o azteca atirou Eleonora para os obscuros abismos, onde as únicas coisas que se podia ver eram os aguçados cristais, impregnados de veneno.
Os bruxos ao verem tamanho disparate, com vários jactos de água vindos das suas mãos, desarmaram rapidamente o demónio e acorrentaram-no num instante com fortes grilhetas nas mãos e nos pés.
- INDRAAAAAAAAAAAAAAAAA..... – Berrou Eleonora, sentindo as lágrimas a molharem-lhe o rosto.
Num gesto quase instantâneo, Anúbis abriu as suas asas com penas brancas e duma envergadura de cinco metros, quase como todas as que os deuses egípcios têm e voou rasante, apanhando por uma unha negra a menina, que chorava constantemente ao ver o seu trágico fim.
Ao ouvir o grito da amada, o valoroso príncipe, numa calma quase fria e veloz como um relâmpago, desceu numa questão de segundos o precipício com o elefante branco a bramir um grito de vitória.
Enquanto a vida de Eleonora passava-lhe num flashback de memórias, um falcão, com as costas das asas vermelhas como o Sol e os ombros negros como a escuridão, observava das alturas tudo aquilo que se passava.
Com um raio de luzes verdes e azuis, a poderosa ave de rapina transformou a pequenita numa noz. Os acontecimentos, naquele momento, foram-se desenrolando de uma forma tão acelerada que apenas com um efeito lento é que nos poderíamos aperceber que Indra não recebeu nada nos seus braços, e que o magnífico pássaro de olhos verdes penetrantes apanhara silenciosamente a noz num voo picado a trezentos quilómetros por hora.
Abrindo as asas com um ar triunfante, o falcão olhou uma última vez para a noz com alguma indiferença.
O misterioso pássaro, em vez de pousar suavemente numa das muitas saliências da escarpa, envoltas nas brumas do entardecer, abriu novamente as suas asas musculadas e heróicas, voando, mais rápido do que um único som, para outras paragens desconhecidas.
Ao vislumbrar por uma última vez o falcão, já um pontinho negro no horizonte, o guerreiro hindu suspirou, olhando para cima, no desfiladeiro Fgesil Tirnam em busca de respostas sábias.
- Para onde é que aquela fantástica ave terá ido? – Perguntou prudentemente.
Anúbis olhou também para cima, e reparou que, tal como o pássaro e a princesa, os cavaleiros negros tinham desaparecido, tão enigmaticamente como tinham aparecido.
Pelo seu amor, Indra era capaz de fazer tudo, mas tinha de permanecer eternamente a famosa paciência oriental, e esperar que tudo corresse pela positiva, ao contrário do amigo, que não podia acreditar em ninguém.
Toda a gente na Índia dizia que o humano Príncipe Indra descendia de deuses e que era a pessoa mais bondosa e justa em toda a Ásia. Teria o seu amor desaparecido para todo o sempre
...?

segunda-feira, 31 de março de 2008

«...Eleonora, um espinho na bota...» (1ª parte)


Samiel apenas tinha medo duma coisa: que Eleonora fosse tão corajosa e esperta como ouvia dizer pelos seus esbirros na Floresta de Cristal. Ele sabia como meter medo a raparigas mais novas do que a própria Princesa, mas se por acaso alguma delas fosse mais inteligente e traiçoeira, ele punha-a logo de lado e matava-a num abrir e fechar de olhos. Esse era o truque do implacável Assassino do Amor; seduzir e destruir, o seu modus operandi, por assim dizer. Se uma rapariga se demonstrasse demasiado astuta para não se aperceber do que é que ele lhe podia fazer, nesse caso, ele a mataria. Era a única forma de escapar a uma infeliz prisão.

E, embora tivesse o conhecimento que Eleonora era muito cabeça no ar, ele estava receoso de que ela arrruínasse os seus planos. Não! Isso nunca! Ele iria mostrar àquela rapariga quem realmente mandava na Atlântida.


Ao pensar que tudo o que fazia estava, redondamente certo para a sua mente distorcida, esboçou um sorriso compreensível, como se perdoasse a si próprio por pensar em tal disparate.
Depois, ao passar uma das mãos pelo pêlo áspero do tigre num gesto carinhoso e raro, retomou a conversa, o que fez os dois guerreiros estremecerem.
Ainda absorto nas carícias que fazia ao seu animal, não deixava de erguer o olhar para os dois rapazes, mostrando uns olhos particularmente ameaçadores, aquele sorriso pessoal desaparecera por completo para dar lugar a um olhar bastante severo e amargo.
- Estou só a dar-vos uma versão diferente de como os acontecimentos se desenrolam entre as classes. Não tenho quaisquer remorsos acerca de trazer para a Atlântida males então desconhecidos para a maior parte da rude populaça, – começava a notar-se na voz de Samiel uma ponta de fúria. – Por isso, não preciso de atirar as culpas para cima de ninguém. Só acho que vós, Deuses devíeis estar mais alerta quanto aos malfeitores que infestam este país. Aqueles idiotas dos Demónios são mais estúpidos do que um grupo de burros a olharem uns para os outros. Perigosos, mas estúpidos. E vós sois duplamente ignorantes ao pensar que podíeis deixá-los por aí á solta.
Samiel soltou um suspiro sarcástico, seguido de uma gargalhada trocista e acrescentou cinicamente:
- Enfim! Se eu fosse a Neptuno, começava a prestar mais atenção aos demónios e bruxas que andam por aí no seu reino, pois comparado com eles, sou um santo!
Anúbis, farto de tanta conversa e lábia do Assassino do Amor, apontou ousadamente de súbito o seu machado flamejante ao pescoço do feiticeiro, com um ar bastante sério.
O jovem deus egípcio desconfiava que Samiel era o único responsável pelo desaparecimento de Eleonora. Afinal, porque razão haveria de confiar nele?
Há um mês atrás, ele tinha-o enganado e a fazerem o trabalho sujo de apanharem Claudinitiana. Por outro lado, o bruxo era a criatura mais perigosa de toda a Atlântida. Não haveria nada a temer com um feiticeiro negro ao seu lado. Mas, tinha que ter em conta que Samiel tinha, para além de outras mais alcunhas, o apelido do “Chefe da Camuflagem”. Com o Assassino do Amor, nada era verdadeiro!
Numa posição de ataque, ele lançou um olhar de menosprezo para o bruxo.
- Basta de paleio, seu louco! – Exclamou ele ameaçadoramente. – Ou dizes o que é que fizeste à princesa, ou acabas como batatas fritas para demónios!
Samiel, nada impressionado, fitou friamente o atacante nos olhos e, calmamente, pousou a cigarrilha num cinzeiro.
A arrogância habitual do bruxo começou a trabalhar instantaneamente, mas não a demonstrou com gritos ou insultos, como normalmente os seus homens faziam. Não, ele preferia ser mais gelado do que um iceberg e manter a dignidade que ainda lhe restava.
Se tivesse que haver sarilhos, certamente não seria o grande Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio que os iria ter, mas sim aqueles dois rapazes insensatos. Lançou o olhar mais gentil e brando que conseguiu arranjar e, num gesto diplomático, mas muito avisador, tentou falar com os deuses duma forma pacífica, estendendo as mãos para cima, afastando discretamente a lâmina do machado da sua garganta com as garras compridas e pálidas.
- Pousa isso, rapaz! – Ordenou. – Ainda acabas por te magoar...
Mas, antes que acabasse a frase com dois sentidos, encontrou uma flecha encostada ao seu nariz, com Indra, furioso, segurando nervosamente o arco.
- Dizei-me onde está a minha Eli imediatamente, por Trimurti, senão ides ter uma terceira narina para o resto da vida! – Cortou ele, num tom irritadiço.
Um pouco contrariado, Samiel encolheu os ombros inocentemente, e, a olhar para o tigre, que agora rugia num tom de clara ameaça para Anúbis e Indra, ele abanou a cabeça teatralmente, e murmurou baixo ao felino para se acalmar, que o “papá” ia só ter uma conversa com aqueles dois senhores.
De mãos no ar, ele mentiu com um ar aparentemente honesto aos dois deuses que vira, enquanto apanhava os espólios da caça, um demónio azteca que ele conhecia como Astilmutchan, o Senhor das Profundezas, a levar uma rapariga inconsciente. Na sua bizarra versão dos factos (inventados, é claro), ainda tentou perguntar indirectamente ao demónio quem era aquela beldade. «...porém, o imbecil nem falar convenientemente sabia, doravante que não tive a oportunidade para descobrir se ela era realmente a amorosa Eleonora.» Disse ele, fingindo-se com compaixão. «Pobre princesa... Quem sabe se talvez ela já não esteja entre os anjinhos...!» Insinuou ele com um sorriso escarninho e trocista.
«Bruxo mentiroso!» Vociferou Indra. «Ela não pode estar morta...Não! A minha prometida Eli não pode...»
«Cuidado, Indra!» Avisou Anúbis com um olhar incriminatório para o senhor daquele castelo. «Este tipo de bruxo é tão venenoso que até polui o ar que respira. Como é que tu és capaz de dizeres uma barbaridade dessas à frente do noivo de Eleonora?! Isso não pode ser verdade, Eleonora sabe muito defender-se sozinha de tipos pirados da cabeça como tu!»
O cruel feiticeiro fingiu-se admirado e, afagando ternamente a cabeça do seu tigre, semicerrou os olhos, como um cão apanhado em falta.
«Oh, peço imensas desculpas!» Exclamou num tom zombeteiro. «Pobre infeliz, não fazia a menor ideia...Então já marcou a data para serdes queimado vivo?
[1]»
Indra ainda queria enfiar o seu tridente pela goela abaixo do bruxo, mas, uma vez que a violência não resolve nada, decidiu tentar convencê-lo a ajudar na busca da pobre Eli.
Anúbis e o hindu disseram a Samiel que não faziam a menor ideia de como combater tal criatura, nem qual era a verdadeira forma desse demónio, mas que caso ele não os ajudasse, iriam contar ao Palácio das Reuniões que ele, o poderoso e temido Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio podia ter alguma coisa a ver com o desaparecimento de Eleonora, uma vez que tinha estado no local do rapto à mesma hora a que o demónio esteve.
Foi aí que o Assassino do Amor revelou uma grande perspicácia e sabedoria acerca de Demónios antigos e a melhor maneira de os derrotar.
«Astilmutchan pode disfarçar-se de várias maneiras, mas as mais populares são um bode, um elegante salmão falante e a dum corvo gigante. O seu verdadeiro aspecto horripilante é a dum porco com o rosto dum cachorro com raiva. Adora enlouquecer raparigas da idade da princesa com a sua música ensurdecedora que toca numa guitarra! Ele vive nos Alpes das Sereias, juntamente com o seu harém de mulheres doidas, onde, uma vez por ano, arranca o coração duma coitada. E, mesmo assim, estão vivas!»
Curiosos e aterrorizados com o que Samiel lhes tinha contado, imploraram para que este os ajudasse sem demora, por Deus, que não queriam ver a querida Princesinha louca.
[1] Samiel estava a referir-se, claro, à tradição dum sacrifício feito em certas zonas da Índia, onde, quando o noivo ou a noiva morrem antes do casamento, o outro irá ser queimado vivo com o defunto.