quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Que o Sol nunca acorde...

Daqui tifongirl...estava no deviantart como de costume quando reparei numa questão muito engraçada que as pessoas fazem quando são escritoras e querem apresentar os seus personagens:

"When and with whom was your first kiss?"  Quando e com quem é que foi o teu primeiro beijo? Nunca tinha pensado nisso em relação a uma certa personagem que eu tenho. Primeiro porque ele era demasiado velho para que eu conseguisse adivinhar, e depois porque o exercício de contar na primeira pessoa seria demasiado embaraçoso para o homem em questão. 

Porém, assim, hoje, o vento da inspiração bateu-me à porta e já não estava com problemas para descrever a cena. Posso muito bem imaginar como é que seria... Tenho andado mesmo interessada pela cultura oriental!

Culpa dele... ah, ah! 


O nome completo – Adrian Demetrius – era a mistura de nomes de vários santos, de acordo com a lei alemã, e não com a Bellante. “Demetrius” era a forma latinizada de “Deméter”, a deusa mãe da terra na Mitologia Grega. Enquanto Adrian era a forma Germânica de Hadrian “da Cidade Italiana de Hadra”. Não era exactamente o nome perfeito para um guerreiro que a Senhora Murakami queria, mas era o nome legal que os Alemães queriam. Em breve (dadas as circunstâncias em que as mulheres Alemãs da nobreza queriam tirar-lhe o filho para educa-lo segundo os princípios prostestantes cristãos) ela viu-se forçada a levar o pequeno para o Império do Sol-Nascente. Quando o jovem “Adrian-chan[1]” tinha oito anos, a mãe teve outro filho – Karl Adolf e ficou assim com um marido embaraçado por ter de explicar à sociedade alemã porque é que uma mulher de cinquenta e cinco anos continuava a ter uma barriga tão fértil. Foi por causa disso (e muito mais) que a mulher arranjou uma maneira de abandonar o jovem Kali-chan de um ano na Baviera, no meio do caminho. Adrian-chan ficara muito contente, por continuar a ser o filho preferido da “Mamã”, e por abandonar aquela terra horrorosa onde as mulheres o chamavam de mal-educado por ele pregar partidas – e que algumas até o ameaçavam de lhe bater. Passaram-se sete anos, e a “Mamã” tinha outro filho. O jovem Adrian ficou muito aborrecido por ter de compartilhar o “Casarão da Mamã” com um bebé chorão – que ainda para piorar não tinha um nome Japonês. Foi nessa altura que Adrian von Tifon queria ser tratado pelos “amigos” e pelos inimigos por Murakami e não pelo seu nome europeu. Sabia manejar a espada muito bem, e precisou menos que semanas para se destacar na Era Tokugawa como um samurai experiente. A honrada família Murakami ocultava bem a sua “raça demoníaca”, e a Senhora Yui era cuidadosa o suficiente para ensinar aos dois filhos os ensinamentos de como se comportar civilizadamente na sociedade Japonesa, seguidos por uma filhinha que nasceu em 1810.

O “Senhor Christophe”, o esposo, gostava muito mais do Japão do que a Alemanha. Ali era o patriarca e não tardou a ganhar um pouco de confiança para tentar ser um pouco mais bélico com os filhos. O jovem Martin sorria placidamente e desculpava-se pois ele estava muito ocupado nas suas lições de como ser um ninja e a forjar armas como devia ser. Adrian não era assim tão educado. Não falava uma única palavra em Alemão com o pai e forçava-o a falar em Japonês, coisa que Christoph bem que tentava dedicar-se mas era tão difícil que o filho, de uma maneira ou de outra, acabava por fazer troça do ar desolado do pai.

A Senhora Yui, uma mulher paciente e com uma natureza bondosa, ensinava o marido a pronunciar correctamente as palavras, a comportar-se para que as pessoas não pensassem que ele era “um parolo preguiçoso e idiota”, como as três irmãs da Senhora Yui o chamavam. Os maridos delas eram fortes e severos, com um porte espantoso.

O filho mais velho poucas vezes almoçava ou estava em casa, o jovem Martin Wolfgang quase que não aparecia em casa senão para comer e para dizer “bom dia” ou “boa noite”. Sobrava muito tempo à Senhora Yui para ensinar ela própria o marido – a não ser nas alturas em que tinha de tomar conta da pequena Jasmin. Sentia-se feliz pela filha e pelo marido serem assim tão simpáticos e generosos para com ela. Era uma recompensa vinda dos Deuses por trabalhar tanto na lida da casa, nos assuntos da família de samurais, e por ter de aturar os três insuportáveis cunhados.

Nessa altura, a família Murakami era pobre, uma vez que todas as irmãs e o Hyasuko Murakami tinham gastado todo o dinheiro a preparar o casamento com a irmã Yui. “Arata” vivia num bairro muito perto do bairro de prostituição de Shimabara, em Quioto. A casa abrigava a família principal Murakami: Hyasuko, com as suas duas mulheres, Shizuka e o seu marido, Musashi Makoto, Suzuki e o seu marido, e Yui com Christoph e os seus três filhos: Arata, Martin, e Jasmim. Em 1800, Arata teria os seus dezasseis anos. Era um jovem que fora obrigado pelas tias a rapar o cabelo cor de trigo queimado na frente aos treze para fazer um rabo-de-cavalo a trás. As tias queriam que ele se tornasse num grande samurai, um guerreiro que servisse os senhores feudais.

Todos os dias, ao voltar para a casa, Adrian Demetrius (mais conhecido por Arata Murakami, ou simplesmente Murakami-kun na escola de espadachins) tinha de ir comprar um quilo de arroz e de sakê e carregá-lo com apenas as sandálias de palha (era demasiado pobre para comprar as confortáveis choris de madeira com umas meias de seda). O dinheiro arranjava-lhe o tio com os seus talentos de músico e de guarda-costas de mafiosos que governavam as “casas-de-chá” de Shimabara. O quimono azul-escuro com o tigre prateado rendado nas costas era uma relíquia da família, dos tempos aúreos de Kensaku Murakami, o avô do lado da família da mãe. As espadas tivera-lhes oferecido Hyasuko. O conjunto era um pouco patético, mas sóbrio. Quando o tio lhe pousou a wakizashi e a katana na cintura, Arata ficou impressionado como eram pesadas.  Era mais uma forma de fazer com que os braços se habituassem ao peso de espadas.  

Quando Arata passava por Shimabara, as gueishas suspiravam, ao verem um rapaz com um rosto semelhante ao de uma raposa, os olhos da cor da chuva, melancólicos, mas magnéticos. Toda a gente na escola de kenjutsu conhecia a beleza exótica de Arata Murakami. Os olhos azuis captivavam qualquer um, e apesar das suas origens duvidosas (toda a gente perguntava ao jovem Murakami-kun aonde ele vivia e quando este dizia que ficava perto de Shimabara, todos arregalavam os olhos). Arata parecia ser o típico rapaz aristocrático, de fala eloquente, com um pequeno sorriso suave e sedutor, voz cristalina e pura. Desde os cinco anos que Arata gostava de tocar piano, mas como a família era muito pobre, o mestre de kenjutsu – por coincidência, era um antigo daimyo – decidiu oferecer a sua casa para este não perder a prática. Admirava a forma como o jovem Arata escrevia, falava e o seu óbvio talento não só com a espada, mas também com a arte de lançar adagas a alvos incrivelmente distantes! Uma vez, este dissera à mãe, que veio visitar a escola:

«O seu filho é um prodígio, Murakami-dōno...! Nunca vi um rapaz de origens tão humildes a manejar uma espada e a comportar-se como um verdadeiro samurai! Também tem um dom espantoso para a música e para a poesia…»

A Senhora Murakami corava um pouco embaraçada, como que para fingir o orgulho que sentia em ter um rapaz que atraía a atenção de tudo e de todos. Apesar de tudo, ela também recebia uma pequena crítica do velho daimyo. O filho adorava piscar o olho à filha mais nova do senhor feudal. Esta corava que nem um tomate quando lhe servia o chá, nos momentos em que este chegava para tocar piano. Aqueles olhos azuis e hipnóticos simplesmente punham-na nervosa.

Num dia normal como tantos outros, quando as flores de cerejeira estavam no seu auge, no jardim esplendoroso do mestre do rapaz, a filha do daimyo decidiu pedir ao jovem para que este tomasse chá com ela.

O rapaz aceitou prontamente, mas quando ia dizer os bons-dias, reparou que a sua voz já não era tão aguda e encantadora. Saiu um vozeirão de homem pela boca, o que deixou a pequena Hanako-san vermelha que nem uma cereja.

«Está a mudar de voz, Murakami-kun?» Perguntou num fiozinho de voz, depois de cumpridos os formais e habituais salamaleques.

«É uma voz arrepiante, não acha? Já nem consigo ir comprar o arroz e o sakê, porque as empregadas ficam todas nervosas.» Respondeu Arata, sombriamente, ainda com os olhos fixos no chão. Não queria parecer mal-educado diante da filha do daimyo. «Depois é a altura, não reparou que estou mais alto uns quarenta centímetros?»

«Sim, mas isso não quer dizer que não caiba na porta!» Hanako riu-se um pouco, encantada com o facto da voz de Arata “Murakami” ainda não ter mudado completamente. Era verdade que durante aqueles dois anos, o nariz dele triplicara de tamanho aos quinze, o queixo estava a ficar grande demais, e quando sorria, era como se os dentes caninos fossem maiores que os outros, mas ele continuava a ser um rapaz muitíssimo educado e bom a ouvir os problemas dela, uma jovem condenada a casar mais cedo ou mais tarde com um homem muito mais velho que ela.

Ao ver que o jovem e formoso Arata tinha desaparecido para dar lugar a um jovem envergonhado do seu próprio aspecto, Hanako indicou, com a mão livre, as flores de cerejeira.

«Murakami-kun, as coisas não podem ficar bonitas para sempre…além disso, ainda tem a espada, a caligrafia, a poesia, o piano…»  

De repente, a mão do jovem pousou discretamente na mão da jovem filha do daimyo, que apesar de ser dois anos mais velha que ele, parecia ser tão bela e inocente.

«Sim, creio que ainda há coisas que nunca mudam…!» Suspirou, como se estivesse fascinado pela cor dos lábios da jovem Hanako combinavam com as pétalas de flor de cerejeira.

«Tenha calma…!» Gaguejou a jovem, num tom ainda paciente. «Acho que é melhor o senhor falar senão ainda perco a face.»

Arata riu-se, desta vez na voz ainda de jovem rapaz. Mas foi uma risada amarga. Ao contar que fora sempre diferente dos outros rapazes, quer estivesse na Alemanha, ou no Japão, a jovem Hanako começou a ficar cada vez mais curiosa. Mas uma coisa que ele gostava muito era de apreciar os jardins do “sensei”…

«Recordam-me da minha terra, lá na Alemanha…as árvores são maiores que as casas, e devia ver os lagos…Adorava molhar os pés no Verão.  Mas isto de mudar-me para o Japão é tudo culpa das minhas tias. Elas são umas víboras, especialmente a Tia Shizuka, aquela mulher que anda sempre com um cachimbo de tabaco. Apesar de não me baterem, eu tenho a certeza que têm inveja de mim e da minha mãe. Lá na Alemanha, não tinha amigos, tal como aqui. Porém, não havía criminalidade. Podia andar de um lado para o outro, tocar piano livremente, respirar e espirrar o ar puro. As minhas tias dizem-me que eu devia comportar-me mais como um Japonês, mas não posso esquecer-me da minha tília, da Mãe, e do meu Pai. Pobre pateta, ele não percebe uma palavra, e mesmo assim quer ser um rounin. Se quer que lhe diga, acho que a minha Mãe casou com ele por pena. Eu tento esforçar-me, e sei que um dia, vou ser um grande homem, tal como o meu avô Kensaku.»

Passou a tarde inteira a falar de como se sentia que queria ser um rapaz normal como todos os outros, mas como não era nem carne nem peixe (nem Alemão, nem Japonês) era sempre frio e distante para com os jovens da mesma idade. As pessoas mais velhas gostavam dele por ser obediente e leal ao trabalho, os mais novos invejavam-no. Entretanto, os seus olhos brincavam um pouco com a visão do longo cabelo de Hanako com a cabeleira presa com um pente de âmbar. Os olhos dela baixavam, ou olhavam para as flores, enquanto ambos caminhavam sobre a sombra das árvores do pai da jovem.

Curioso como era, ele esboçou um pequeno sorriso.

«Tem um cabelo tão bonito…porque é que não desprende o cabelo?»

Hanako riu-se, muito envergonhada.

«Ah, não, não me peça uma coisa dessas, Murakami-kun! Demorou-me uma hora a penteá-lo! Além disso, a minha Mãe iria ficar uma fera se me visse com o cabelo despenteado!»

Arata repentinamente começou a aproximar-se dela, com aquele sorriso brincalhão, como se ainda fosse uma criança.

«Vá lá, Hanako-san, deixe-me ver o seu lindo cabelo a cair-lhe pelos ombros…Tenho a certeza que deve ficar tão bonito como uma cascata!»

«É incorrigível, Murakami-kun!» A jovem soltou um pequeno suspiro, enquanto tirava cuidadosamente os ganchos do cabelo. Não conseguia resistir àquele sorriso e aqueles olhos azuis, brilhantes como duas safiras.

Quando finalmente ela tirou tudo que lhe prendia o cabelo, o jovem aprendiz não hesitou em tocar no cabelo dela.

«É a cascata mais bonita que eu já vi em toda a minha vida…» Disse, num tom como se estivesse enfeitiçado.

Embaraçada, ela começou a ficar boquiaberta, ao ver que o coração palpitava cada vez mais depressa. Aproveitou o facto de que estava a ficar tarde para voltarem para a vivenda do pai. Com o cabelo a esconder metade da face, ela parecia mais deslumbrante, mais encantadora. Arata inspirou profundamente o perfume doce que vinha dela. Que pena que não fosse ainda suficientemente conhecido para pedir a mão dela em casamento!

A Lua já aparecia no horizonte, a modos que as únicas coisas que iluminava o rosto de Arata eram os candeeiros que ficavam perto da entrada do jardim com a casa. Com metade do rosto oculto na penumbra, Adrian Demetrius Von Tifon sentiu duas coisas afiadas no meio das pernas, e não eram as suas espadas.

Antes que ela pudesse escapar para o quarto e despedir-se, ele aproveitou o facto de que ainda estava no jardim para encostar ao de leve a mão no queixo dela. Nem foi preciso usar o seu olhar paralisante. Hanako estava demasiado envergonhada para dizer fosse o que fosse.

Os lábios dele foram suficientemente rápidos para lhe darem um beijo intenso e molhado.

«Não consigo resistir aos teus lábios, Hanako-chan!» Sussurrou Arata, desta vez naquela voz um pouco mais grave, o que provocou um calafrio no corpo da jovem. Era como se alguém invísivel lhe tivesse roubado o seu primeiro beijo. 

«Por favor…!» Murmurou a jovem, espantada e de olhos arregalados. «É melhor ir-se embora, Murakami-kun!»

O jovem ajoelhou-se, um pouco conformado. Afinal de contas, senão desaparecesse dali imediatamente, o nome da família podia ficar ainda mais arruinado do que já estava. Ainda bem que as pessoas de Quioto já se tinham esquecido de Kensaku Murakami.

«Como queira, minha princesa, peço imensas desculpas se a incomodei.»

«Não faça pouco da minha cara!» Respondeu Hanako, indignada com o comportamento um pouco infantil do jovem aprendiz.

«Mas eu estou a pedir-lhe desculpas como deve ser: para mim, a menina é como se fosse uma princesa!» Disse Arata, num tom verdadeiramente cortês. «Bom, faz-se tarde, e eu ainda tenho de memorizar os poemas do Mestre Samiel em casa. Muito boa noite, Hanako-san.»

«Que poemas?» Hanako, que não era uma rapariga de ficar rancorosa, lançou um olhar surpreendido para o jovem aprendiz de samurai.

«Se Vossa Senhoria me permitir, eu posso traduzi-los para Japonês e mostro-lhos quando quiser.»

Quando os pais de Hanako chegaram da sua visita anual às cerejeiras, a jovem estava com o cabelo surpreendentemente aprumado. Não havia um único sinal de que alguém tinha tocado no cabelo dela. 

Foi assim que Adrian Demetrius Von Tifon conseguiu arranjar contactos entre as futuras altas esferas do governo Japonês. Todas as semanas, ia a casa do daimyo para tocar piano, melhorar as suas habilidades com a espada, e especialmente, recitar os poemas e histórias da Bellanária. O daimyo era primo distante do clã dos Matsudaira, que detinha várias terras no Japão.

No seu décimo terceiro aniversário, a Senhora Yui tinha-lhe dado uma caixa de prata com uma pequena chave. Nessa caixa, o jovem colocara uma mecha de cabelo de Hanako, e do seu belo incenso que mais se assemelhava a uma bela tarde de Verão. Tal como na história do Caçador de Almas, ele prometeu ser um grande feiticeiro, ou pelo menos um guerreiro poderoso e influente. Se isso não fosse possível no Japão, talvez pudesse vir a ocupar o tão desejado lugar que detinha o pai como Duque na Bellanária.



[1] Diminutivo ou honorífico que se usa em Japonês quando se fala com pessoas mais novas ou com crianças. Também é usado com as pré-adolescentes e entre as raparigas novas. No entanto, também se usa com rapazes pequenos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Perto da cerejeira no Verão

Uma pétala cai no meio do lago perfumado,
Lago dos teus olhos,
Ao ver os dourados folhos do vestido amado,
Bela flor de cerejeira,
Tão perto e tão longe,
Está o meu amor monge,
Amor perfumado de macieira,
Só para  ti, querida moça gracejeira...!

Perto da cerejeira,
Sinto-te mais perto da ceifeira,
Do que nunca, linda cantadeira...

O meu coração é tão humilde, pobrezinho,
O meu coração amolece-se diante do teu olhar,
Com um pequeno alaúde, já velhinho,
Confesso aquilo com o qual não te posso falar!

Perto da cerejeira,
Sinto-te mais perto, fico como o pessegueiro,
No tempo da seca, o pobre amante cantadeiro! 

Pequena camponesa, sempre que te vejo a trabalhar,
Pequena camponesa, sempre que cheiro o teu perfume,
Vem-me à boca uma sensação de cantar,
Mesmo que respondas com azedume! 

Perto da cerejeira,
Sinto-me como se tocasse nas tuas costas de flor,
Não é ilusão, é uma sensação agridoce, não é quase dor...!

É como a tangerina, 
Tem um sabor sumarento e cremoso,
São assim os teus lábios de menina,
Tal como um pastel delicioso! 

Perto da cerejeira, 
Sinto-me cada vez numa doideira, 
O que é que me fizeste, bela e simples ceifeira...? 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Os chocolates não tão amargos... (parte I)


Deixem-me contar-vos a história sobre como Eris descobrira a identidade dos dois irmãos do que seria anos depois o temível Assassino do Amor: nesses tempos, Saburou Di Euncätzio era para além de um grande poeta, o músico mais talentoso da família a seguir a Samiel. Sabia tocar o alaúde Chinês Ruan como ninguém e a sua voz podia igualizar à de um brincalhão macho de uma Kinnari, o que já era muito para um oni. Em novo, gostava de pregar partidas às transeuntes humanas Bellantes que passavam pelo bairro Chinês, começando a tocar e a cantar sob o disfarce de estar invisível. Quando a sua voz atingia um certo nível, era capaz de imitar perfeitamente a voz de uma mulher, trocando o barítono por um doce soprano com um sotaque Chinês, ao cantarolar fluentemente em Bellante as antigas canções da Bellanária.

Ora, um dia, ao ver que Eris passava discretamente pela loja onde morava a famosa família de chocolateiros, pasteleiros e músicos, Saburou começou a pensar consigo:  

«É esta a princesa com quem o meu Irmão mais Velho quer casar…Se eu o ajudar a conquistar o coração de Sua Majestade, o Imperador e tio da menina, talvez o meu irmão me recompense com um terço do valor do tão afortunado dote! E talvez consiga ter uma das belas aias de Suryadevnahutbal para mim.»

Decidido a fazer de intermediário entre o irmão e a família da princesa, Saburou seguiu a princesa até ao grande distrito imperial e quedou-se ali, à espera que se desse o render da guarda. Pois ele sabia que mal os soldados humanos se pusessem em sentido, se daria o soar das duas badaladas da alba, o que significava que as defesas espirituais da muralha que rodeava os palácios da família Imperial enfraqueceriam devido ao facto que as duas horas da manhã não serem regidas pela Deusa Bilafassabnsair ou por outra deusa qualquer que protegesse as aias e as nobres senhoras da corte imperial.

Esperou uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito horas, até que o render da guarda aconteceu. Oculto dos olhares humanos e atentos dos sentinelas através dos seus poderes de invisibilidade e astúcia, Saburou conseguiu ler os pensamentos dos guardas. Pelos vistos estava com sorte: tanto a dezena do lado sul como a dezena do lado norte estavam com sono. Tinham feito o turno das outras oito horas do dia anterior, e pareciam ter-se esquecido de tomar uma bebida a que chamavam de “Xocolatl ke Tareamaeqal”, que pelos vistos, dava-lhes energia para se restabelecerem das noites pesadas e continuarem a vigia.  

Aproveitando esse golpe de sorte, Saburou dedilhou umas quantas notas no seu alaúde, e todos os guardas das portas do Norte de Suryadevnahutbal adormeceram profundamente. Com a maior das facilidades, voou e atravessou a muralha de trinta metros de altura. Ao aterrar suavemente nas ervas frescas, reparou que estava nos jardins de Sua Alteza Divina, a Imperatriz. Era fácil reconhecer a fénix esculpida em alabastro perfumado com baunilha numa fonte de água limpa e cristalina. A fénix era o símbolo máximo da Imperatriz, não só na China, como também no Japão. E mesmo em frente, estava o pavilhão com escadas de marfim branco onde dormia a mulher mais poderosa de toda a Bellanária. Claro, só podia ser mais do que lógico que os aposentos da figura feminina humana puramente divina estivessem virados para o norte.   

Quanto ao pavilhão em si, era uma maravilha de sítio, fresco, coberto por cortinas de veludo para não deixar entrar os insectos à noite. As persianas de madeira estavam decoradas com desenhos da trisavó da Imperatriz a segurar um lótus branco sob a luz do luar. Os telhados pontiagudos da cor do sangue humano, obra-prima do pavilhão impediam a ténue chuva de Verão de entrar pelos aposentos de Sua Divina Alteza. A luz fraca e trémula de pequenas lâmpadas de bronze brilhavam no silêncio perfumado de flores gentis e murmurantes. Era quase como se a Imperatriz estivesse a dormir sob o mesmo céu estrelado e silencioso do Norte.

Sabendo que a figura feminina da Imperatriz se ocultava numa túnica espessa de veludo da cor dos pequenos insectos picantes que saltitavam nos bosques do centro da ilha, mais para se resguardar de qualquer guarda ou nobre promíscuo do que propriamente de um demónio, o talentoso filho de Uarasaki ajoelhou-se (embora ninguém o pudesse ver) e aguardou até que as açafatas retirassem o biombo após o banho ritual.



Conseguia ouvir até o mais tímido dos risinhos sonhadores das adolescentes, sem saberem que havia ali um homem oculto na escuridão a observá-las. Não podia vê-las com tanta nitidez, mas os ouvidos e o nariz de um demónio normalmente são mais apurados do que o de um humano. E o nariz de Saburou era atingido por uma variedade requintada de odores preciosos. Ora vinham das tranças sedosas e encaracoladas das pequeninas, ora da própria imperatriz. O roçar de saias compridas que chegavam a fazer mais barulho que as sandálias de couro, o dialecto refinado, doce e complexo que os Bellantes do palácio das Reuniões falavam, cheio de metáforas e de duplos sentidos, era um bombom recheado de sons agudos e adoráveis, quase como que mergulhados em caramelo de arroz e framboesa. Se houvesse uma sobremesa para descrever a língua das aias, esse seria constituído de caramelo, arroz e framboesa. Nada mais.



Ainda brincaram um pouco mais com a sua língua de elite longa, cremosa e com um sabor digno de um creme de manteiga com ovo e arroz, contando à Imperatriz um sem fim de coisas que se passavam na grande capital, a respeitada Cidade dos Deuses. Saburou podia ficar horas a fio a ouvi-las, sem perceber nada do que elas diziam, pois achava a língua tão curiosa e estranha aos seus ouvidos que quanto mais escutava as vozes das fadas e das raparigas humanas, mais engraçadas as achava.

Passada meia hora, elas retiraram-se, deixando apenas o seu sabor a malmequer. Satisfeito com a sua pesquisa, ele tirou o chapéu bicudo e começou a fazer aquilo que melhor sabia fazer: surpreender uma mulher humana. As mãos de um bruxo não são só feitas para criar magia. Também servem para criar mil e um milagres. A sua música nunca fora tão cativante ou tão inspirada como era naquela noite: ao ter ouvido as vozes das açafatas, ele percebera qual seria o tom perfeito para encantar o coração da Imperatriz.  Enquanto batia compassadamente com o pé, adicionava um acorde ou outro ao sem número de notas que dedilhava harmoniosamente.

Lentamente este feiticeiro demoníaco acompanhou o alaúde com a voz, falando no Bellante que se falava nos bairros da Capital. A Imperatriz Melnjar, impressionada com o talento daquele instrumento que parecia tocar sozinho aos seus olhos, ficou ainda mais assombrada quando aquela voz exótica, mas ao mesmo tempo masculina acertara em cheio nos seus ouvidos.  Era como que uma brisa de ar puro, vinda de fora das muralhas de Suryadevnahutbal, que a fazia mais leve do que uma pluma. E sem dúvida aquela voz tinha um talento impressionante com a poesia das gentes humildes da Cidade dos Deuses. A única coisa que ela nunca tinha ouvido era o som daquele instrumento tão esquisito.

Fascinada com tal prodígio, ela levantou-se e perguntou:

- Quem está aí?

Foi então que o jovem bruxo revelou-se perante os aposentos de Sua Divina Alteza, fazendo com que o feitiço que todos os demónios têm a correr nas veias perdesse o efeito. Com a sua silhueta alta e elegante, ele apresentou-se de joelhos com o alaúde atado nas costas.

- Muito boa noite, Vossa Divina Alteza. – Cumprimentou Saburou em Bellante fluente. – O meu nome é Di Euncätzio Saburou, terceiro filho do grande Di Euncätzio Yee e da Senhora Uarasaki. Sabe aquela chocolataria e pastelaria no Bairro Chinês, a umas centenas de degraus daqui?

A Imperatriz, surpreendida com o facto de que o delicioso chocolate quente que a levava todas as noites a encantar e a deliciar-se com o marido nos aposentos deste perto da Muralha Sul, que vinha de um bairro tão estrangeiro e tão repleto de descendentes de gente que ela não queria ter nem sequer o mínimo contacto de uma carta pelo início do ano, abriu de rompante o leque num gesto severo.

- Que horror! – Exclamou ela, repugnada. – Pois aqueles chocolates maravilhosos com uma farinha de baunilha são confeccionados por feiticeiros adeptos das artes negras?

- Oh minha senhora Imperatriz…! – Disse logo Saburou que para além de talentoso com a poesia e a música, era também bom na arte do bem falar e sabia fazer do preto branco. – A minha mãe só põe um pouco de pó de cana-de-açúcar e algumas ervinhas picantes lá da nossa terra para que o chocolate não fique tão negro. Isso será Magia Negra que se veja?

E, com um gesto discreto e requintado digno do mais educado dos príncipes, ele retirou de dentro do manto de pele nortenho um frasco com chocolate a ferver. 

- Vede com os seus próprios olhos, como apesar de tudo, beber o "sangue dos Deuses"... - Enfatizou a palavra, quase num tom irónico, antes de fazer uma pausa. - Não é pecado nenhum para a alma humana. 
 A Imperatriz arqueou as sobrancelhas, por detrás do leque. Não sabia se havía ou não de aceitar tal presente. Afinal de contas, os Di Euncätzio eram para todos os efeitos, os fornecedores oficiais do Imperador de pastéis e outras delicadezas para as bocas ávidas e inocentes das damas das corte.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Lermmhiar o demónio da inveja II


Eris acordou a meio da manhã, completamente aparvalhada, com lágrimas nos olhos…Tinha sonhado que estava num campo florido perto do rio Gulmin, a colher umas frutas deliciosas da flor de maracujá. 
No rio, passava com algumas especiarias em direcção ao mar para trocar com os comerciantes Bellantes, um homem envergonhado do seu rosto, de chapéu a cobrir a cabeça, enquanto remava melancolicamente a seguir a corrente.
Um grande falcão atravessava os céus, enquanto os pinheiros sussurravam uma doce canção.  O coração dela tinha sido captado pela tristeza comovente do homem, simples e pobre a navegar no meio do rio de Shunamari. E o barco era tão negro como a madeira de mogno das raras árvores nas terras do Norte.
Ela estava a descansar na sombra do chorão, num dos jardins imperiais de Suryadevnahutbal, com os cabelos cor de cenoura deliciosamente soltos, a tocar no peito humilde e moço, oculto por uma túnica branca bordada com fios de ouro. Ao brincar um pouco com o véu, a jovem princesa perguntou-se quem seria o tal Encantador das Montanhas com o falcão peregrino e um cavalo tão pequeno e da cor da terra molhada. Os cavalos do Sul eram muito mais altos e descendiam de uma criatura híbrida de cavalo e de um leão. Mesmo assim, os cavalos dos nómadas Encantadores das Montanhas não deixavam de ter a sua própria beleza.
A verdade é que os gigantes cavalo-leões que os sacerdotes costumavam usar para se deslocarem entre as províncias eram mais intimidantes.  Pareciam-se com demónios, com as suas cabeças enormes de uma pele avermelhada e os dentes afiados.   
Porém, Eris podia perder-se nos Jardins de Jade do Monte do Sul – assim se chamavam os jardins imperiais – sem ter de cruzar-se com os guardas, feiticeiros brancos e imponentes que sabiam os segredos dos códices antigos e dos deuses Bellantes. Ainda bem que isso acontecia uma vez que ela achava os cavaleiros de Suryadevnahutbal extremamente maçadores. Os guardas eram de origens do sul. Alguns tinham cabelos castanhos, outros eram descendentes dos antigos povos do continente além-mar, do lado mais a oeste da grande ilha, outros eram Gregos…Alguns eram morenos, outros tinham a cor do chocolate no rosto e havia outros que eram um pouco brancos de pele…pequenos, altos de média estatura, a Princesa Eris sabia tudo sobre os homens, sacerdotes e guerreiros que trabalhavam em Suryadevnahutbal.
Mas eles não pareciam tão cativantes quanto os homens do Norte: os Encantadores das Montanhas, os comerciantes de Shunamari, os pescadores Japoneses, os homens dos bairros de má-reputação…Esses homens misteriosos, de roupas escuras e com armas que ela nunca vira em toda a sua vida.
Homens como Samiel, que não se importavam de conversar com a princesa normalmente, enquanto as flores desabrochavam perto dos portões principais de Suryadevnahutbal.
E, tal e qual como as flores que desabrochavam naquela primavera, ela descobrira (ao apaixonar-se por Samiel) que era feita de carne e de sangue, que o seu corpo era elegante e branco e que a maior parte dos jovens rapazes da Capital sonhavam em tê-la nos braços. Oh, como era bom mergulhar nas piscinas naturais e termais que eram usadas apenas pelas damas da corte, completamente nua, e deixar que as ondas acariciassem as pernas suaves, como se fosse um vestido de algodão a roçar nas ervas dos jardins imperiais.
Descobrira, através das palavras doces e estrangeiras de Samiel, que já não era uma rapariga, mas sim uma mulher. Que os seus braços eram delicados e que ansiavam ser segurados pelas mãos viris de um homem sedutor e viril!
Mãos que sempre nos seus sonhos ela via como as mãos de marfim, perfumadas em baunilha do pasteleiro Chinês. Brincava distraidamente com os cabelos, como se pensasse se alguma vez poderia estar com o seu querido anjo caído e exótico, com os belos cabelos cor de fogo e olhos verdes reluzentes…sem ter de se disfarçar de uma camponesa qualquer.
Nas mãos, tinha um dos muitos poemas escritos em Mandarim por Samiel. Eram canções que lhe incendiavam a alma.
Eris vivia num dos pavilhões principais, perto da entrada de Suryadevnahutbal, a Norte. As torres pintadas com a cor da turquesa do Pavilhão de Plasna conseguiam-se ver mesmo por detrás das copas das árvores. As janelas eram como belas obras de artes, formas ovais e pontiagudas: portadas de ouro com figuras em alto-relevo de deusas dos vários rios e lagos da Bellanária decoravam o paço das princesas e das damas da corte. A ramagem das amendoeiras, macieiras, oliveiras e limoeiros ocultava parcialmente o incrivelmente majestoso palácio.
Sob a sombra de alguns chorões, algumas donzelas brincavam nos lagos termais, com os longos cabelos alourados ou castanhos a esvoaçarem sob a calma brisa primaveril.    
A jovem deu-se conta de que os risos das raparigas aristocráticas já não atraíam mais a sua curiosidade. Se ainda tivesse treze ou doze anos, talvez iria ter com elas para chapinhar nas fontes termais da ilha. Interessava-se mais pelo mundo exterior do que pelas plantas dos jardins imperiais, que, verdade seja dita, conhecia desde que tinha dez anos como os dedos das suas mãos.
Sim, ela podia brincar com as donzelas de Suryadevnahutbal…Mas a poesia Chinesa escrita por Samiel; os doces e pastéis feitos pelas mãos experientes da Senhora Uarasaki; a música tocada pela flauta de Hayabusa; os pregões estrangeiros e em Bellante Padrão da Praça das Sedas no centro da Cidade dos Deuses; a própria vida campestre dos principados dos feiticeiros e sacerdotes…
Tudo isso encantava-a muito mais do que as fúteis brincadeiras das suas primas e damas de companhia.
Entretanto, veio uma experiente açafata, que ao carregar um tapete para que a jovem princesa não ficasse com as vestes sujas, lançou um olhar maternal em direcção à jovem princesa Grega.
- Minha senhora… - Inclinou respeitosamente a cabeça, ao estender o tapete na relva fresca. – Hoje vejo-a tão pensativa e melancólica…Podeis contar-me qual é a razão de tanto cismo?
- Provavelmente não é nada de vulto. Mas ultimamente tenho tido uns sonhos de uma natureza verdadeiramente perversa. – Confessou a Princesa Eris na sua voz doce, mergulhada num creme inocente e apaixonado de mocidade.
A açafata quase que deixava cair as tranças com umas madeixas prateadas, amarradas num carrapito típico de uma mulher casada.
- Mas que pensamentos imundos serão esses, senhora minha? – Perguntou num tom de horror. 
As faces da sobrinha do Imperador coraram como uma framboesa, muito envergonhada. Não fazia a mínima ideia de como haveria de responder a uma pergunta tão intima. Mas, por outro lado, aquela era a dama que sempre estivera com ela desde que Eris tivera chegado da Grécia há nove anos.
Soltou um longo suspiro, enquanto se contentava a contemplar a simplicidade aromática do chorão, uma árvore milenar, mas sempre triste e sem uma única flor para oferecer aos olhos de um ser humano, deus, demónio, fada, ou feiticeiro. Era como se a brisa acariciasse as folhas humildes, mas belas da antiga árvore. Fascinada pelo perfume magnífico que vinha das macieiras, ela pensou se não seria melhor contar a verdade.
Era difícil ficar séria quando queria era ser adulta e ao mesmo tempo uma pequena criança, ao inspirar os sabores das flores do final da Primavera, enquanto estava nos braços do bruxo.
- Bom, há um homem cujo amor e desejos são maiores do que qualquer feitiço ou bênção que as deusas da virgindade me pudessem oferecer. Sonho com esse fogo desde que ele…desde que ele pousou os lábios nos meus. – Disse a princesa, enquanto se refastelava. – Os poemas dele e a sua voz de mel cativam-me sempre que vou à pastelaria dos seus lábios… Sempre que penso nele é como se a Primavera se prolongasse!
- Deixai, por amor do seu tio e da sua tia, o Imperador e a Imperatriz que tanto vos estimam, esse amor impossível! – Exclamou a açafata, completamente chocada com as palavras da princesa.
Embora Eris fingisse que compreendera o que a experiente açafata lhe dissera, durante o resto do dia, a princesa fingiu que não tinha ouvido conselho algum. Respondeu discretamente a um dos muitos poemas de Samiel com as seguintes palavras escritas no dialecto Bellante do Norte:

Sob a sombra do chorão,
O amanhecer chegou aos meus olhos,
Com a beleza vi que a sua voz dourada,
É mais preciosa do que o coração
Oferecido em sacrifício no festival de Nagendra,
Sob a sombra do chão, colhi os molhos
Do maduro e húmido milho,
Ai, pobre e simples amigo
Será que haverá pior castigo,
Do que apreciar o desabrochar
Destas efémeras flores sem ti? 

Como sempre, mandou um pombo entregar a mensagem a uma das ruelas que davam para os bairros onde era a vivenda e pastelaria dos Di Euncätzio. A seguir, esperou pacientemente por uma resposta. Esperou durante horas ao pé da entrada de Suryadevnahutbal, subtilmente, por um mensageiro. Aonde é que estaria o delicado e cinzento pombo que entregava as cartas do Mestre Samiel?
Quando estava prestes a retirar-se para o salão onde todos os membros da família Imperial apreciavam um maravilhoso repasto, ela reparou numa ave com as asas a resplandecer no luar como ouro. À primeira vista, pensava que era o pombo do pasteleiro.
Como estava enganada: era o falcão do tal Encantador das Montanhas, com os olhos brilhantes e negros como o almíscar.  Ao aterrar nas grades, o falcão apontou com o bico afiado para um pequeno pergaminho. Atado com uma fita de seda vermelha, estava um frasco de perfume com uma rolha.
Eris, assustada com o tamanho da ave com asas com penas de ouro, recuou nervosamente. Com a outra garra, o falcão trazia o coração pequenino do pombo. Embora a princesa já tinha visto muitos sacrifícios humanos, ela considerava a matança dos animais algo demasiado bárbaro para ser visto pelos seus olhos femininos.
Teve um calafrio, ao ver que o falcão acarinhava com a cabeça as faces dela, como se dissesse para não ter medo dele. Encostou-se à manta dela, para não a magoar nos ombros. 
A seguir, entregou-lhe com a garra agora livre a mensagem.
Ela agradeceu a gentileza do bicho, enquanto se afastava para ler nos seus aposentos com mais privacidade. Talvez fosse da família Di Euncätzio, talvez fosse um pedido de desculpas pela rude demonstração de afecto com que o filho da terceira esposa do Pasteleiro Di Euncätzio declarara o seu amor. 
Porém, ao se encontrar a sós no quarto, descobriu algo mais escandaloso: os caracteres que estavam escritos no pergaminho eram em Japonês, e Eris, apesar de saber falar fluentemente Chinês, jamais tocara no assunto de aprender uma língua falada por pescadores, camponeses do norte e por feirantes!
Tapou a boca, um pouco repugnada e indignada pelo facto de um Encantador das Montanhas ser tão ignorante.
Com medo de que se espalhasse o rumor de que se estaria a encontrar com um homem rude e absolutamente deplorável, a princesa queimou a carta com a ajuda de algumas aias de companhia – aquelas em quem ela mais confiava.
Para quem está curioso o que estava escrito na carta, esta simplesmente dizia:

Perdoai um homem que nunca soube escrever poesia, muito menos pode comparar-se ao meio-irmão. Só sei de uma coisa: um dia, sereis a minha esposa, Princesa! 

Uma das aias tapou o nariz enquanto acendia a lareira.
- Que horror, esta carta cheira a sangue e a sopa de bacalhau! Que raio de homem é que tentaria conquistar Sua Alteza com este cheiro horrível?!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lermmhiar, o demónio da inveja

"...E depois havia Yemelian, o primeiro filho da Primeira Mulher do Velho...Embora esse não fosse o seu nome verdadeiro, foi obrigado a mudar de nome quando chegou à Bellanária. O próprio nome dele que o Velho o tratava significava "O Inominável".  Isso significava que Yemelian (o seu nome Latino significava "O Rival", nome esse que lhe assentava que nem uma luva) era tratado como o filho primogénito na nossa numerosa família. O outro nome dele era Berke, o que significava "Duro", que traduzido para Beno (Urso) em Latim dava um ar nada ameaçador ao meu meio-irmão adoptivo. Rival Inominável - cá para mim podiam ter-lhe crescido os dentes caninos mais cedo e ele continuava o mesmo idiota demoníaco lambe-botas de sempre...."  



Yemelian, o filho  mais velho de Uarasaki,  era um jovem dos seus vinte e poucos anos quando descobrira que Zah Min (como era tratado nos bairros de imigrantes, de comerciantes e de escravos da Cidade dos Deuses) tinha-se apaixonado pela sobrinha do Imperador. A Samiel,  Jamelino lembrava uma coruja com os olhos negros como duas opalas, um nariz pontiagudo e pequenino, curvo, e o seu rosto redondo....por vezes chamava-lhe outros nomes piores. Nessa altura, Jamelino não passava de um jovem aprendiz de bruxo que gostava de praticar as ciências ocultas da Magia Universal. Enquanto o irmão era um apaixonado pela harpa, o irmão preferia atiro ao arco, o manejar da espada e passava os dias na caça com o seu querido familiar preferido. Não é que Yemelian não tivesse aptidão para a música...só achava que era demasiado fanhoso e masculino para que alguma dama - nem que fosse uma cortesã dos bairros onde a família vivia - apreciasse o seu canto. 

Para aqueles que se perguntavam de onde e como viera ao mundo este homem - que apesar de ter menos beleza do mais famoso sedutor que alguma vez navegara entre o arquipélago das ilhas Bellantes, não se podia dizer que não fosse menos astucioso que o protagonista das Crónicas do Tempo e da Lógica - eis a história de Yemelian Berke Di Euncätzio. 

Ora, conta-se que certo dia, o filho primogénito dos Di Euncätzio, numa tarde de feriado no calendário lunar Bellante, foi à caça de uma bela corça Bellante,  acompanhado pelos seus irmãos mais novos Saburou, Hayabusa, e os amigos de Samiel: Nimtauk e Jerininantus. E todos eles, disfarçados de Encantadores das Montanhas, se encaminharam nos seus distintos cavalos em direcção ao Gulmin. Pois Hayabusa, tendo visto o irmão mais velho atormentado pela seca que se vivia no Sul, sugeriu que era melhor passarem pelos rios do norte, pois estes podiam refrescar a vivacidade de um homem com as suas qualidades divinas.   

Depois de algumas horas a perseguirem uma daquelas preciosas corças que só vendo uma pessoa poderia acreditar o quão graciosas e o quão suculentas poderiam ser, perto das margens do Gulmin, os cinco feiticeiros repararam numa voz doce e sonhadora a cantar em Bellante. E como o sotaque Greco-latino da elite Bellante era sempre muito difícil de entender para os comerciantes e nómadas vindos da Ásia, Yemelian pediu a Jerininantus (o único aprendiz de feiticeiro que tinha origens verdadeiramente Bellantes) lhe traduzisse o que aquela voz de santa estava a dizer. 

Jerininantus, um homem de estatura baixa e com uma falta de escrúpulos notável,  traduziu o que a voz estava a dizer:

 Se ao menos soubesse, querida flor de lótus, ai, ai, 
Quem é realmente o jaguar na escuridão, 
Do licor de framboesa inebriante, vermelho e negro 
Oh, eles aparecem ambos nos olhos de jade, 

Ai, ai, coração de jade, coração de seda mais branca, 
Vê se não te ofereces em sacrifício ao Deus alheio,  
- Mas como poderei eu, ai, ai, 
Se o meu coração é uma pomba, o meu coração é uma folha
No meio do Outono, a voar pelo vento nocturno? 

O olhar do barco de jade é um convite, 
Ai, ai, se eu conseguisse descobrir o que está por detrás da caixa, 
Oh, oh, se for uma adaga de obsidiana, pode furar a taça, 
Que vergonha e que doce fruto sairá do cálice....


 

Ao saber o que as estrofes significavam, o filho varão perguntou: 

- Saburou, a quem pertence tão bela voz?   

Respondeu o terceiro filho de Uarasaki: 

- Meu respeitável irmão mais velho, em boa verdade, o meu ouvido nunca ouviu voz mais bela e deliciosa! 

De súbito, Hayabusa ficou um pouco tenso.

- Irmão mais velho, é melhor esconder-nos, senão me engano este trote são os dos cavalos da Guarda Imperial! - Avisou o jovem irmão do meio.  

O gigante mongol Nimtauk começou a cantar uma canção ruidosa e cómica em Chinês antigo. Tinha uma boa voz que ressoava no entardecer como se fosse o ruído de um barco. Hayabusa e Saburou fizeram um enorme esforço para não se rirem, enquanto tiravam de alguns pergaminhos e começaram a acompanhar a melodia com umas ladainhas e rimas inventadas na língua das mulheres Japonesas. Espalharam um pouco de incenso queimado pelo chão, enquanto cavalgavam ao lado do irmão mais velho.  

Detiveram-se por uns momentos, e ali estavam os Guardas Imperiais com os seus cavalos cor de bronze altíssimos e sagrados, de crina encaracolada e cor de avelã prateada. 


Jerininantus acompanhou no acordeão Bellante, enquanto baixava o capuz do manto esfarrapado cor de sangue. 


Os guardas, espantados com o talento dos "Encantadores das Montanhas, bateram palmas enquanto os pequenos filhos dos camponeses das margens do rio se debatiam para ver mais de perto os tais artistas ambulantes com vozes exóticas e perfumes encantadores.  

Mas Yemelian não ficou de todo embaraçado com este espectáculo. De facto, isso era uma maneira de evitarem uma luta desnecessária com os guardas. 

Limitou-se a inclinar respeitosamente a cabeça, enquanto ocultava a fealdade demoníaca do rosto com o capuz da manta de Inverno. Os seus companheiros - alguns amigos do bairro dos comerciantes e escravos - fizeram o mesmo, ao baixarem solenemente as armas, em sinal de respeito e submissão ao Imperador das ilhas Bellantes. Fizeram um solene silêncio ao passarem pela carruagem da princesa da família Imperial. 
  
Com o falcão num dos ombros e em cima do cavalo, ele não pronunciou uma palavra sequer. 

Estivesse Eris ou não encantada pelos seus modos, ele continuou a trotear com o cavalo. Porém, a ave encantada continuava com os olhos fixos nos belos cabelos cor de fogo da jovem princesa, ocultos aos olhos do mais comum dos mortais, velados por um véu de cor aveludada e roxa.   

Ao voltar para casa, no entanto sem saber de quem era tal voz - adivinhava que se tratava de uma princesa, mas nunca tivera passado pela cabeça que fora a mesma que Samiel arrebatara o coração - ele sonhou com a princesa e imaginou-a como viera ao mundo, com os seios brancos e bem proporcionados...!    
    

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A boneca de maçapão

Um excerto de uma das histórias do Assassino do Amor quando este já vai atingir os mil anos de idade...

980 depois de Cristo 

- Que linda boneca de maçapão… - Exclamou a jovem rapariga de origens estrangeiras, enquanto olhava fascinada para a montra do pasteleiro. 

O homem com uma longa túnica de couro para o proteger do calor esboçou um sorriso amargo.

- É inspirada na minha musa…A mulher que destruiu o meu coração! – Murmurou o homem numa voz sinistra, arrepiante e metálica, com um sotaque tipicamente do norte, que arranhava as orelhas com um sentimento desagradável.

- Credo! – A mulher suspirou um pouco espantada, enquanto ajeitava a túnica azul de turquesa, com um perfume doce, mas subtil a pairar em volta da figura graciosa. – Se a odeia assim tanto porque é que fez uma boneca de maçapão em honra dela?

Dois olhos penetrantes cor de jade brilhavam, polidos e incrustados naquela estátua gelada de anjo caído.

- Talvez porque mesmo que ela tenha sido uma das razões da minha ruína, não posso deixar de esquecer que ela era uma verdadeira beldade!

Desde que entrara naquela loja que a jovem filha do Encantador de Montanhas ficara sumamente impressionada com aquele homem alto, de trinta e tal anos, com um pequeno sorriso nos lábios efeminados. O mais impressionante é que não bastava pouco para que aquelas mãos magras, finas como patas nuas de uma aranha, lhe tocassem ao de leve.

Porém, a pequena, com o rosto mediterrânico oculto debaixo do véu de seda, estava encantada com o realismo com que a boneca de longos cabelos da cor do morango tinha sido desenhada, com aqueles dois olhos tão brilhantes como avelãs a resplandecerem, e um corpo elegante de cobertura de chocolate de leite macio e cremoso. As faces estavam polvilhadas com uma pequena dose de canela, com lábios pintados com uma pequena calda de framboesa, com um narizinho e umas sobrancelhas de chocolate preto quente bem esculpidas.

Só o cheiro intenso a canela e a baunilha era suficiente para que ela ficasse com a boca seca e molhada ao mesmo tempo.

A jovem filha do Encantador de Montanhas estava completamente fascinada com a beleza da boneca da Princesa Eris.

- Parece tão real! Como é que um homem que tem tanto ódio no coração pode ter feito uma coisa tão preciosa? – Indagou a jovem, enquanto inalava um pouco embaraçada o perfume a chocolate suave e apetitoso vindo da boneca, com ambas as bochechas coradas.

- Se quiser, pode levá-la, Sra. Freguesa…

De repente, a respeitável Filha do Encantador de Montanhas arqueou as sobrancelhas, ao erguer os olhos castanhos em direcção ao confeiteiro. Abanou receosamente a cabeça, ao reparar o quão cremoso e carinhoso era aquele sorriso, tão suave, e no entanto tão quente quanto um copo de saquê.

- Eu…Eu n-n-não posso! – Respondeu ela, com um ar de quem pedia desculpas. – O que é que o meu pai e a minha mãe diriam se eu lhes dissesse que gastei todo o dinheiro para as compras numa coisa tão frívola como um doce?

Antes que ela recuasse para sair da loja, o homem fez uma vénia formal e pegou com o maior dos cuidados na boneca. 

- Por favor, é por conta da casa. Afinal de contas, creio que essa boneca só me traz más-recordações.

A rapariga não fazia a mínima ideia quem era o homem, nem em quem tinha sido inspirada a boneca. No entanto, algo incitava-a a levar aquele objecto tão precioso e tão ricamente ornamentado ao mesmo tempo. O próprio pasteleiro (que era ao mesmo tempo confeiteiro) tinha um rosto que se assemelhava a leite-creme…!

Quando chegou ao quarto, a jovem pousou a boneca perto da cama, para que a pudesse ver todos os dias. A verdade é que esta era tão bonita que a jovem Izdihar não conseguia comê-la.  Porém, quando suou a uma da manhã, ela devorou-a de uma só dentada.

Na manhã seguinte, ela viu-se presa numa enorme cama, com fitas de couro cor de chocolate a paralisarem-lhe os braços. A cama de mogno escuro por si só tinha um cobertor quente de pele da cor do sangue. As janelas estavam cobertas por cortinas cor de esmeralda escura, polida e perfumada com uma fragrância intensa e picante de homem. As paredes, frias e cinzentas, estavam decoradas com figuras terríficas de demónios dourados. Uma pequena túnica da cor da flor de pêssego, suave tal como algodão-doce cobria o peito avantajado da jovem de dezoito anos.  

«Como é que eu vim parar aqui…?» Perguntou Izdihar para si própria, assustada. Não se lembrava de nada, a não ser de depois de ter comido a estatueta de cair num sono profundo…Porque teria comido aquela boneca?

Um vento gelado percorreu-lhe a espinha! O ranger das portas cor de cal sibilou nas orelhas dela, à medida que a terceira filha do Encantador das Montanhas tremia com o suor quente a escorrer pelas têmporas delicadas.

Um sorriso carnívoro e afiado brilhou na penumbra da alva.

- Izdihar… - Uma voz familiar e aguda ecoou nas orelhas dela, enquanto a silhueta alta de um homem com longos cabelos cor do sangue se afigurava nas sombras das paredes iluminadas por um candeeiro de papel ténue de canela.

- Eu-eu lembro-me de vós…Sois o pasteleiro que me vendeu aquela boneca de maçapão! – Exclamou a rapariga num gemido, indignada pelo homem a ter enganado.

O Assassino do Amor soltou uma risada trocista ao aproximar-se da jovem rapariga, as botas de couro a ressoarem no chão de madeira.

- És mais esperta do que eu pensava, minha querida. – O tom de voz falsete era obviamente irónico, enquanto ele encostava-se na cama, muito satisfeito por ter finalmente aquilo que queria.

sábado, 14 de abril de 2012

Minha querida Narciso Negro...

Quando o Inverno se aproximou,
Deixaste um pequeno pássaro a morrer,
Será que não percebeste que o verbo "ter",
É uma prova evidente que a túnica,
De sangue se sujou!


Se te tocar com os meus lábios de pecador,
Sentirás todo o meu ódio que o meu coração,
Tem guardado para o mundo,
Mas, por favor, não largues a minha mão,
Senão nunca mais desaparecerá a minha dor!


Fica atenta, querida e sombria Narciso,
Pois quando o meu carro passar,
Para aonde quer que vás, sentirás o medo,
Sentirás que recuperaste aquele maravilhoso siso,
Sentirás a memória dos tempos antigos voltar!

Isto foi tudo o que o assassino deixou: uma carta com uma mensagem escrita nos lindos caracteres do dialecto do Norte da Bellanária. Ao acordarem para verem o que tinha acontecido, o Tenente Irmãozinho e o Capitão Jaguar Sangrento apressaram-se para verem o que se tinha passado no palácio da Avenida Schesrfhafranneega na Cidade dos Deuses. A Avenida não fazia parte do districto sagrado de Suryadevnahutbal. Um bruxo poderia muito bem entrar na residência de Sua Divina Majestade, a Mãe da Bellanária, a Imperatriz Melnjar IV sem que os guardas oferecessem muita resistência.

E o que eles viram foi ainda pior do que imaginaram: a Imperatriz Karolina Stephanie Di Neptunus deitada na sua cama de cetim branco, nua e ensopada no próprio sangue com pequenas tiras de cetim negras a amarrá-la à cama. Estava pálida, os seios tinham-lhe sido arrancados com corte de adaga profundos, o olhar de safira petrificado de medo, a boca estava aberta numa expressão que se podia dizer que ela tinha gritado por socorro, mas ninguém tinha vindo em seu auxílio. Tudo isto demonstrava não só uma inegável tendência perversa do assassino para jogos de Sadismo e Masoquismo, mas também uma referência à tendência artística Bellante do Novae Ero Art, com pequenos espinhos de plantas a segurar a cabeça pelo pescoço. Havia uma estaca nas partes femininas de Sua Majestade, uma ferida profunda de uma espada numa veia do pescoço onde não se podia morrer rapidamente, e marcas de dentes afiados de demónio na zona intermédia entre o pescoço e os seios agora ausentes da mulher.

- Credo, por todos os Deuses! Quem é que poderia ter feito uma coisa destas à minha mãe?! - As lágrimas caiam dos olhos da pobre Princesa Swerdinada ao procurar refúgio nos braços do Capitão Thomas Migntetiyte, pois era esse o nome do membro da Guarda Imperial.

- Não se preocupe, Princesa. Quem quer que tenha sido o depravado que fez uma coisa tão horrível à Imperatriz, não é um vampiro. Os vampiros só se alimentam de sangue de humanos mortos. - Thomas Migntetityte assegurou no seu sotaque de leste Europeu.

- Claro que não foi um vampiro! - Comentou o Tenente Irmãozinho ao acender friamente um cigarro. - Isto é obra de um bruxo...um bruxo demoníaco!

Com o cigarro aceso ele apontou para o chão de mármore: tinha escrito com o próprio sangue da Imperatriz um carácter muito particular, a primeira pincelada desenhava uma perna encurvada, duas flechas juntas, e uma espiral na flecha superior. A quarta pincelada era um losango, com uma Lua a contornar em quarto-crescente o losango como última pincelada.

- Este é o primeiro carácter da assinatura do Assassino do Amor. Nenhum outro demónio, cyborg ou feiticeiro seria assim tão tolo para assinar um crime destes com este carácter...a não ser que seja um daqueles fanáticos que acreditam na profecia de que um dia o Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio voltará. - Irmãozinho sugeriu com um ar pensativo ao inalar um pouco do seu cigarro.

A Princesa Swerdinada tremeu.

- Não se está a referir àqueles selvagens da Irmandade do Tigre Azul, pois não?! - Ela gemeu, com um calafrio nas costas. - Não diga isso nem a brincar, Tenente!

Ao soprar mais uma nuvem de fumo cinzenta, o Kulmabgigi respondeu, com uma mão nos bolsos:

- Foi só uma suposição Princesa...De qualquer maneira, o sacana pode muito bem parecer-se com um homem completamente normal.

Entretanto, Isaías continuava escondido no armário, a tremer que nem varas verdes. De um momento para o outro, saiu do seu esconderijo, encharcado em suor. Tinha estado paralisado de medo como nunca estivera! Dorido tanto nas costas humanas como nas patas de cavalo, ele ajoelhou-se apressadamente diante da Princesa. Pousou as mãos aparentemente humanas nas da Princesa, embora ela não o conseguisse ver, podia senti-lo.

- Quem era o homem que te fez ficar assim? Quem é que matou a minha mãe? - Perguntou Swerdinada, preocupada, ao sentir o medo que transpirava dos poros daquelas mãos do jovem de dezasseis anos.

Depois de tomarem notas de tudo o que o jovem centauro dizia, o Princípe Migntetiyte e do Tenente Irmãozinho repararam que a Princesa Swerdinada ficara tão chocada que quase desmaiava. Senão fosse o facto que o tenente estava por perto, ela teria ficado inconsciente.

- Ele tocou mesmo na minha mãe, não tocou?! - Soluçou a pobre princesa, amparada pelos braços do tenente.

O cigarro ainda estava naqueles lábios secos e trigueiros do oficial subalterno e aquele fumo...Fazia-lhe lembrar um pesadelo que tivera há anos atrás. Ou talvez fosse num sonho que ela tivesse inalado aquele cheiro desagradável e forte a enroscar-se à volta do pescoço dela...Estava a comer umas gomas coloridas em formas de lindas creaturas Chinesas, embrulhadas em pétalas de flores. As nuvens de fumo saíam de uma boquilha de prata resplandecente, enquanto alguém olhava para ela com um pequeno sorriso. No sonho, era uma criança de oito anos, e estava num enorme sofá. Aquele sonho tinha sido agradável e arrepiante ao mesmo tempo. Talvez fosse por causa disso que gostasse tanto dos feiticeiros e dos Cy-bata, embora não podesse ver muito bem estes útlimos.




Comovido com a doçura e inocência da Princesa, o Princípe Migntetiyte, Capitão da Companhia dos Jaguares do Leste da Guarda Imperial da Resistência, corou, com um pouco de inveja do Tenente.


- Princesa... - Murmurou o Princípe de trinta e dois anos.

Porém, o Tenente foi muito cortês ao pousá-la na cama. Quando fumava, ele parecia que se tornava mais velho e sério aos olhos da Princesa. Porém o Tenente não se achava particularmente atraente. Apesar do seu aspecto andrajoso e o seu ar um pouco rude, os seus olhos cor de âmbar reflectiam uma alma honesta. Ele era o que se podia chamar de um diamante em bruto.
Com o longo e grande nariz partido tipicamente de feiticeiro, qualquer um poderia pensar que ele um homem muito duro de roer! Como tinha um horror a usar o uniforme, ele parecia-se com tudo menos com um oficial do Exército Imperial da Bellanária. Porém andava sempre com a barba feita.

- Não se preocupe, Princesa. Nós vamos apanhar esse lunático!

A Princesa , um pouco mais calma, observou o pergaminho um pouco molhado com o sangue da própria mãe. Com as mãos, ela tacteou a tinta cor das flores violetas, que brilhava como se fosse do mesmo material das estrelas.

- Consegue traduzir este poema Chinês, Tenente?

- Com certeza, Vossa Majestade, Senhora do Palácio Sul de Suryadevnahutbal. - O Tenente juntou firmemente os sapatos, ao tirar o cigarro da boca. - Bom...quem quer que seja o diabo que tenha assassinado a sua mãe, ele sabe falar muito bem Chinês! Esta caligrafia já deve ter pelo menos mais de dois mil anos!

Isaías arqueou as sobrancelhas ao inclinar a cabeça num misto de curiosidade e medo:

- O que é que diz?

- Não me apressem, esta língua é muitíssimo arcaica e é preciso saber-se muito bem que tipo de variante Chinesa é que estamos a lidar! - Resmungou o Tenente ao usar a luz do cigarro para decifrar a complicada língua.

Por uns momentos, houve um silêncio de cortar à faca. Nesse instante, viu-se como os dois homens eram muito diferentes: enquanto o Princípe Migntetiyte, Capitão da Resistência era pálido, e aparentava ser muito inocente para um homem de trinta e dois anos, o Tenente da Resistência Irmãozinho já tinha quarenta anos contados. O sorriso deste último era sempre cínico. Enquanto o primeiro era refinado e sonhador, o segundo tinha os pés bem assentes na terra. Muito antes de ela ter assistido a tal horrível espectáculo, já a Princesa tinha as faces coradas ao encontrar na rua, ainda por cima à noite, o Tenente da Resistência.

Encantada pela maneira como o Tenente fazia o seu trabalho, a Princesa piscou-lhe os olhos cor de avelã, ao observá-lo com aquele ar concentrado e austero.


Subitamente, ele esboçou um raro sorriso aliviado:

- Ah, por uns momentos fiquei assustado...este é Mandarim do século dezanove...mas há uns elementos na primeira e na última estrofe que me pareceram um pouco arcaicos...é uma típica trovi dos bairros Chineses.

O princípe Migntetiyte arregalou os olhos verdes, muito espantado.

- Dos bairros Chineses?! Mas os seguidores dessa maldita profecia não eram Japoneses?

- Não sei por que razão, mas o nosso assassino está a tentar jogar um jogo muito perigoso connosco. De qualquer maneira, este não é o momento para discutir estas porcarias. - Comentou ao apontar para o velho relógio de cobre de pulso com uma fénix gravada. - Precisa de mais alguma coisa, Princesa?

- Não muito obrigada, Tenente. - Sorriu a Princesa Swerdinada num gesto delicado.

- Não tem de quê, Vossa Divina Majestade. - Respondeu ele num tom distante ao soprar mais uma nuvem de tabaco para o ar. - Creio que é melhor voltar ao meu apartamento.

O Princípe Migntetiyte acenou impacientemente com a cabeça.

- Sim, é melhor, Tenente. Eu próprio levarei a Princesa até ao Palácio Sul de Suryadevnahutbal.

Suryadevnahutbal era o ponto mais alto da Cidade dos Deuses, construída sobre as fortes e firmes colinas atrás das montanhas do sul e do centro da Bellanária. Suryadevnahutbal era o districto da cidade onde só os Deuses, os feiticeiros da nobreza, as Fadas de alta patente e os sacerdotes poderiam visitar a Família Imperial Bellante. Naqueles tempos era também a mais imponente fortaleza e o lugar mais seguro de todo o Império Bellante.

Só a notícia de que a Imperatriz tinha sido assassinada por um mero bruxo de uma patente medíocre era suficiente para envergonhar a Princesa. E aquela criatura de mãos brancas e brincalhonas como duas folhas numa brisa calma de Primavera, ainda abalada pela trágica morte da sua mãe, sentou-se na cama manchada com o cheiro da morte.

Ao retirar das confortáveis e sedosas roupas de dormir um lenço perfumado com incenso de baunilha, ela fechou os olhos, um pouco repugnada.

- Tirem-me este horror daqui! - Ordenou ao apontar, sem oferecer um único olhar de compaixão, para o cadáver da Imperatriz.

O Capitão Migntetiyte arqueou uma das sobrancelhas, admirado, ao inclinar respeitosamente a cabeça.

- Não deseja ao menos pensar como é que será realizado o funeral oficial da sua Honrada e Pobre Mãe? - Perguntou no clássico e refinado dialecto da Capital da Bellanária.

- Não estou com apetência para tais salamaleques. - Resmungou a Princesa Swerdinada com um ar muito aborrecido enquanto abanava o lenço de um lado para o outro, como se fosse um leque. Embora usasse roupas muito ocidentais, a Princesa Swerdinada Di Neptunus continuava a ser a filha única do Imperador.

O Tenente Irmãozinho ofereceu o braço à Princesa.

- Se Vossa Majestade consentir, pode ficar no meu quarto de hóspedes, em Cyborg Town.

O Capitão Jaguar Sangrento lançou um olhar de desprezo em direcção ao homem com um sotaque rude do Norte.

Foi então que a Princesa levantou-se e interpôs entre os dois oficiais e disse numa voz muito doce:

- Agradeço a vossa hospitalidade, meus senhores. Mas não precisam de se preocupar comigo, eu estou bem. Eu posso apanhar um táxi para casa.

- Está a falar daquela velha residência em Cyborg Town?! Nem pensar, jamais iria deixá-la numa cidade infestada de...

Antes que o Capitão pudesse terminar a frase, os olhos de âmbar do Tenente fixaram-se nos dele com um desprezo tal que este desculpou-se ao abanar a cabeça.

- Peço imensas desculpas, Tenente! Esqueci-me completamente que o seu avô protegeu com unhas e dentes Cyborg Town dos Russos.

Inesperadamente, a Princesa deu a mão ao jovem e invísivel centauro.

- Sabes onde é que a Praça Utzurumaru em Cyborg Town?

O jovem centauro ficou surpreendido como é que a Princesa Swerdinada poderia confiar nele, sendo ele um demónio que ela não conseguia ver, e ainda por cima um Judeu, de quem a Honrada e Pobre Mãe tão falara em vida.

- Vossa Majestade confiara num rapaz que não consegue ver?

- Como diz o povo: as pessoas vêem melhor com os olhos fechados. - Sorriu a jovem princesa, ao tentar parecer mais forte do que realmente era.

E os dois homens concordaram que ela não era apelidada de "Flor de Baunilha" pela gente do Norte à toa.