sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Citlalioko - A Guardiã da Escuridão


Decidi fazer uma pequena história baseada num evento que se passou hoje... A vida real por vezes pode ser inspiradora!



Cuixtletleuictic Citlali - Estrela de Prata - tinha recebido o nome em honra da sogra de Hideyoshi, o reputado Cimitarra de Água que tinha posto a ordem nas terras do sul e que estabelecera um reinado de paz nas Ilhas de Jenalrar. Ela morava num edifício já de si um pouco seco e de gosto rústico, em Losjafhden. Talvez fosse mais a vontade da mãe do que sua viver num sítio assim tão húmido e frio. Era uma casa de bruxos, de modo que a altiva bruxa de origens Chinesas preferisse viver numa casa em plataforma altas e madeiradas de cor escura do que numa típica casa do sul. Formosa, mas um pouco afastada das outras vivendas de feiticeiros, a casa tinha como vizinhos uma barca habitada por comerciantes e um belo e pequeno bosque onde prosperava um silêncio macabro, apenas perturbado pelo assobio da corrente do Rio Bênção e o silvo do vento a passar por um esplêndido damasco prateado.

Nessa altura, a pequena aprendiz de bruxa - se bem que não se podia chamar assim a uma dama da alta sociedade - tinha de se comportar devidamente, de forma a que não levasse bastonadas da mãe, que se considerava como descendente de um astrólogo Chinês. A Mãe tinha-se casado por um favor que um primo seu, Lao Kuang, mais conhecido como o "Leão Infernal" entre os Japoneses, tinha prometido a Sharzhatzl-Ólin. Obviamente foi com desagrado que a senhora que usava sempre uma faixa de algodão quente roxa-escura entre os elegantes braços pintados com pó-de-arroz, aceitou, ao ocultar o rosto entre as longas mangas de lavanda o casamento. Se bem que houvessem mulheres de inferior condição que o escravo preferiria ter-se casado, fazer uma desfeita daquelas a um bruxo de tamanha condição como o Leão Infernal seria como se tivesse assinado a sua própria sentença de morte.

O seu irmão mais velho, Zollin, era um rapaz vindo de outra relação, no entanto, ambos gostavam muito um do outro. E Sharzhatzl-Ólin gostava de ambos os filhos. Estrela de Prata era calma e intuitiva, Zollin era exactamente o mesmo - para embaraço do pai. Algumas vezes, eram tão parecidos que chegavam a ser gêmeos um do outro.

Depois da guerra de Poriavostin que tinha durado até 1066, a cidade Losjafhden estava em ruínas - a enorme fornaça que outrora tinha servido para queimar o temível Assassino do Amor vivo estava feita em cacos. E, uma vez que o país não estava em guerra, não era necessário reconstruir a velha vila Japonesa. Com um terramoto causado pelo próprio pai das duas crianças, não restava nenhuma casa a não ser as das famílias Chinesas de feiticeiros que não tinham concordado em combater do lado de Rwebertan Samiel Di Euncätzio. A linda vila de Losjafhden, cem anos depois, não passava de um pequena aldeia onde vivía a única descendente de Onisamatseka, uma aterrorizada senhora Japonesa com o nome de Kazue Hana - Flor da Primavera.

Muitas vezes, Onisamatzeka Kazue era visitada pela pequena Estrela de Prata, embora a senhora fosse descendente de um demónio. Ora, foi numa dessas tardes, em que a jovem de longos cabelos louros voltava para casa, que um estranho a abordou: era um homem, com uma enorme espada de aço embainhada na túnica verde e escura. Seria um guerreiro Bellante? Não, mas também não estava vestido como um feiticeiro Japonês. Então só podia ser Chinês...mesmo assim, ela não deixou de baixar a guarda. Mesmo que se tivessem passado cem anos, a sua Mãe tinha-a ensinado a manejar uma espada, quase tão bem quanto um homem. Por isso, com a espada oculta debaixo do lindo vestido cor do céu, ela recuou.

O Guerreiro de Túnica Verde acenou numa vénia profunda e formal, tal como se deveria fazer quando se estava diante de uma bruxa de condição.

- Sabeis por acaso, jovem senhora, onde fica a aldeia de Itshaki? - Perguntou o estranho, num sotaque no qual ela percebeu ser Japonês. E no entanto, a espada era de dois gumes. A voz dele era muito suave e doce, e ela pensou se, por debaixo do capuz cor de terra, não houvesse um jovem encantador. Ora, numa altura daquelas, com o Inverno a principiar, seria natural que um homem se cobrisse com um capuz, ainda para mais numa terra onde cheirava a morte por todo o lado. Era preciso ter-se cuidado para não apanhar uma praga ou ser amaldiçoado por um fantasma dos dias de guerra.

Estrela de Prata apenas encontrou como resposta abanar a cabeça, num gesto delicado, mesmo assim, reservado.

- Ainda deve ser longe...deve ficar no centro desta Grande Ilha, suponho.

O homem de túnica de veludo e quente suspirou com um ar paciente, à medida que se cobria contra a força do vento.

- Enfim...Mas é natural, deveis ser de cá, e é por isso que não conheceis bem esta ilha.

Ao ver que ele apenas queria conversar - afinal de contas, era mesmo um estrangeiro - ela deixou que ele ouvisse a sua bela voz uma vez mais:

- Sim...eu vivo não muito longe, perto das margens do rio.

A jovem apontou para o horizonte, onde os damasco prateados cercavam as ruas com as suas lindas folhas amarelas e resplandecentes. Contudo, não deixou que ele contemplasse o seu rosto branco, herdado do seu pai escravo. Ora, se ele estava a tapar a cara com o capuz, era justo que ela também não mostrasse os seus olhos rasgados e grandes como duas avelãs. Para além disso, uma jovem dama como ela não devia mostrar a sua beleza a homens estranhos. Porém, ela podia ir aonde quisesse, desde que usasse longos e maravilhosos vestidos que cobriam de todo a sua figura perfeita e incrivelmente feminina. A Mãe estava preocupada com ela, e tinha-a criado para que jamais homem algum a pudesse magoar. E oh, como Citlali era uma jovem desconfiada e inteligente! Os seus olhos ao olharem para o horizonte, pintado com as cores sedosas e rosadas do anoitecer, repararam o quão belas as árvores eram, e o quão felizes aquela humilde gente de Losjafhden estava. A verdade é que sempre que ia visitar a tia, nunca deixava de admirar tudo o que lhe aparecia pela frente, mesmo que fosse uma ninharia comparado com os tesouros que existiam na casa da Mãe. Lembrou-se da sua querida Mãe, do quão ansiosa ela devia estar por voltar a ver aqueles lindos olhos castanhos, e decidiu não voltar a cara para aquele homem.

De tal modo ela procedeu que qualquer homem que visse esta cena provavelmente procederia de forma diferente e não se atreveria a dirigir-lhe uma palavra sequer. Contudo, o homem da túnica verde continuou a falar.

E ela - apesar de não o mostrar diante dele - ficou de tal modo espantada com aquelas palavras...afinal de contas, ele estava-lhe a contar que era apenas um guerreiro, que procurava um pouco de paz naquelas montanhas.

- A guerra de Poriavostin foi algo sem dúvida extenuante para qualquer feiticeiro. Mas eu sou apenas um homem que veio de terras distantes, um camponês que conseguiu arranjar uma arma e lutar ao lado de irmãos e amigos. Tudo isto deve ser deveras maçador para uma donzela, filha de um escravo que conseguiu ascender à classe dos Bruxos...

Ao que ela respondeu, um pouco indignada com o ligeiro tom de desprezo com que ele dissera aquelas palavras:

- Não sou exactamente filha de uma bruxa...A Mãe é um pouco severa, tal como qualquer mãe deve ser.

Ele soltou uma leve risada. No entanto, a sua voz continuava a ser tão melosa como quando abrira pela primeira vez a boca, tão dourada quanto as folhas de gingo. Não havia nada de estranho naquela figura de um guerreiro, com uma espada Chinesa, envergando uma túnica de veludo semelhante ao jade escuro e polido. Era como se houvesse algo mais para além disso. Contudo, ela deixou-o continuar, com uma postura digna de uma altiva senhora Chinesa.

- Sois uma donzela muito inteligente. Voltei para a Bellanária para ver se está tudo bem, e parece que sim. - Disse ele num tom ambíguo e enigmático.

Naquele momento, Citlali só pensava em voltar para casa. O Sol já se escondia sobre as sombras dos espessos troncos. Estava a escurecer, e ela tinha a certeza que apesar da sua Mãe ser bastante condescendente, ela jamais a perdoaria por estar fora durante tanto tempo. Se aquele homem continuasse com aquela conversa, ela ia sacar da espada curta num instante!

- Para um homem como o senhor, isso deve ser bastante extenuante. - Ela comentou num tom gentil, mas frio.

O Homem da Túnica Verde encolheu os ombros num gesto conformista. Só aí é que ele reparou que ele era de uma estatura média, até aceitável para um Japonês. No fundo do seu coração, secretamente, ela suspirou de alívio. Aquele não tinha ar de ser um demónio disfarçado.

- Faz uma semana que cheguei do Japão. Como o tempo passa depressa, não é verdade? – Desta vez, a voz era mais informal.

Sem dar ares de admirada, ela respondeu com um simples “sim”, acenando com a cabeça num ar submisso. Foi então que ele aproximou-se uns poucos metros dela, o que fez com que Estrela Prateada se arrependesse de se fazer submissa. Devía tê-lo chamado nomes, devia actuar como se fosse arrogante ou autoritária, tal como qualquer outra bruxa faria! Sentiu-se como se fosse a rapariga mais estúpida à face daquele universo.

- Bem... O que pensais que estais a fazer, Mestre... – Ela carregou o sobrolho, por detrás do leque cor de pêssego, desta vez com um verdadeiro ar de desconfiada.

- Pensei que podia acompanhar-vos até casa, minha senhora... – Ele respondeu num tom nada malicioso.

Respirando bem fundo, ela lá deixou-o escoltá-la até casa. Ao chegarem às portas da vivenda da Mãe de Estrela Prateada, ela parou, e agradeceu com uma ligeira, mas distante vénia pelo cavalheirismo do misterioso homem. Tudo isto sem revelar o seu belo rosto de arroz fino e macio.

- Talvez nos possamos encontrar uma vez mais, Senhora...

- Talvez... – Ela disse numa voz reservada. Foi aí que ela, mais para fazer troça do homem do que por outra coisa, deixou que um pedaço do leque lhe destapasse os lindos olhos amendoados de menina. Piscou-os em direcção a ele, num ar sedutor, mas ao mesmo tempo, recatado e doce.

E foi assim que ela se apressou, graciosa como uma fugidia ninfa dos bosques, para as portas de madeira escuras, desaparecendo por entre elas, sorrindo para dentro.

domingo, 30 de outubro de 2011

Capítulo 2 - O sopro do Feiticeiro (parte i)

"Sabe alguma coisa sobre o assassino de Kanti Lornam?" Um jovem feiticeiro de origens coreanas e japonesas perguntou ao oficial da Resistência. Thaiko Sung - o único herdeiro de uma rica família de feiticeiros - tinha ficado apavorado quando ouvira que alguém tinha morto uma das mais importantes aias da Princesa Swerdinada.

Eles estavam num café em Cyborg Town. Enquanto o oficial da Resistência acendia um cigarro, os seus olhos castanhos fixaram-se nos de Thaiko Sung, um feiticeiro de apenas onze anos e o único sobrevivente da família Sung. Todos os parentes deles tinham sido assassinados como consequência dos vários incidentes com as poderosas famílias Japonesas do Norte. Se havia alguém que estava inocente naquela história, era ele. Uma das pistas apontava porém para um homem que tivesse mãos pequenas... só podia ser um rapaz manipulado por um mestre da Magia Negra mais velho...Thaiko era um grande amigo de Sara, e ele próprio assegurara às autoridades Bellantes que ele jamais se atreveria a magoar a Família Lornam. Talvez as famílias Japonesas tivessem alguma coisa a ver com isso...

- Desculpa lá, puto. Por muito que as pistas apontem para alguém das famílias de Bruxos Japoneses, isso não é suficiente. - Comentou o Tenente da Resistência, a Guarda Imperial da Bellanária, ao soprar uns anéis de fumo. - A carta veio de uma fábrica Italiana e a cicatriz da arma que foi usada no crime não tinha sinais de um típico corte feito por uma lâmina Japonesa. Não achas que serias o primeiro logo que soubéssemos de alguma coisa?

O jovem feiticeiro acenou com um ar tímido, ao pôr a mão na mesa, aborrecido.

- Eu sei...É só porque isto tudo é tão injusto! Não podem culpar pessoas inocentes... Muito menos a mim! Eu nunca nutri um sentimento de ódio pela Princesa Swerdinada, juro! Se ao menos eu conseguisse lembrar-me do que aconteceu naquela noite...mas não consigo! Foi a minha primeira noite como um bruxo adulto, eu vinha com as roupas do meu Pai. Depois de ter entrado num táxi para o Cavalheiro, não me lembro de mais nada...

Ele bem que tentava controlar os sentimentos, mas as lágrimas fugiam-lhe dos olhos.

- Não sei quem é que matou a Senhora Kanti, mas esse homem deve ser realmente horrível para fazer tal coisa!

O outro suspirou, já habituado a aquelas coisas, e deu uma palmadinha nas costas do jovem Sung, num gesto quase paternal.

- Bem vindo ao Mundo dos Bruxos, jovem Sung. - Sentindo os joelhos de Thaiko mais perto dele, o oficial da Resistência abraçou o rapaz. Todos os dias, ele via rapazes como Thaiko: abandonados ao destino, sem saberem que tipo de mestre é que haverão de escolher. Rapazes órfãos, que não tinham ninguém no mundo. Isto acontecia frequentemente naquele mundo cheio de ódio e de sangue. Por vezes, as vítimas ficavam como aprendizes dos assassinos e ninguém dava por isso.

Passou um mês, e ninguém se atreveu a dizer uma palavra sobre o assassinato de Kanti Lornam em Cyborg Town. As únicas pistas eram as marcas de sangue deixadas no chão do salão do Cavalheiro. Veio um especialista, e este disse à Resistência que eram caracteres Japoneses, antigos, provavelmente do tempo do Assassino do Amor, há mil anos atrás. O que ele viu é que um deles significava "filha" ou talvez "criança". As cicatrizes no pescoço da vítima diziam que isto tinha sido muito bem planeado. O assassino sabia exactamente quando é que devia matar e as saídas que usaria para escapar do local do crime. Tinham estado mais de cem pessoas naquele salão, e todas elas tinham tido os olhos postos no palco. Para se cometer um acto tão vil era preciso que o assassino fosse engenhoso e se movesse silenciosamente como uma sombra para agarrar no corpo de Kanti, e depois, atacá-la tal como uma víbora, matando-a sem que ninguém desse por isso! Claro, tinham estado todos bêbados no feitiço que ele tinha tecido sobre o Cavalheiro para que reparassem num homem no palco.

Kanti Lornam era uma apsara - uma fada celestial, muito semelhante com a kinnara mas sem asas ou quaisquer ornamentos no corpo elegante. Com mais de trezentos anos, ela ainda amava o seu querido feiticeiro Farzad Lornam. Embora já fosse de uma certa idade, ela continuava com um aspecto gracioso e belo.






quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Lentamente, a Lua se esconde...

Roshini observava, esfregava os olhos, fechava-os e continuava a ver, atónita e com a raiva a subir-lhe às tempôras, o seu tio a seduzir aquela rapariga inocente. Ele não só queria conquistar o Império da Bellanária através da Lua dos Sonhos, queria destrui-lo através da Guerra entre as várias classes e o Norte e o Sul! Que podia fazer, o que poderia fazer?
- Desejais um pouco de Frambinam, Princesa Sarvahdinada? - A voz falsete e compassada, monocórdica do homem sussurrou, ao estalar os dedos e prontamente, mãos invisíveis trouxeram uma garrafa de cristal adornada com uma fada pintada de vermelho.


A princesa corou, espantada. Mas há pouco tempo ele não queria violá-la? Tinha apenas dezassete anos, e não sabía que as bebidas alcoólicas podem derreter a timidez de qualquer um. Também estava muito confusa: aonde é que estaria o homem que a tinha salvado quando ela ainda tinha dez anos? Com o cabelo negro a pender dos ombros de chocolate, ela fixou o seu olhar de canela no homem alto e forte, com um corpo que se assemelhava ao mármore branco e frio! Com aquele rosto de mais de mil anos, o nariz adunco, os olhos verdes a observarem-na cuidadosamente como se ela fosse uma obra de arte, os lábios a desejarem-na com um sorriso carnívoro e sedutor...tudo isso lhe fazía uma enorme confusão. E mesmo que ainda não tivesse provado o licor de framboesa, já sentia uma certa tontura, uma loucura que lhe dava uma enorme vergonha!


- S-sim... - Ela murmurou, num suspiro, a perguntar-se como é que um homem tão feio de cara podía ser tão atraente no corpo, naquele corpo esguio e atlético.


As garras dele passearam no corpo dela, enquanto ela respirava bem fundo, sentindo o sangue a subir-lhe à cabeça a uma velocidade estonteante. Di Euncätzio Samiel - era a primeira vez que se sentia orgulhoso pelo nome que tinha, e a pronúncia em Chinês tornava-o cego ao amor. Do fundo daquilo que ele tinha, apodrecido no interior do seu peito, ele amava realmente a princesa humana, e mesmo que a desonrasse, não tinha remorsos nenhuns acerca disso. Os dentes afiados dele lamberam com prazer o licor que deitou por cima dos ombros dela, fazendo com que Sarvahdinada tivesse um calafrio. O cheiro a álcool fez a sua pele arder, e no entanto, o sabor a framboesa fresca era o mesmo. Recordou-lhe daquele dia em que o tinha visto, há sete anos atrás. Esquisito como aquilo a fazia sentir-se bem e nervosa ao mesmo tempo. No entanto, isso também lhe fez lembrar que tinha sido por causa das Nagas e de Rusalka que a Guerra tinha começado. E o país bellante...seria que o Assassino do Amor já tinha previsto aquilo tudo...? Seria que ele a tinha conduzido até Kelzharam de propósito?

Aquela figura anónima, aquele homem que se escondia por detrás daquelas vestes sumptuosas e imponentes...seria ele capaz de amar? Tocou ao de leve o rosto oval dele...era tão diferente do dela, enrugado, como se fosse um velho pergaminho de bambu. O nariz adunco inalou profundamente o perfume que vinha do pescoço dela.

- Como é que é possível...? Como é que é possível gostardes assim tanto de mim se odiais o Império e a cidade onde eu cresci? - Ela exclamou num tom muito triste, cheia de saudades dos seus pais e da cidade que a tinha visto nascer e tornar-se naquela rapariguinha que desaparecera, há sete anos atrás.

As garras do bruxo limitaram-se a acariciar aquelas costas frágeis e delicadas, consequentemente fazendo com que a princesa tivesse um ligeiro calafrio. O hálito do Assassino do Amor chegou às orelhas dela, naquela voz falsete, metálica e fria como uma adaga letal!

- Só sei que esses teus olhos de almíscar me enfeitiçam, princesa. - Aquela voz, tão sibilante, tão intensa, fez com que um súbito calor viesse à espinha da jovem.

Sarvahdinada quase que gaguejou quando ia começar a falar, o calor da água vulcânica fazendo com que os dedos dela se apercebessem da pele áspera e masculina do Assassino do Amor quando encostou, sem querer, a cabeça perto da dele.

- Os meus olhos? Que têm eles de tão especial?

- Ainda há inocência neles... - Ele murmurou num tom que podia passar por carinhoso. - Não deve haver uma criatura mais pura como tu, minha querida!

Uma vez mais, ela corou, e suspirou, e sentiu uma estranha vontade de o abraçar. Mas seria correcto?




terça-feira, 13 de setembro de 2011

Rosa Americana


Uma pequena canção que escrevi enquanto lia alguma literatura oriental - ultimamente, tenho andado um pouco obcecada com o tema da Ásia nos Anos 20, 30 e 40 por causa de algumas das minhas personagens serem orientais. Talvez use esta canção para um dos meus livros.

Pequena rosa,
Toquei nos seus (dela) cabelos,
Roubei-lhe um sorriso, àquela criatura pedante,
Orgulhosa da sua nacionalidade,
Como numa pintura a óleo, os selos,
Pintados com o vermelhos dos seus lábios,
Ela não se assemelha a uma criatura de pura virgindade,
Ela é uma rosa Americana, a minha querida e misteriosa amante!




A minha pequena rosa,
Conhecía-a numa esquina à beira do mercado Chinês,
Através do perfume Francês azul que saía dos seus olhos,
Fiquei encantado, e através da cor da sua pele sedosa,
(Tão diferente da minha pele horrorosa!),
E as suas pétalas eram os folhos
Do vestido, por aquela donzela com delicado tecido,
Eu fiquei enternecido!


Quando o vento lhe roça, gentilmente,
Nos cabelos de porcelana,
Creio que ela tem medo de mim,
Aquela tentação do país do ocidente,
Mas ela, ela é uma rosa tirana,
Isto poderia ter outro fim,
Assim, eu poderia beijar novamente aquele rosto tão quente!


Pequena rosa de Nova Iorque,
Por que me vira a cara, como quer esconder,
Aquela pequena tristeza,
Aquele vazio de cabeleira com sabor a mel,
Escondida ela está naqueles olhos de quem não quer,
Não quer ganhar a guerra, mas quer ser uma perfeita mulher!
Mas ela, ela é uma flor de dureza!


Rosa de vinagre misturado em vinho,
Ela, com o seu delicado e teimoso orgulho,
Não quer tocar num rosto de ouro,
Será que ela não vê que o tigre lhe entrega o focinho,
Será que ela não vê a vénia do submisso touro,
Ela, com o seu ar de senhora com espada em punho,
Será que ela não sente os meus lábios a ansiar pela pele dela,
Será que ela não percebe que os seus seios sabem a canela?

Pequena rosa,
Deixa-me provar esse fruto exótico,
Deixa-me perder nesse teu rosto hipnótico!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Outono - um bruxo de frio


Como o Outono - aquela estação, meio quente, meio fria, que algumas vezes me põe a espirrar, outras vezes, com uma felicidade por ter de trabalhar - está para breve, decidi escrever um poema dedicado a ele. Melhor a uma personificação dele. Se ele fosse um homem, tenho a certeza que seria um bruxo das minhas histórias.


Uma folha morta cai às tuas botas, ensanguentadas,
Tal como uma frágil mulher,
Ela tem as curvas da uva apetitosa,
Que faz o vinho do medo,
Que é servido pela criada que se ajoelha,
Da mesma maneira que a folha da videira se inclina,
Ela também treme por causa do vento gélido,
Mas não é o frio dos tempos difíceis que a assusta,
É o medo de partir o copo cristalino,
E do vidro, beberás o sangue,
Que a mandaste servir!


Um corvo aparece numa embaciada janela,
A paisagem está coberta de nuvens cinzentas
- Tão cinzentas como os teus olhos!
Olhos de melancólica mirra,
Que fina e aveludada criatura era aquela,
Por que é que ela tinha de colher - sol a sol - os molhos
De uvas, os frutos da tua sangrenta ira...?


Olhos amendoados de corça são os dela,
Rios obscuros onde secaram muitas penas,
E usa, como uma noiva leal do Imperador, a seda amarela,
Costas de branca garça que pertencem ao doce mecenas,
Que foram chicoteadas, aquelas costas de criatura,
Filha da Natureza,
Porém! Tu não te importas, tu só fazes pelo prazer de a ferir,
De ferir aquela personificação de pureza!

Ó Outono, quando é que vais aprender,
Quando é que vais parar de te rir
Com essa voz de vento gelado,
Quando é que vais parar para sentir,
Para ver que até as deusas,
O som da tua voz trovejante faz tremer,
Com a tua frieza,
Fazes a colorida floresta transformar-se
Em sombras castanhas de âmbar!
Todos os seres vivos conseguem perdoar-se,
Mas tu, tu nem tens tempo para amar!



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Há sempre algo para dizer

De volta com este pequeno excerto dos tempos do Assassino do Amor!


À meia-noite, há sempre algo a dizer...

Uma flor caiu nos cabelos da jovem princesa, ao olhar para a água cristalina do lago que as fontes termais perto do Castelo Negro formavam. Ela não ligou muito para aquilo, mas os olhos estavam abertos, e o nariz captou umas mãos de homem a massajarem-lhe os ombros. Eram umas garras esqueléticas, mas gentis.

Ela nem pôde acreditar: o Assassino do Amor, o implacável senhor daquele palácio sinistro, olhava para ela com um olhar doce, enquanto descalçava as botas e desapertava o robe oriental.

Os olhos negros dela brilharam ao luar, enquanto ele entrava na água quente e a deitar espuma, como se fossem nuvens fofas de algodão. Estas nuvens cobriam o peito macio e de chocolate da princesa arco-íris, cujos cabelos negros apanhados num gancho de jade em forma de borboleta eram tão negros como a noite. Os cabelos ruivos dele resplandeciam como labaredas de fogo, ansiosas por consumir o mais precioso dos frutos concebidos pela Natureza!

A jovem virou a cabeça quando os dedos dele a tentaram acariciar. Aquelas duas esmeraldas forçaram-na a olhar para ele.

- Vossa Alteza está muito melancólica esta noite. - A voz metálica e aguda ressoou no silêncio nocturno. - Porque é que me evita?

A jovem tremeu quando ele encostou a cabeça ao ombro nu dela. Agora, depois do rapto, depois de saber que tipo de homem é que aquele bruxo era, a princesa mais nova do Rei Neptuno estava aterrorizada. Aquele homem, tão forte, mas tão perigoso, estava tão perto dela, como a flor estava da água a ferver. O nariz dela apanhava o desejo que ele respirava por ela, tão intenso, como as pétalas da camélia.

Inevitável aquele sorriso malicioso, enquanto lhe esfregava as costas femininas com as pétalas das camélias, ele suspirou, indiferente ao terror dela.

- Jamais devia ter-vos deixado com aquelas fadas malcriadas. - Ele encostou ao de leve, o nariz curvo de falcão perto das ancas suaves como seda, aquelas ancas frágeis e belas, que o faziam ansiar por mais. - Elas não compreendem que eu vos amo, muito!

Anjali Sarvahdinada engoliu em seco, ao ver que aquelas garras não a iam libertar.

- Por favor... - A voz dela murmurou, enfraquecida pelo feitiço hipnótico que o Assassino do Amor lhe pusera, horas antes. - Não me faça mal, Mestre Samiel!

- Eu? Fazer mal a ti, minha flor? - Repentinamente, as garras dele apertaram a cintura dela contra o corpo forte dele. - Eu só quero um pouco da tua energia, aquela Lua dos Sonhos que está escondida...

Os dedos anormalmente magros passearam num sítio onde Sarvahdinada não queria que estivessem! Arregalou os olhos, indignada, quando os dedos do feiticeiro tocaram, abruptamente, no íntimo dela.

Ele sorriu com um ar malévolo nos olhos rasgados e verdes, concluiu com um riso de hiena, perverso:

- Aqui, no teu templo sagrado!

- Tire...esses dedos demoníacos de mim!

A jovem princesa tentou espernear, mas o seu corpo não se mexia! Estava mesmo enfeitiçada por aquele homem maluco!

O que o Mestre Samiel não esperava era uma jovem fada dos seus dezanove anos, de lança em punho, preparada para defender a Princesa Arco-íris, dois anos mais nova que a Kinnari, a metade fada, metade cisne!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um verdadeiro Feiticeiro Branco


Biblioteca da Família Von Tifon - os artigos que eles não querem que sejam revelados!



Nem sempre houve esta pressa, este passo ordenado e automatizado tão costume dos Bellantes e dos povos mais do oriente. Em Мэрлоноград (Merlonogrado) – ou Cidade ao Pé do Mar, como dizem os Russos do baronato, vizinho do Ducado da Cidade Perdida – tudo era feito com uma lentidão pacata e humilde.


Custodio Villanueva, é o nome de um dos bruxos mais corruptos e mais obscuros do baronato de Merlonogrado. Merlonogrado, uma família católica de Russos e Espanhóis que nunca se deu bem com o conceito de feitiçaria que nós, os vizinhos Japoneses e Alemães praticamos, torceram o nariz quando os guardas da fronteira marinha anunciaram que um homem alto, de porte elegante e enigmático, tinha aportado com apenas um barquinho a remos, daquelas gôndolas que se vêem nos filmes.


Mesmo assim, há dois anos atrás, em 1978, eles não se importaram de acolher Custodio Villanueva, cujo nome completo era Custodio Dário Villanueva. Villanueva tinha um bigode pintado a pincel preto, com um fluente sotaque catalão.


Um dia, apareceu no palácio dos nobres a dizer que era médico, e que sabia tratar de feridas nas pernas e nas costas. Levava um estojo escuro e uma capa velha para lhe ajudar a aguentar mais o frio de Outono.


Lembrai-vos Vossas Excelências, que havia uma praga de cogumelos venenosos, e a Baronesa Maria Eufémia andava com um reumático nas costas. Custodio Villanueva curou a pobre e velha senhora numa questão de dois dias. Também curou um escravo e uma jovem bisneta do antigo e já falecido Diego Yaranuez.


Após essas pequenas consultas, não quis saber de renumerações ou recompensas para nada. Que, não, que não, que a única preciosidade que tinha era o orgulho em ter ajudado mais pessoas e a tirá-las do sofrimento.


Um dos trinetos do lado da família Russa então propôs-lhe que o ajudassem a subir na carreira como bruxo.


E foi assim que ele se mudou do baronato para o ducado. Custódio Villanueva, com os seus estranhos olhos azuis, os seus modos quase devotos pela morte tardia da Duquesa Abir, e a pena por não ter ouvido da doença da “honrada senhora” mais cedo.


Ficámos habituados a ele, a ele e às suas maneiras delicadas, a sua sinceridade disfarçada em pedantismo, ao fumar aqueles cigarros (quando começou a trabalhar para a nossa família, o dinheiro veio tão depressa quanto o milho em Agosto!) de hortelã – pimenta.


Outro mês passou, e outro, e outro, e quando era Inverno, apanhei sozinho o velho feiticeiro espanhol a rezar pela alma da Duquesa. Estava a chorar. Perguntei-o porquê.


Ele ficou calado durante uns minutos, apenas a olhar reverentemente para o quadro da minha mãe.


Acabou por confessar que ficara apaixonado pela senhora do quadro, e que era uma pena que ela já tinha morrido, porque se fosse viva, ele lhe daria todo o amor que ela precisava.


- A minha mãe não merece o amor de ninguém. – Comentei, quase sem querer. Que é que os meus leitores querem? Que esta minha memória, este meu espírito fique calado? Não conseguia.


- Sois uma mulher muito ingénua, mas também muito esperta, Menina Charlotte. Pode ser que a vossa mãe guardasse no fundo a mesma mulher bondosa e com coração que está reflectida nessas lindas faces de chocolate. – Disse o homem sabiamente. Limpou as minhas e as lágrimas dele, carinhosamente, como se tratasse do meu pai. – Mas é tempo de restabelecer tudo, Vossa Graça. Não vos importuno mais, e mais uma vez, desculpai-me pela minha compaixão.


Fez uma vénia muito formal – até demasiado para um espanhol – e deixou-me, a pensar, ali. Não foi despedido, tal como provavelmente pensara. Agora é muito mais do que um amigo, é como se fosse da família.


Ficou connosco como amigo e como confidente de Karl Honestoffmann, que adorava o seu gosto pelo velho e pelo rústico, e pelo órgão, que Villanueva dizia-se ser uma vez padre, mas que desistira da profissão por causa do herbanário. Com o tempo, adquiriu o carinho das crianças, o respeito dos adultos e o amor dos fantasmas Japonesas, incluindo a Senhora Murakami em pessoa. «Quem me dera que o meu filho fosse assim!»


As cortesias que fazia, a opinião conhecida e quase eloquente, fazia-o ser apreciado pelos feiticeiros Japoneses que muitas vezes, coitados, vinham pedir esmola na época do comunismo.


A roupa, diga-se de passagem, durava-lhe muito. Por vezes, escovava com a mesma mesura que lavava a roupa, o pelo do gato de família, Spiegel. Nessa altura, até o nosso gato persa era um atleta, a caçar ratos e baratas.


Lembro-me que Irene o chamava de “o Avô emprestado” por ter uma barbicha prateada que lhe ficava muito bem na pele queimada do sol.


Wilhelm Couto e Hans, por sua vez, gostavam muito dele por causa das piadas que o velho espanhol sabia. «Come-se do que há, peixe fresco é o melhor que tem cá.» Dava para as pessoas rirem-se do jantar simples e tipicamente Bellante: uma vez era arroz, outras vezes tortilhas com carne esmigalhada de porco com pimenta, cebola, molho de maionese, e papa de espinafres, tomate, cenoura e batatas, outras vezes, era peixe.


Havia depois o Usagi – o meu namorado dessa altura – que ajudava-me a coser as roupas. Eu contava os poucos lucros que tínhamos a vender para a União Soviética. Nessa altura, a Katharina morava na Inglaterra.


Aqueles eram bons tempos. Sentava-se sempre com a gente o Tio Maximilian e o Tio Martin, juntamente com os primos Ernst e o Rutger. Todos nós, ajoelhados no velho e empoeirado salão de jantar, com umas almofadas rotas e apenas a mesa de mogno cujas pernas tinham sido cortadas. Dava um estilo mais oriental ao palácio. Nessa altura, era mais uma Menina von Tifon do que “As Senhoras e os Senhores von Tifon”. Ao pequeno-almoço, comia-se pão com salsichas (coisa que Usagi e o Mestre Custódio nunca comiam), e um leitinho, outra coisa que os nossos rapazes Ernst e Rutger adoravam era molhar o pão no leite com cevada, coisa que eu achava intragável, mas enfim. Eram manias alemãs, tal como era mania Japonesa servir-se o peixe cru porque às vezes não tínhamos dinheiro para pagar o gás. Ainda bem que a Avó me tinha ensinado antes de morrer a fazer comida Japonesa para o jantar, senão, morríamos à fome.


Ninguém na “Capital” – como falava o Usagi falava de Tóquio – queria saber de nós. Nem na Alemanha, nem no Japão. Era como se não existíssemos.


No entanto, nós ajudávamos os humanos, e eles sentiam-se bem connosco. Eram tempos muito diferentes. O palácio nunca estava limpo, não havia criadas a correr de um lado para o outro, e tinha de ser eu a tratar de tudo: da roupa (a não ser da de Usagi ou da do Mestre Custódio, que não me queriam dar mais trabalhos), das paredes, do pó, da cozinha, da burocracia para que a nossa empresa sobrevivesse no mundo comunista…podem imaginar como é que eu me sentia depois de um dia de trabalho.


A velha casa Von Tifon era sinónimo de tradição, era sinónimo das antigas canções do Norte, que eu costumava cantar, por distracção.


O destino prega-nos cada partida. O baronato e o ducado gostam muito dele. E assim, quando caiu o muro de Berlim, e a família Merlonorgrado foi condenada à morte por traição e por comunismo, Villanueva foi um dos primeiros bruxos a ser considerado como o possível novo senhor de Merlonogrado, ele recusou prontamente.


Disse que tinha saudades de Espanha. E partiu sem deixar rasto. Lembro-me, dois anos passados, neste Dia da magia Negra, que ele punha sempre os Deuses acima de tudo. Bruxo? Bruxo coisíssima nenhuma! Aquele era um feiticeiro branco.


Este é uma crónica antiga que encontrei sobre um feiticeiro branco que a Tia Charlotte (a irmã da minha mãe Katharina) conheceu nos Anos 80. É engraçado como nessa altura, o reverendo "Mestre Custódio" era quase como uma figura paternal para a família von Tifon, arruinada pela mentira da ideologia comunista.


Recordam-se talvez daquele bruxo do "Fumo Sinistro" e do "Um bom exemplo de um bruxo quase ao nível do Assassino do Amor"? O Custódio Dário Villanueva era esse tal feiticeiro! Nessa altura era muito simpático, todo ele simples, todo ele cumpridor das regras dos Deuses...


E o que é que aconteceu nos Anos 90? Ninguém sabe. Talvez tenha feito fortuna na Espanha como médico da medicina alternativa, não sei.


O que eu sei é que a bondade de Villanueva trazia água no bico....