quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Rouxinol Von Tifon

Não sei se já vos falei do meu bisavô Christoph William von Tifon. Então perguntei uma vez à minha mãe quem era o pai do Avô Adrian. A minha mãe - que prefere debater-se entre pepinos, tomates, raspadores de cenoura, cebola e pimentos - disse num tom muito insultado e indignado que nunca tinha conhecido (ou sequer ouvido falar) o "Avô" dela.

«E agora desampara-me a loja que o Reini não gosta nada se eu me atraso com o jantar!» Respondeu ela, com aqueles dois grandes olhos azuis, como se fosse uma juíza no meio de uma sala de tribunal a dizer que a sessão estava terminada.

Mas eu, eu não desisti até encontrar uma dúzia de livros poeirentos sobre o avô, colocados mesmo no fundo de uma prateleira, abandonada ao Deus-dará, no canto mais extremo da biblioteca, um canto que parecia nunca ter visto a luz do Sol. Vocês não gostam de ir ao sítio aonde a vossa família guarda todos os tesouros, aventuras, desventuras e podres? Eu adoro! Principalmente porque, uma hora depois, eu fico toda rouca da garganta. É no que dá ser neta de um velho saco de ossos alérgico ao ar puro.

Enfim, a máquina fotográfica ainda não tinha sido inventada na altura em que o bisavô viveu, e pelo pouco que sei sobre ele, o excelentíssimo Sr. Duque Christoph von Tifon raramente deixava que um escultor ou um pintor representasse as suas belas faces. É muito estúpido, porque eu acho que o meu bisavô não deve ter sido assim tão feio como o meu avô ou o meu Padrasto. Tinha um ar juvenil no nariz pequeno, em forma de cogumelo. Os olhos, claro, pareciam ser azuis, mas eu até apostava que eram verdes. Eram aquilo a que a minha Tia Charlotte diria: “uns topázios num lago salgado de algas”. Mas a Tia Charlotte é muito mais poeta que eu, e eu jamais arruinaria as frases dela com as minhas humildes e sujas palavras, acabadas de sair da fria Inglaterra.

O meu bisavô, naquela pintura, parecia sonhador, a olhar para uma toutinegra, com uma caneta antiga na mão, pensativo, mas com um leve sorriso no rosto angélico e nórdico. Era apesar de tudo, pequeno – aposto que não media mais que um metro e setenta – para a maior parte dos bruxos. Com uma constituição de monge pedinte, as túnicas púrpura elevavam-no ao estatuto de um poeta clássico. E quem sabe, se até ele era poeta? É que, segundo o meu bisavô nas suas cartas, quase coladas ao papel do álbum de fotografias de antigos retratos e recordações, a Mãe Natureza, os Deuses, tinham conspirado para que ele não fosse um bruxo, mas sim um artista.

E então, descobri que o meu bisavô era muito mais novo que a minha bisavó quando tinha casado com ela. No princípio do livro sobre ele, dizia que ele tinha nascido em 1750, quando a poderosa Senhora Murakami nascera em 1699. O casamento foi combinado à antiga, quando o pequeno Christoph só tinha dez anitos, em 1760. Quando ele atingiu a maioridade, em 1768, o casamento foi celebrado em Tóquio, com toda a pompa e circunstância, numa floresta conhecida da família demoníaca Murakami.

A seguir, noivo e noiva foram de navio até à Cidade Perdida. A Senhora Murakami tinha então sessenta e oito anos! Fiquei completamente parva. Imaginar uma senhora tão velha a casar com um rapazinho de dezoito anos fez-me rir. Penso que a minha bisavó nutria um sentimento quase maternal pelo marido.

E acho também que isso aconteceu com o meu padrasto e com a Sara. Mas a Sara…a Sara tinha dezassete anos quando o conheceu!

Mesmo assim, acho que deve ter sido uma união muito querida e carinhosa, a da minha bisavó e a do meu bisavô. Os poemas que o meu bisavô tinha escrito sobre ela eram lindos.

Se há um pensamento que me assombra,

É este de ser uma fria catacumba,

Um vaso simples sem ornamento,

Algo vazio, e no entanto um complemento,

À minha vida e ao meu mundo!

Mergulho, cada vez mais fundo,

Sondo as páginas do teu e do meu ser,

Mas, nunca poderei descrever,

Aquilo que há de mais profundo

No meu ardente querer!

Só tu, querida, com este teu fruto,

Maduro e preciosa maçã de Primavera

Faz com que eu fique mudo,

E faça com que a minha mente,

Se torne uma poderosa quimera!

O meu bisavô era o mais humano dos Von Tifon, mas casou com o lado mais demoníaco da família: a minha bisavó. É uma história linda a dos meus bisavós, não achas? Acho que ela só dizia que se tinha casado nova porque ficaria envergonhada. Ela dizia que se tinha casado aos dezasseis anos, mas acho que a minha bisavó tinha sofrido muito na vida para se apaixonar verdadeiramente por alguém. Ainda bem que apareceu um rapaz sensível e bondoso como o meu bisavô na vida dela. Ali estavam, as datas verdadeiras do nascimento de ambos. É impressionante que o meu avô tenha nascido da união destes dois. A minha bisavó não era malvada, ela só tinha passado por muitas coisas enquanto mulher japonesa. Ela só dizia aquela mentira piedosa de ter casado cedo por não queria que pensassem coisas ainda piores do que já pensavam.

E o meu bisavô – um amigo do peito do grande escritor Erwin Di Gracxiushandrian – que lhe dedicara todo o seu amor, adorava as crianças que ela lhe tinha dado. Quando penso que o meu bisavô é o avô da Sara, acho que faz um pouco de sentido que ele se tenha casado com a Senhora Murakami. Ela tem o mesmo ar distraído e brincalhão dele.

Até aposto que o meu bisavô nunca ligou para a Magia Negra. E estava certa nos meus palpites, porque ele, ele morrera em 1890, muito cedo para um feiticeiro. Os outros feiticeiros da minha família podem dizer o que quiserem sobre ele, mas eu cá acho-o um pão adorável naqueles retratos de casamento, com aquele rosto redondinho, os olhos grandes, tímidos e alegres para o pintor, a mão pousada ao de leve no quimono da noiva, o ar muito informal com que ele está. Ele até podia ser bastante porreiro, não acham?


O Nälden disse-me que os outros bruxos naquela altura o chamavam de "o Rouxinol", meio no gozo, meio a sério. Porquê? Porque o meu bisavô, em vez de praticar tiro ao alvo - com um demónio como alvo - ou de aterrorizar as populações humanas ao raptar as crianças, ele costumava escrever modinhas debaixo de um pessegueiro na Primavera, tocava um pouco de guitarra - parece que bastante mal - e declamava em voz alta, enquanto bêbado, em voz cantada, na hora de ponta, em Cyborg Town. Enfim, o meu bisavô era aquilo a que o meu avô chamaria de "um homem fraco". É que o varão da Senhora Añuli fora educado pela mãe viúva, à maneira camponesa e africana, e nunca soubera o que era reinar no Ducado da Cidade Perdida.


A única coisa que o nosso Rouxinol sabia era cantar, caçar com a caçadeira, a lança, e a adaga. Pobre rouxinol, num mundo em que o bruxo comum sabia aguentar uma garrafa de Frambinam inteiro, ele só bebia cerveja bávara "fraquita". Ai, pobre poeta das florestas do Sul e dos sonetos com duas quadras e três estrofes de cinco versos, com os teus classicismos e a tua pelezinha de menina, não me admira que os outros feiticeiros te chamassem de "Menino da Mamã" e "Sua Excelência, o Apêndice do Biombo Japonês". Essa última alcunha foi dada pelo Rei dos Bruxos, Kasimir Malaghetyev, que andava de mal com a Senhora Murakami lá por 1845. O meu avô Adrian chamava-o de "O da minha Mãe". Nem se atrevia a chamar "o meu pai" para não se lembrar do ser maldito que lhe tinha concebido.


Coitado do bisavô. Afinal, ele devia ter mas é ido para a Europa. Aí, ele seria um nobre de verdade. Mas, com as Invasões de Napoleão e as ideias iluministas , o meu bisavô preferia que o seu filhinho fosse para o Japão do que ser educado por um pai irresponsável. Acho que o facto da minha mãe "nunca ter ouvido falar" do meu bisavô deve ter sido provocado pelo "coração de manteiga" do meu avô Adrian.


No século dezanove, quando o peso da idade lhe ensinou que o filho devia mas é tornar-se um bruxo a sério, ele passou a escrever poemas mais escuros, como este:


As folhas vermelhas de Maio caem,

Caem na minha sangrenta alma,

Formando uma rica, exótica paisagem,

Que escureceu, subtilmente, a minha personalidade calma!


São tiros que esbombardeiam,

No meu germânico coração,

São falinhas serenas e mansas,

Escritas na palma da artistica e feitiçeira mão!


Este país faz-me lembrar o puro e alemão pinho,

Que só o traz o mal no cheiro,

Mas este meu rebento desenvolve um mesquinho espinho,

Este país fará da minha semente o mais terrível feiticeiro!


Atira-se para as ilhas a complicada, continua e fatal malha,

Perde-se a vida, ganha-se na família a batalha!


O meu bisavô, mesmo assim, nunca deixou de amar a sua família - mesmo que o filho varão o odiasse de morte, mesmo que o meu avô o chamasse de "o marido da minha mãe", mesmo que, durante os treinos de espadachim, tentasse magoar a sério o próprio pai, o pai sempre o perdoava. E, agora apesar de tudo, Christoph William é considerado como um dos grandes poetas bellantes. Em 1940, no quinquagésimo aniversário da sua morte, os vários feiticeiros bellantes do "Clube da Cimitarra" (uma associação secreta que promovia a defesa bellante, associada com os Demónios, os Deuses, os Feiticeiros e os da Resistência) chamaram-no de "O Kolmanatry Nobre", por este ser muito excêntrico e gostar mais da música do que da Magia.

domingo, 29 de maio de 2011

Espelho, espelho meu: há uma bruxa neste eu?

Uma perguntinha: já alguma tiveram como comentário ou mensagem "O senhor/senhora não devia postar isto porque é controverso, politicamente incorrecto e vai contra as leis do seu país?"

Eu já. Sabem que só por causa das minhas histórias no deviantart, tive imensa gente a dizer que eu era maluca, que eu devia ser mesmo uma bruxa, e que devia mas é parar de teclar no computador, porque nunca se viu uma portuguesa burrinha a escrever sobre mundos que têm erros gramaticais na tradução, falta de imaginação e má estrutura de personagens.

Até acredito nessas palermices, mas se me disserem que os meus vilões Nazis são uma desculpa para me armar em Santa Madre de Calcutá e defendê-los, eu juro que mato alguém!

Quer dizer: uma pessoa já não pode brincar com nada? E depois, há tantos ditadores no mundo (alguns fingem serem democratas), qual é o problema de falar sobre a verdade? Ah, pois é, a verdade dói, não é minhas senhoras "justas e que sofrem pelo Holocausto". É que Israel tem um programa de armas nucleares e a Itália tem aquele problema do Berlusconi. Não vou falar da Polónia, porque esses, são os que sofrem mais.

Falam como se eu fosse uma bruxa, ignoram-me, fazem de conta que eu não existo. Entre outras palavras: estou farta do deviantart! Se alguém é escritor, ou tem de ser uma estúpida de uma loura qualquer que só saiba escrever sobre "rpg"s - vocês sabem, aquelas coisas inspiradas na época medieval ou no "Senhor dos Anéis" ou em coisas ainda mais idiotas. Eu até gosto de RPG, eu sou uma fã de anime e gostei imenso do filme.


Há artistas para tudo. Mas, pomos uma brincadeira tipo aquelas revistinhas pornográficas dos Anos 70 ou uma cena picante do Assassino do Amor, e há uma rapariga a dizer: "Ele não era sexy!" Eu também nunca disse isso!

Ora que essa. O meu nome no deviantart é Princesshamanarta, baseado num dos nomes das deusas que eu criei para a Bellanária. Portanto, as pessoas pensam que eu sou cor-de-rosa, uso sapatos de salto alto e sou um zero á esquerda a Inglês. Encontrei pessoas fantásticas no deviantart. Muitas delas ainda são minhas amigas. Outras, simplesmente ignoram os meus comentários, e não olham para o meu ID, cartão de identidade virtual a cores com uma fotografia óbvia para esclarecer que sou uma bruxinha.


Conclusão disto tudo: nos meus blogs em Português, digo que sou uma bruxa (Tifon é o nome da família de bruxos mais importante na minha história da Jessica) e toda a gente gosta de mim. Digo que sou uma santa - como sou - no deviantart, e as pessoas pensam que eu sou um diabo.

Isto não tem um toque de ironia? As pessoas no deviantart pensam que estou possuída pelas minhas próprias personagens. Falta um pouco para eu mandar estes tipos à fava e desactivara minha conta no dA.

Que pensam vocês disso? Eu sou o tipo de pessoa que seja uma bruxa seguidora de Nazis mortos ou uma fada?

terça-feira, 3 de maio de 2011

A Bela Fragrância e Azul Esverdeado ( 2ª parte )


Estava con vontade de continuar isto ( http://tifon-ogritodaverdade.blogspot.com/2010/10/bela-fragrancia-e-azul-esverdeado.html ) , até porque hoje deram-me um excelente feedback...Ai, vida mergulhada da escrita, preguiçosa nos estudos!


O nariz afincado do samurai sem senhor pressentiu algo no ar, e rapidamente, retirou da bainha a sua espada de madeira. Podia não ser lá grande coisa, mas de uma coisa o Cocheiro sabia: continuava a ser um grande espadachim, e tinha a certeza que, se alguma das crianças o tivesse conhecido em jovem, ambas concordariam que ele era a melhor escolta e guia para um sítio inóspito e inseguro, cheio de mistérios, como a Bellanária.

- É melhor ir andado, pequenos senhores. – Disse ele, na sua voz grave, e tenebrosa, mas com um certo tom bondoso. – Quanto mais depressa chegarmos a Cyborg Town, melhor.

As faces triangulares de Fen Li coraram um bocado de receio, apertando-se sobre o seu manto, enquanto o guerreiro de cinquenta e dois anos guiava-os, a eles e aos cavalos até à principal estrada de calçada, que era a mais leal e segura de todo o reino, uma vez que dava até aos arredores da cidade.

Imediatamente, à medida que iam avançando pelo caminho, de facto, já se viam mais casas e poucas árvores, o rio acalmava cada vez mais, e de facto, a paisagem era muito mais agradável que sobre as montanhas dos Alpes das Sereias.

Haviam várias oliveiras, sobre um campo dourado de trigo. Era como um enorme aglomerado de algodão doce para a menina, que achava aquilo lindíssimo; os framboeseiros e cerejeiras enchiam todas as pradarias, que existiam no vale, enquanto as vinhas estavam ainda no pousio, fazendo um enorme campo branco e vermelho, como que num sumo de groselha, e, os campos de centeio estavam quase prontos, para que, no inicio do Outono, fossem colhidos.

As camélias recheavam as florestas e pradarias de um perfume que apenas poderia ser comparado com uma fragrância divina vinda do mel e das padarias, bem quentes, que faziam o pão.

A fronteira entre os Alpes das Sereias e Cyborg Town estava muito próxima, embora que Quing ainda se sentia desconfiada e apreensivo. Não acreditava sobre o que se dizia acerca da grande cidade atlântica. Com as mãos cruzadas, esperou até que chegassem até à fronteira, e certificar-se, um milhão de vezes, que a sua pequena irmãzinha estava a salvo.

O longo quipao que ela usava poderia muito bem colocá-la em ocasiões indesejáveis. Mexendo sobre a pequena espada afiada de cinquenta centímetros que tinha presa à cinta, tentou não dar muito nas vistas, quando entrou para o comboio. A cidade ainda ficava a uns bons oitenta quilómetros de distância, e não valia a pena perder mais um dia para lá chegar.

Mantendo a túnica chinesa castanha firme e simples de lã, com um cinto de couro gasto de há dez anos, o jovem reparou que o Cocheiro estava agora como revisor dos passaportes e guardião da segurança. Tentou ignorá-lo.

Afinal, estava apenas a fazer o seu trabalho…O comboio a vapor deslizava suavemente sobre os carris de ferro bellantes, e, à medida que se segurava naquele estranho transporte sem cavalos, o jovem aprendiz de guerreiro tentou falar com o velho samurai, e pedir-lhe desculpas pela malcriadez que tinha demonstrado nos Alpes das Sereias, mas não teve a coragem.

Por um momento, pensou vê-lo a sorrir, e Fen Li sorriu com ele, enquanto piscava os olhos para o novo dia, que agora, cintilava sobre as janelas de vidro; recostada sobre o veludo macio vermelho dos assentos do luxuoso comboio, ela pôde ver algumas fénixes a cantar, alegres, à medida que algumas ninfas dos rios, as naíades, acompanhavam as graciosas aves, dando pulos e saltos maravilhosos, como se quisessem imitar os golfinhos.

E foi aí, que ela, decidiu falar para com o samurai, de rosto deformado com enormes cicatrizes de guerra. Não tinha medo dele, quando olhava para os olhos azuis aguçados deste, pensava ver no coração dele uma alma justa e pura, que castigava os malvados, e ajudava os fracos.

Ao contrário do irmão, ela era sensata, e pensava duas vezes antes de julgar as pessoas.

Levantando-se com todo o maior dos cuidados, ela levantou a cabeleira negra com arames e ganchos preciosos de ouro – era impressionante como é que aquele rapaz poderia ser o seu irmão – e, agarrando-se a um dos assentos, perguntou, naquela voz doce:

- Falta muito para chegarmos até Cyborg Town?

- Não muito, talvez cheguemos adiantados ao horário. – Replicou o velho samurai, com orgulho e um sorriso raro no seu rosto rígido, amarelo, vendo-se que conhecia muito bem aquela ilha. – Daqui até lá é sempre a andar…!

- Como é que sabe? – Indagou, Quing, sempre do contra, e descrente, sentado inconformado, ainda de braços cruzados.

Encolhendo os ombros, o Cocheiro deu uma palmadinha amiga nas costas do jovem guerreiro.

Pela primeira vez naquela viagem, riu-se, e, Fen Li reparou que, à medida que se aproximavam da cidade, mais à vontade o samurai estava.

Isso era bom sinal.

Com um ar de contentamento, ele pousou os braços fortes e atléticos, brancos como a cal, sobre os assentos, e comentou, com uma risadinha amarela:

- Ora…! – Riu-se, mais uma vez. – Este comboio nunca falha, e nunca foi interrompido por nenhum bandido. Aliás, se eu não vos estiver a dizer a verdade, que me cortem a cabeça!

Nesse preciso instante, por causa de uma súbita travagem pelo comboio, uma das malas muito pesadas de um dos outros passageiros soltou-se das bagageiras, e, foi parar exactamente perto do pescoço do velho.

Ao verem pela janela o que é que se estava a passar, viram algo impressionante, uma estranha criatura, passeando sobre as ervas de esmeralda medicinais que existiam no rio, que era atravessado magicamente pelos carris de ferro inoxidável. Era um estranho homem, com patas de águia e torso e tronco e faces de homem, com uma cauda e asas de uma bela ave, escamosa, que, com um rabo de cavalo parecido com o que samurai usava, com o seu lindo cabelo verde encaracolado, tocava uma trompeta feita de algas e de jade, que reluzia naquele sol fantástico de Verão. A seguir a ele, vieram algumas naíades, irem cumprimentar os dois jovens com vários sagrados e divinos cânticos, até mais maravilhosos que um milhão de aves de toda a Floresta de Cristal. Várias Kinnaries, criaturas celestiais metade mulher, metade ave, com uma cabeça e peito nu de uma belíssima e encantadora donzela, ornamentadas com lindas joalharias de prata e ouro, tanto nas orelhas, como nos narizes, seios, pescoço de bege e amêndoa, coberto por várias jóias ovais de esmeraldas e safiras. Como se não isso bastasse, elas tinham o corpo inferior, patas e asas de cisnes, voando maravilhosamente em rasante pelas margens do rio Bênção. Elas eram conhecidas por serem excelentes nos seus cantos, em poesia, na dança, e eram as aias mais célebres e belas das Deusas. Embora os aspectos humanos tivessem cerca de, provavelmente, dezoito anos, as suas vozes eram mais de meninas travessas. Por estarem muito ligadas com as Deusas femininas, estes seres travessos não tinham idade, eram imortais. Com cerca de um metro e cinquenta e cinco, estas Fadas eram de uma beleza tal que até faziam com que lágrimas de alegria caíssem sobre Fen Li.

Havia ainda as lulas gigantes, que povoavam as profundezas do rio, os grifos e centauros que cavalgavam pelas pradarias, perto da floresta, que se dissipava mais, e cada vez mais Aosbelsi, os habitantes humanos da Bellanária, espreitaram pelas janelas das suas casas, para verem e cumprimentarem os dois jovens com grandes sorrisos, e não só. Os Bellantes tinham a tradição de receberem muito bem os visitantes.

Era um bom sinal, e Fen Li não descansou a ficar deslumbrada por semelhante comitiva de recepção.

Abanando a cabeça, evitando um sorriso, enquanto fungava de riso, o Cocheiro aproximou-se dela e comentou, contente:

- É lindo, não é?

- É…É…É maravilhoso!

Observando, admirada, aquelas belas criaturas que eram as Kinnaries, ela desejou poder ser como elas, e, quase naturalmente, sonhava poder ter asas de cisne, para que pudesse atingir os céus, e servir, honradamente, as Deusas, poder voar mais alto do que ser um mero objecto que os homens gostassem, ela não queria ser respeitada, e amada, por todos, …Mas parecia que esse dia jamais chegaria.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Bruxaria ao Som dos Sinos



Para a minha infelicidade, eu não escrevi isto enquanto estava na Bélgica...Mistura dos meus temas favoritos: ocultismo, mitologia, história, e histórias de terror! :D


Uma coisa completamene diferente das coisas que nomalmente escrevo, já que tive de me basear naquilo que vi sem dizer no poema aonde é que a história decorria.
















Uma folha a cair no meio do Outono,



Uma pequena gota de sangue a cair, a cair, a cair,



Suavemente do teu casaco, enquanto ela adormece, com sono!



Pling, pling! O cristal é mergulhado,



Sobre a boca dela, presa por grilhetas negras, na poça de altar,



E tal como os antigos Deuses professaram,



Tal como tu tinhas planeado,



A tua vítima terá de morrer sete vezes, para o feitiço funcionar,



Ela é uma camponesa desconhecida, perdida!











Ding dong, pling, plong!



Os sinos da torre do dragão dourado marcam



Marcam o ritmo das gotas de sangue que caem da tua aveludada mão!



Após o último momento de vida,



Perto da rua dividida,



"Pelo rio abençoado pela Mãe sagrada!"



A oração para o feitiço resultar,



Pronunciada com o sangue a escorrer das mãos de cabedal,



Pois esta é a verdadeira força do Mal!











Pling, plong! Ding, dong!



A canção é tantas repetida,



O gracioso sagrado corpo da donzela é possuído,



E à medida que o feitiço é construído,



Para obter a força que derrubará a Igreja,



É preciso beber do sangue da feminina virgindade!



Para fortalecer o poder da tua maldade!



Jamais outro homem ela amará,



Pois é na tua força que reside a cativa!











Os canais estão silenciosos,



E com a maior suavidade,



O ritual progride, com sussurros amorosos,



Ela sabia o que lhe tinha reservado o Destino,



Jamais escapará do monstro mesquinho!



Presa por desejo,



Presa por um só ardente beijo,



Dela saemos mais horríveis inpropérios,



Mas para ti não há correctos critérios!











O último suspiro, arrancado da garganta,



Fina, envenenada, corrompe a mulher santa,



E dela saem gritos de amor, dor e terror!



A lâmina afiada percorre com excitado furor,



O feminino interior,



E já o corpo dela é oferecido,



O cordeiro apetitoso pelo lobo é comido,



E no meio das ruas escuras,



Na cidade medieval, ouve-se um terrível gemido!











A pomba desvanece-se,



E dos seus brancos pêssegos, restam apenas cinzas,



Na alva, uma fieira de cabelos prateados tece,



As lojas ainda não abriram,



Mas eis que entra um homem com cabelos de oiro,



E paga, com um copo de líquido vermelho, uma tapeçaria,



No tapete, uma loura, formosa rapariga grita em agonia,



Mas ninguém a ouve ou a sente,



Isto não é bruxaria,



É religião!











E não há ninguém que desmente...pling, pleng!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Princesa Arco-Íris e o Assassino do Amor (Parte I)


Não tenho jeito nenhum para encontrar esta imagem num formato em que só se visse a capa, mas é o meu anime favorito... E pensar que eu há uns dias nem fazia a minima ideia que tinha sido feito em 1992 (que coincidencia no ano em que nasci!)

Há imenso tempo, uns dez anos antes da morte de Eris, nasceu uma menina no seio da Família Real da Bellanária. Mais bonita que todas as estrelas, com um cabelo cor de almíscar, olhos castanhos e grandes, faces redondas, pequeninas e cremosas como um molho perfumado de chocolate. Os lábios, esses, eram lindos filhos da Lua em quarto crescente como se fossem amoras tentadoras.

Esta prima de Eris de pele escura como a canela, abençoada com um sorriso de pérolas preciosas e brilhantes, tinha como nome Sarvahdinada, o que significa em Bellante: “Filha da Corrente Sorridente”.

Na altura em que a história se passa, tinha a jovem uns doze aninhos, que saltitava por entre as escadas de mármore branco de Suryadevnahutbal, o bairro da Cidade dos Deuses que incluía os vários palácios e moradias onde a numerosa Corte do Império da Bellanária morava. Nessas ruas enormes e limpas, existiam lindíssimos espaços verdes, e jardins coloridos, e também havia fontes frescas que a princesinha gostava de cheirar.

Com o lindo cabelo a balançar e a ondular como se fosse uma bandeira a esvoaçar ao som do vento, ela brincava com as aves, tentando apanhá-las com os seus saltos. Quase tropeçava no véu comprido e saboroso de seda que era da cor celeste. Usava um sari que lembrava os pinhos murmurantes do Norte, e tinha pendurado no cabelo da cor da noite sempre bem penteado, no topo da cabeleira uma flor de lótus branca, como todas as filhas de Neptuno.

Os poetas gabavam-lhe a inocência, os nobres exaltavam a sua beleza, os sacerdotes elogiavam-lhe a pureza, e os músicos admiravam a sua criatividade.

Mas a princesa Sarvahdinada não dava conta de nada, sendo tão pequena e tão dada à Natureza.

E ela com a sua trança semelhante a uma escultura polida de alabastro gostava de dar as suas escapadelas de vez em quando e ir brincar com as crianças da floresta, as Fadas que não trabalhavam no bairro destinado à nobreza, aos sacerdotes e à Família Real.

A mãe – a Rainha Melnjar – já lhe tinha dito milhares de vezes para não se aventurar na floresta. Era óbvio que a rainha estimava muito a sua filha, e não queria que nada de mal lhe acontecesse. Dizia que havia pessoas muito más e animais perigosos na floresta.

«Se te afastares demasiado do Sul, acabarás por vir ter às montanhas para lá das florestas iluminadas, do outro lado dos desfiladeiros, que é aonde os Demónios e outros monstros moram! E nunca dês conversa a estranhos ou a músicos deambulantes ou a mercadores. Esses são os piores malvados!»

Mas, que podia Sarvahdinada fazer? Simplesmente, ela adorava os campos verdes que davam para a floresta, e depois as crianças que eram filhas dos camponeses eram muito mais divertidas que as aias ou as damas de companhia.

O encanto das flores selvagens era muito mais deslumbrante que as flores e pássaros e outros animais que havia nos jardins de Suryadevnahutbal.

Apesar dos avisos, apesar das histórias que ouvia sobre jaguares, tigres, e outras criaturas assustadoras, a menina uma vez foi apanhar framboesas com umas amigas camponesas, no Norte.

Ia e descobria os vários caminhos da Floresta de Cristal, que, à medida que via, estavam cercados de cerejeiras, pessegueiros em flor, e algumas outras flores de Inverno como camélias e alguns narcisos. As árvores variavam de pequenos chorões a enormes castanheiros, que faziam com que o Sol reflectisse os seus raios num espectáculo de amarelos, dourados e verdes espantosos.

Mais adiante, elas chegaram a uma pradaria de oliveiras, ervas lamacentas, um campo de trigo e ainda um pouco frias do Inverno. Ao sabor do vento, elas reparam nuns ciprestes e sobreiros, e alguns pinheiros bravos que se estendiam de uma encosta abaixo, até a um vale.

De lá de baixo, vinham uns vapores a óleo de tortilha, queimado, juntamente com mel e cerveja. Alguém estava a cozinhar naquele castelo, bem no fundo do vale, de cujas chaminés pontiagudas e vermelhas saía aquele aroma apetitoso.

«Temos de ter cuidado.» Avisou repentinamente uma das camponesas. «Não podemos ir para aquele vale. Vive lá um homem muito mais perigoso que os Demónios.» Quando a princesa, com o cabelo penteado de forma diferente e um vestido cor-de-rosa, perguntou que tipo de homem era esse, nenhuma das duas raparigas quiseram responder.

Curiosa, ela reparou que, nesse vale que as duas meninas apontavam estava cheio de framboeseiros.

«Porque não haverei de ir a um vale onde as framboesas parecem ser tão boas e suculentas?» Deliciada com o vermelho macio dos frutos, muito semelhantes aos telhados das torres do castelo imponente, ela não resistiu em descer a encosta abaixo, sentindo-se mais livre que um passarinho.

Tão apressada ia ela, que se esqueceu que o dia já ia longe, e que o Sol não tardava em pôr-se. Mesmo assim, não tardou que as outras duas raparigas lhe seguissem para verem mesmo se os troncos molhados que flutuavam nas pequenas poças douradas pelo pôr-do-sol eram mesmo de pão doce e canela.

As três raparigas ficaram admiradas, pois tudo o que se encontrava naquele vale parecia ser comestível. Por que razão chamariam àquele vale de Vale da Morte? Não havia ali nenhum castelo assustador, nem nenhum feiticeiro malvado….Apenas poças de néctar de pêssego e umas árvores que tinham o leve sabor a menta.

Sarvahdinada entretanto não tardou a colher o maior número de framboesas, evitando assim às outras delícias que se encontravam no vale.

As outras duas raparigas, após algumas horas, começaram a sentir-se mal. De um momento para o outro, sem que a princesa desse por isso, enormes serpentes verdes com cabeças de mulheres malvadas saíram dos lagos para levar as meninas. Eram náiades, as mulheres do povo Naga, as servas e filhas da maldita Rusalka!

Por vezes, elas aproveitavam-se do chamariz do Assassino do Amor para levar umas raparigas inocentes para a Fronteira. Muitas meninas tinham assim desaparecido sem que os pais dessem por isso, não por culpa do Mestre Samiel, mas sim por causa daquelas mulheres demoníacas com caninos longos e olhos malignos de cobra. Algumas eram chamadas de nereidas, outra espécie de fadas más.

Mas alguém estava à espreita. Os olhinhos alarmados e indignados de Jerininantus dirigiram um poderoso feitiço de fogo, discreto para que as mulheres serpentes se fossem embora. «Elas não podem matar a próxima vítima do Mestre!»

Quando a jovem menina se apercebeu que tudo não passava de uma ilusão criada por uma estranha Magia Negra, ela ainda conseguiu ver que não tinha comido nem uma única baga de framboesa. Estavam todas ali. Estava prestes a escurecer, ela tinha de voltar para casa o quanto antes. Contudo, os ciprestes e os pinheiros bravos pareciam ser todos iguais, impedindo-a de subir a encosta.

Estremecendo, ela segurou o cesto contra o vestido cor de cereja. Custasse o que custasse, tinha de ser valente.

Repentinamente, algo fê-la parar. Um estalar de ramos a partirem-se, esmigalhados por passos fortes e pesados. Ela ficou gelada e voltou a cabeça, na direcção do som.

Era um homem de casaco espesso, botas pretas de cabedal e um chapéu de feltro bicudo com a pena de um falcão. Segurava uma bengala de cana de marfim, enquanto escondia a face oval por detrás de uma máscara branca.

- Quem ousou entrar nos meus domínios? Está aí alguém? O meu nariz não me falha! – Ele ergueu o rosto pálido, e ela conseguiu ver um nariz adunco de falcão. O velho bruxo de voz falsete e arrepiante era cego!

A boca de Sarvahdinada estava seca. Não tinha provado nenhuma das framboesas, embora as suas bochechas estivessem mais vermelhas que aquelas frutas pequeninas.

- Estou eu, meu senhor. – Respondeu ela, num fiozinho de voz.

A cara cansada do homem de trinta e tal anos fez um breve sorriso, ao inclinar-se diante dela.

- Uma pequena fidalga da Cidade dos Deuses, e ainda por cima jovem! Conheceria esse sotaque recatado em qualquer lado. – Ele sorriu para ela, como que a desculpar-se pela dureza da sua voz metálica. – Qual é a vossa graça, donzela?

- Chamo-me Sarvahdinada Di Neptunvs, sou a sexta filha do Nosso Rei. – Ela tremeu, tentando fazer uma pequena vénia.

Soprava no Norte um vento selvagem que ela nunca tinha visto nas costas quentes da Cidade dos Deuses. Fazia com que a sua volumosa trança se desalinhasse, e se parecesse com umas penas de um animal maravilhoso.

- Princesa! Eu sinto-me honrado. Uma pessoa de tão baixa condição, ostracizada da sociedade bellante como eu… – Ele endireitou-se num só momento, enquanto fazia uma vénia direita e formalíssima, dobrando as costas de forma perfeita e sem um único erro. – Que os Deuses a cubram de bênçãos.

Ela corou envergonhada, ao abanar a cabeça.

- Não. Eu sou apenas uma das filhas mais novas. Não devia fazer uma vénia assim tão formal como se eu fosse o príncipe varão.

O homem tirou a máscara, e ela ficou impressionada pelos olhos verdes lindos que adornavam o rosto pálido e efeminado. Contudo, as unhas das mãos eram longas e curvas, como as de um gato. O sorriso dos lábios tinha algo de falso, mas tentador, tal e qual o olhar de uma serpente.

- Não reconheceis este rosto, Vossa Graça? – Perguntou ele, num tom malicioso, sem qualquer sinal de agressividade.

Sem saber o que dizer – pois, por mais estranho que parecesse – a princesa encolheu os ombros nunca tinha ouvido falar do Assassino do Amor.

- Pois bem, devia lembrar-se! – Suspirou ele, numa voz distante. – Mas vinde comigo, não vos vou fazer mal…por agora.

- Porque haveria de fazê-lo? – Indagou ela, na sua inocência infantil. – O senhor tem cara de boa pessoa.

Então, ele envolveu-a com a capa quente de pele. Apanhada naquele enorme casaco, ela assemelhava-se a uma flor de lótus cor-de-rosa, delicada, apanhada por um corvo sinistro e lúgubre.

Sentindo um carinho que nunca tinha sentido antes, como uma rosa a desabrochar, ela sorriu, e agarrou-se à cintura esbelta e entroncada do homem de estatura forte.

No entanto, o Mestre Samiel não pronunciou uma única palavra. Ele gostava dos frutos bem verdes, e ela estava quase a desenvolver uns lindos frutos, como que laranjinhas doces.

Embora para ela, aquilo pudesse parecer uma amizade e simpatia, aquilo era um sinal de perversão e de uma mente suja! Se para os olhos doces e ternos de Sarvahdinada, aquela capa pudesse parecer-se com as asas de um anjo, na verdade, se alguém os visse, de certeza que não duvidaria que aquelas eram as asas negras de um morcego diabólico!

No entanto, quando ele tentou levá-la para a “casa” dele, a princesinha abanou de imediato a cabeça.

- Não! – Exclamou ela, um pouco a medo. – Eu tenho de voltar para casa, a minha mãe iria ficar preocupada se eu não voltasse a horas.

Subitamente, a mão grande e forte – como uma garra enorme – dele passeou no queixo dela, com um ar carinhoso e sedutor. O bruxo estava a hipnotiza-la, a ver se conseguia que ela fosse com ele para o castelo.

- Ah, mas ela não precisa de saber que Vossa Alteza está aqui comigo, ou precisa?

A pequena princesa recuou, assustada. Havia um estranho sorriso no rosto frio e calculista, o que fez com que ela sentisse um calafrio no seu coração. Como se alguém lhe estivesse a avisar para que não confiasse naquele homem. Os olhos, ocultos por debaixo do chapéu bicudo, davam a Samiel um ar inquietante e quase diabólico.

Lentamente, ela viu que as estrelas brilhavam no céu escuro sem lua. Cercada pelas sombras da noite, Sarvahdinada começou a ficar arrepiada na espinha.

Escutou uns breves passos atrás de si, e algo molhado e áspero lambeu-lhe as pernas. Antes que se pudesse virar, ela viu um tigre enorme, que era tão grande como ela.

Ronronando com um ar malicioso, o majestoso animal às riscas brancas e pretas veio ter até ao bruxo de uma fisionomia igualmente impressionante.

- Tigre da Escuridão, estás aqui… - O Assassino do Amor acariciou levemente o dorso do felino, que ronronava, como se tivesse acabado de devorar uma presa apetitosa. – Não temeis, Princesa Sarvahdinada, ele não vos morde.

Ela estava mais aterrorizada com a presença do homem de pesado casaco que lhe chegava até às botas reluzentes e pretas, que se assemelhavam a duas toutinegras de pedra dura esculpida. Engoliu em seco, cercada pelo animal selvagem e pelo seu arrepiante senhor.

Tremendo como varas verdes, a jovem ainda tentou pegar outra vez na cesta, mas não a encontrava em lado nenhum. O vento estava a ficar cada vez mais forte, e só lhe apetecia chegar a Suryadevnahutbal e ao aconchego das suas irmãs mais velhas.

Mas parecia que o pesadelo ainda mal tinha começado!

- A menina esqueceu-se de alguma coisa? – A voz anormalmente aguda tinha um tom falso e maldoso. Num estalar de dedos, o cesto de cachos das frutas vermelhas como o sangue, apareceram nas suas mãos enluvadas. – Estas framboesas são minhas, tal como tudo neste vale. Se as quiserdes, tereis de me dar algo em troca.

O que quereria ele em troca? Ela não tinha nada, a não ser as suas jóias e o vestido...ou pelo menos era o que a jovem de doze anos pensava!


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Cinco vidas num floco de Neve

Estava a ver um anime, e pensei em traduzir este pequeno poema que fiz para Heydrich (não é que eu admire o homem, é só porque estava a pensar no título da colecção que constituem o passado de Sara - só espero que se lembrem dela - e da minha ilha imaginária) em Inglês. Ainda bem que me lembrei de vir até cá, isto está mais deserto do que sei lá o quê! Enfim, consegui que o poema rimasse (uma coisa que não aconteceu na versão em Inglês).
Espero que gostem... http://www.youtube.com/watch?v=nMRzD39nIJ8&feature=BFp&list=WLE08F23FAE7E91A67&index=4 (adoro isto) e este video http://www.youtube.com/watch?v=e0n1_jvjt4U (Eh eh eh, o vilão do anime lembra-me os meus bruxos!)


Ooook....eu só espero que consigam apanhar o poema certo porque a formatação do blogger está lixada...

Pequena princesa de mel,

Anjo de chocolate vindo dos céus,

As vidas dos teus amigos,

Elas não passam de um floco,

De um floco de neve nas minhas mãos!

Chocolate derretido,

Passando delicadamente nos meus dedos,

Uma baunilha exótica nos meus lábios,

Envergada num vestido de marzipão,

Em caramelo, isso é tudo o que tu és!


És uma flor exótica no Inverno,

És o meu quente leito neste Inferno,

A minha bóia de salvação,

Sempre que eu preciso de escapar da escuridão!

Numa terra onde a neve nunca toca nos teus cabelos,

Lá, onde tudo o que eu personifico é fechado em mágico selos,

Onde este pesadelo (que sou eu)

Nunca te consegue alcançar, anjo meu!

Quem me dera poder ser parte de ti,

Oh, poder ser as pétalas das flores que beijas,

Oh, poder ser a nota, aquela nota tão doce em Si,

Oh, poder ser o vestido maravilhoso para descobrir,

Descobrir, do teu peito, as mais ocultas e vermelhas cerejas,

Um tesouro perfumado que eu nunca poderei ouvir!

No entanto, aqui será sempre assim:

Aqui, as vidas dos teus amigos,

Elas não significam nada, Nada para mim!

E se alguma vez olhares para o seu sangrento fim,

Não ligues, pois quero tocar-te,

Tão suavemente como toco esta melodia,

Se eu pudesse dominar-te,

Como o fogo domina a prata, triunfante eu seria!

Mas quem pode confiar,

Confiar no teu destino,

És um novelo de lã solto,

Uma marioneta sem fios (deixa-me apanhá-los),

Quem me dera poder falar contigo honestamente,

Tão sinceramente,

Como a tinta da minha caneta fala de uma morte certa! Se alguma vez te encontrar...


Eu poderei dizer com toda a segurança,

Querida Princesa,

Se não aceitares,

O meu gentil perdão,

O meu humilde pedido,

Então é porque a vida dos teus amigos,

Ela não vale mais...

Que um floco de neve,

Um floco de neve na minha mão!

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Assassino do Anjo

Como um fogo a arder na minha alma,
Eu tento compreender o que assole a tua aparência calma,
Uns olhos estranhos, que flutuam no meio do mar de tantas mentiras,
Tu não sentes, tu vives aquelas mentiras, aquelas pequenas tiras,
Com o coração, tu escreves o sangue das tuas próprias palavras,
Sabes o que é que penso acerca de ti, acerca dessas faces calvas?
Que, se tu quisesses, a tua amada, deste enorme poço sem fundo,
Deste labirinto negro, construido pelas mãos de um artista louco, a mim salvavas!


Tive um sonho, pequenino, como uma semente de mostarda,
A espreitar no meio dos teus lábios doces, havia uma pequena e escura lagarta,
Dos seus picos, saíam mil e um venenos , fatais para a humanidade,
Serei eu capaz de aguentar tal prisão, serei eu capaz de, através dos teus lábios,
Estar presa para todo o sempre à calamidade.
Não serás tu o assassino, não serás tu o frio tentador?
Sabes o que é que eu queria fazer agora mesmo, com esta apimentada dor?
Se tu quisesses, eu podia ser o teu anjo salvador.


Mas este anjo já foi apunhalado nas costas, das suas asas saem flores vermelhas,
E, para concluir esta maravilhosa canção, de entre todas as abóboras feias,
Será a que está mais podre, a que tu amarás mais?


Inspirada num poema de Fernando Pessoa...queria fazer com que todos os versos rimassem, só espero que tenha conseguido.

Um poema que não tem nada nada a ver com as minhas histórias para começar em beleza o mês de Março!