segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Um conto de dia de S. Valentim...
Não havia mais ninguém a viver ali...a não ser os fantasmas, é claro. Ela conseguia inalar o pequeno perfume a cinzas e a enxofre. Com os cabelos de seda, com sabor doce a jasmim e a farinha de tortilha, a jovem camponesa continuou a caminhar até às margens do fresco, rápido e tormentuoso Rio Bênção.
Os pais tinham-lhe avisado um monte de vezes: não vás para Losjafhden, é uma zona maldita, povoada de monstros e males inomináveis!
No entanto, as raparigas da mesma idade que ela, que viviam perto da floresta de Cristal, no lado sul, elas tinham-lhe prometido que se conseguisse passar uma noite nas margens do Rio Bênção - e não ficar assustada - então elas seriam amigas dela. E ela gostaria tanto de ter amigas. Era uma jovem bonita, mas magrinha, com uma constitituição de uma banana saudável. Os seus pequenos olhos castanhos cor de avelã tentaram alcançar as flores de pessegueiro e de amendoeira, à medida que o Sol se aproximava do horizonte.
Arranjando a manta de lã de ovelha colorida com pequenas espirais aos quadrados para se deitar, ela nunca pensou que dia era aquele, qual era o significado por detrás do calendário de pedra que havia no templo dedicado às ninfas do rio, na aldeia onde ela vivia. Mas o que é que importava isso, se já tinha comido, e se agora, mais do que nunca, tinha de provar o seu valor diante das outras meninas.
Ela olhou para a direita, e depois para a esquerda, e, aninhando-se com um monte de folhas, coberta com o sari de linho quente e branco, adormeceu.
Entretanto, o vento começou a soprar cruelmente sobre as folhas. Com os olhos fechados, a jovem rapariga não sabia que era estritamente proíbido aos humanos passear nas margens do Rio Bênção, quanto mais numa altura como aquela, precisamente naquela época do ano, em que a terra, despida da neve, fica mais escorregadia e é mais fácil cair às águas gélidas e profundas do rio sagrado... Muitas coisas se dizem sobre esta altura do ano, nas margens do lado de Losjafhden, em que nem a protecção da deusa Swertyhina pode salvar qualquer incauto das garras dos guardas do Rio.
Estes, ao contrário dos cisnes brancos do Verão, são máquinas sagradas, estes são aqueles que são venerados como os lacaios do grande esposo de Swertyhina. E já o eram naquela altura.
Pois então, aconteceu que à meia-noite, quando a Lua se escondia perante as nuvens escuras trazidas pelo vento do Norte, um homem de olhos azuis turquesa apareceu diante da jovem.
A sua pele branca, quase cinzenta, era suave e delicada. Envergando um manto de pele magnífico que lhe realçava as curvas, os músculos bélicos e as cicatrizes ásperas de batalha, o jovem tinha um rosto longo e angular. O seu cabelo negro e comprido resplandecia sobre o brilho das estrelas, preso por um fio com um dente de marfim canino.
Nos pés, ele usava umas botas de cabedal cinzentas, pequenas. E contudo, a sua altura descomunal de seis metros fazia-o ainda mais impressionante. Os seus lábios pronunciaram, numa voz grave, quase rouca, o nome da rapariga:
- Milyiamazatzl...acorda Filha do Veado! - Ele tratou-a não pelo nome, mas sim pelas pernas dela, que se conseguiam ver como as pernas de uma corça. Chamavam-se assim todas as raparigas camponesas, por terem tecidos e vestidos onde as pernas se conseguiam ver e eram mais magras que as mulheres nobres. Filha, mais nova, pequenina, eram não só nomes carinhosos que um pai Bellante trataria a filha, mas também os únicos nomes disponíveis para as raparigas que eram filhas de camponeses. - Estás nos meus domínios.
As pálpebras suaves ao toque abriram-se de repente, e, as narinas dela apanharam um leve cheiro a água doce e a algas molhadas. Realmente, o cabelo deste homem esquisito era mesmo parecido a algas. Não usava nenhum chapéu na cabeça, embora a sua lança fosse o suficiente para convencer qualquer um de que ele era um guerreiro.
Assustada com a aparência intimidante do jovem feiticeiro, ela recuou, com as pernas ainda no chão, fazendo-lhe reverência.
- Oh, peço-lhe imensas desculpas, mestre! - Os cabelos longos dela roçaram na erva húmida, à medida que se ajoelhava diante do aprendiz de feiticeiro. Uma rapariga humana jamais deveria olhar nos olhos de um feiticeiro. E no entanto, aquelas duas opalas azuis eram tão bonitas que ela não deixou de denotar um tom de espanto na sua vozinha. - Fazei o que quiser comigo, cedi à tentação de desafiar o poder dos Deuses e mereço um castigo. Mas por favor, não deixai que a minha mãe fique sem a sua primeira filha, que tanto a ama e é a única felicidade que aquela que me deu à luz tem nesta vida.
Ela estava muito preocupada com o que lhe poderia acontecer. A pequenina de olhos de avelã sabia muito bem o que acontecia às jovens humanas que não respeitavam a vontade dos Deuses. Entrar na propriedade de um bruxo sem a sua autorização significava para uma mulher humana a morte por chicotada.
Chorou silenciosamente contra a terra durante uns minutos, arrependendo-se de ser tão teimosa. O orgulho nunca é bom conselheiro.
Porém, o estranho feiticeiro ergueu uma mão em direcção a ela, como que a fazer sinal para que ela se sentasse de joelhos. Apercebendo-se desta atitude, ela fez de imediato aquilo que ele pedia. Ainda de cabeça baixa, ela escutou a voz grave do homem:
- Eu vou poupar-te a vida, pois és uma donzela muito nova e formosa. - Quando ela olhou de relance, a jovem conseguiu notar um sorriso nas faces longas dele. - Porém, não penses que te escapas de mim. Irás voltar, sim, à tua família, mas não antes de passares a noite comigo, no meu palácio senhorial. Fica aqui perto da Nossa Mãe Swertyhina e é uma das mais raras e preciosas moradias.
- Mas...Eu... - A camponesa quase gaguejou, sem saber o que fazer ou dizer. Ainda soluçava, nervosa com a ideia de ser prisioneira daquele homem por uma noite.
- Nada de queixas! - O feiticeiro rosnou num tom de quem não parecia estar para ouvir nem uma explicação da pobre rapariga.
E ela não teve outro remédio senão segui-lo, ainda de joelhos, sem sequer olhar para os olhos dele. Não sabia muito bem o que é que ele queria com ela...e como poderia saber, sendo ela tão nova e tão ingénua, demasiado para conhecer os mistérios dos prazeres da carne? Apertando a saia contra as pernas, ela estremeceu de frio, quando reparou que ele a encaminhava até ao lugar onde as águas eram mais profundas, o Silvikakltzam - abismo das silvas marinhas.
Nessa parte mais a norte do rio, poucos peixes se atreviam a subir à superfície, mesmo assim, havia alguns salmões a subir as inclinadas águas do rio. Havia um redemoinho guardado por portas de mármore verde-escuro, pintados com cores quentes e vermelhas. As montanhas dos Alpes das Sereias já se conseguiam ver perfeitamente, iluminadas pelos fantasmagóricos fogos-fátuos dos pântanos onde milhares de mortos jaziam.
- Bem vinda às portas do meu palácio, filha de humanos. - O feiticeiro despiu-se tão depressa que nem deu tempo para ela ver o que é que se estava a passar. Numa questão de segundos, o homem tinha-se transformado num enorme tubarão de água doce com um colar de jade perto das guelras, uma placa em ouro perto das barbatanas dizia o seu nome. - Eu sou um demónio feiticeiro, um tubarão com mais de cinquenta e dois anos. Segundo a Lei dos bruxos, toda aquela jovem que pisar o território de um feiticeiro da Magia Negra sem a sua permissão, será chicoteada até à morte. Porém, eu sou um demónio e não partilho a mesma lei dos bruxos humanos, embora me possa disfarçar de um. Vem comigo, minha querida, e nada receies, que o mundo lá em baixo não é assim tão assustador como pensas.
A jovem camponesa recuou, já de pé. O tubarão, já a nadar sobre as fortes águas do rio, parecia não ter dificuldades em nadar. Mas então e ela? Ela nunca tinha nadado nas águas do Rio Bênção. Debruçada sobre as altas muralhas que separavam a terra da água, ela pensou se estaria a sonhar, ou se aquilo era uma outra forma de os Deuses a castigarem. Esfregando os olhos, ela, com medo de se afogar, abanou a cabeça em sinal que não.
- Ò senhor espírito das águas, como é que eu tenho a certeza que não me afogo nas águas sagradas? Ou pior, se fico sem ar para respirar... - De pé e separada dele, era fácil para ela dizer essas mesmas palavras.
- Confia em mim, pequena criança humana. Assim que entrares com a cabeça na água, é fácil para mim ajudar-te a desafiar a Lei dos Homens. - Ele parecia menos assustador na sua verdadeira forma, embora ela continuasse a ter medo daqueles dentes grandes e afiados que sorriam para ela, no meio da escuridão.
Respirando bem fundo, ela pensou que seria muito pior se ela tentasse fugir dele. Não era nada aconselhável fugir à vontade de um demónio. Um demónio é uma representação das forças da Natureza. E ela não queria desafiar a Mãe Bilafassabnsair.
Ao entrar na água, ela reparou que duas mãos invisíveis empurraram-na para o corpo macio e polido, castanho-escuro do tubarão feiticeiro.
- Assim está melhor. - Pareceu a Milyiamazatl ouvir um ronronar a sair daquela boca cheia de dentes. - Agarra-te a mim, e não me largues, há outros demónios menos piedosos que eu!
E ele tinha razão, havia outros demónios muito mais perigosos no leito do rio, mesmo no fundo da grande cascata que desembocava num redemoinho e depois nos rápidos que davam origem ao rio, mais calmo, perto de Cyborg Town.
Como a raça humana estava tão longe agora...! Silvikaltzam - assim era chamado o redemoinho - era uma porta para um mundo onde habitavam as maldosas naíades (a espécie mais perigosa das fadas marinhas), os Nagas - os dragões metade homens com poderes mágicos - e os tubarões demónios, os tubarões que após atingirem os cinquenta e dois anos, adquiriam certos poderes e ficavam até mais inteligentes que os seres humanos.
Estas mesmas três tribos de demónios dizia-se serem as responsáveis pelo maior número de mortes a humanos.
«Porque razão ele chama a isto de moradia?» Ao deixar-se levar pelas barbatanas fortes e quase ásperas do sábio animal, ela reparou numa grande gruta, decorada com opalas, safiras, jade, quartzo, turquesas, e pérolas. Ela não conseguia ler muito bem a inscrição gravada na placa que indicava a entrada. O mais estranho daquilo é que ela conseguia respirar debaixo de água. As águas não eram de todo turvas, por que assim ela conseguia observar os vários peixes que viviam perto dali.
Ao maravilhar-se com os peixes demoníacos das profundezas, com as suas luzes minúsculas, e com as suas lanternas - como que se fossem feitas de magia - ela quase que largava as barbatanas do tubarão.
- Não me largues, pequenina! - Disse ele, desta vez numa voz mais preocupada. - Se outros tubarões souberem o que estou a fazer, iriam comer-te viva!
A pequena rapariga camponesa suspirou, com um pouco de medo. Ao chegarem à gruta, ele, como por um acto de magia, fez com que um manto de areia suave e branca cobrisse todo o chão polido de mármore, iluminado por fontes de lava quentes.
- Cuidado, pequenina, aqui, tudo é venenoso, excepto eu. - Ele, já no seu disfarce humano, mas com guelras, ajudou-a a sentar-se na cama.
Enquanto se punha comfortável, ela reparou como aquele mundo era baseado nas luzes das fontes vulcânicas, e como os peixes reverenciavam o demónio, mais velho e mais sabido da vida que eles. Ali, não havia estrelas ou Lua. Mal ela sabia que estava a mais de seiscentos metros abaixo da superfície! Estava tão escuro, que mal ela se deitou junto a ele, ela sentiu o calafrio amargo da boca dele junto aos lábios dela.
- És o meu tesouro, pequena humana! - Exclamou ele, enquanto carinhosamente acariciava-a com as mãos anormalmente quentes.
Muito vermelha nas faces com aquela atitude, ela não sabia o que havia de fazer. Mas ao olhar para aqueles olhos azuis profundos, brilhantes, ela não resistiu à tentação, e deixou-se levar pelo calor do momento....
Depois daquela noite, ninguém em todo o Norte da região do Rio Bênção sabe o que é que aconteceu àquela camponesa...mas esta história, foi um peixe que ma contou. Esperemos que na próxima semana, eu possa saber...Ou talvez não.
Talvez o peixe já tenha sido devorado por um demónio das águas frias. É Fevereiro, e nesta altura do ano, é preciso ter-se muito cuidado. Nunca se sabe o que pode acontecer. Os tubarões de água doce bellantes gostam muito do Inverno. Águas gélidas, mortais, que escondem mil e um perigos.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Artistas do Deviantart fazem obras de arte...

sábado, 22 de janeiro de 2011
Vampiros, os Bellantes? Jamais

segunda-feira, 1 de novembro de 2010
A Estátua da Vingança

Há muitos anos que eu já estou aqui, neste pedestal de pedra e de jade esculpido, perto do Poço das Três Bisavós da Senhora Murakami, perto da Praça dos Nove Gritos. Chama-se assim porque se supõe que foi aqui que a minha mãe, a Rainha Kalkashanta morreu ao dar-me à luz. Estou sempre habituada a ver os humanos a passearem por aqui, mas eles quase nunca me cumprimentam. Quando era mais nova, isso sim eram pessoas respeitadas, os homens. Tremiam, faziam vénias, com as suas mãos, beijavam a minha cauda de serpente e tudo! Agora sou apenas uma estátua de jade pintada, esquecida no meio de uma praça cujo nome raras são as pessoas que percebem o significado. A minha cara fria penetra bem dentro do seu coração, tenta adivinhar o que estarão elas a pensar sobre mim, e sobre os meus olhos amarelos de serpente. Mas ninguém quer ouvir o que uma estátua tem para dizer. A minha pele gelada de jade quase que não sente aquilo que alguns rapazes costumam fazer quando me atiram bolas de neve. Não sabem quem é que eu sou. Há coisa de poucos duzentos anos, costumavam haver pequenos rapazes que, por esta altura, colocavam oferendas em minha honra e enfeitavam o meu quimono de seda japonês e o meu roupão e túnica bellante de couro dourado com fitas brancas e azuis-claros. A representação da pessoa de quem eu era em vida, e da criatura magnifica, da inspiração que eu tinha sido para muitos dos habitantes do Norte – era algo que os fazia arrepios e ao mesmo tempo, uma sensação de protecção inigualável. Eu era a única pessoa que conseguia fazer frente ao Assassino do Amor, chinês maldito. Nós, as serpentes, somos como filhas da natureza: mesmo mortos, temos um pouco de alma para pensar, para ter olhos, para olhar para os Humanos. Os meus lábios, já gastos, outrora pintados em bétel, eram belos, e todos os homens tanto me temiam, quanto me amavam. A Senhora Murakami era uma amiga do meu peito, ela fazia sempre uma curta vénia e dava um ligeiro sorriso sempre que me via. Ela era uma filha da neve, ela sabe o quanto eu sofro. O meu cabelo, longo, negro tal como as penas dos corvos, costumava ser o mais invejado por todas as criaturas femininas. As mulheres humanas costumavam olhar-me com um lampejo de medo nos seus olhos. Afinal, que sou eu, senão a irmã gémea de Shamanarta, eu, Rusalka, a Rainha das Nagas?! A minha irmã simboliza a serenidade do Verão, eu sou o início da Primavera. Os humanos a quem os bellantes chamam de Russos puseram-me o nome de uma famosa fantasma eslava.
Quando soube deste tão insultuoso evento, fiquei com vontade de me agarrar ao rapazinho de cabelos de avelã que trocou a minha linda placa que tinha o meu antigo nome em japonês por um nome sei lá de onde veio. Que vergonha, agora já nem sei qual é o meu verdadeiro nome. Seja como for, eu não gosto lá muito do clima do Verão, muito menos o da Primavera. Prefiro o Inverno e o Outono, com as chuvas, a neve – oh, que coisa tão bonita que ela é, a cair ao pé do meu pedestal, enquanto os Homens morrem, estafados nos seus casacos pesados de pele de animais. Eu cá não me importo de os ver, eles é que nem dão pela minha presença, principalmente no Inverno. Se olhassem para os meus olhos, diriam que eu sou uma filha da neve, mas eu cá, sou mesmo uma filha de Jetwas, uma filha e uma irmã, escrava e rainha! Numa das minhas mãos, eu seguro um bastão de ouro – ou pelo menos, costumava ser feito de ouro, agora acho que é mais de bronze ou de ferro ou de outra coisa que substitua estes metais.
Quando eu era nova, costumava cantar nos grandes cabarets de Cyborg Town, quando os meses da Magia Negra chegavam. Quando eu era nova…Enfim, era tudo diferente. Os Invernos duravam mais tempo, os Verões eram mais curtos, e o meu corpo esticava-se sobre rapazinhos indefesos.
O meu corpo alto de mulher era atraente, todavia, ai de alguém que se esquecesse que a parte inferior era de uma serpente. Os meus quatro braços envolviam falsamente, com um ar tentador, aos jovens feiticeiros.
Antigamente, eles tinham medo de mim. Agora, ninguém olha para os meus lindos olhos amarelos, que conseguiam fazer com que uma mulher humana soltasse um grito de terror!
Em cada uma das faces, eu tenho uma bola vermelha pintada, para condizer com os meus lábios da cor do sangue. Com o umbigo e as ancas à mostra, eu desafio Jutierkajam, o grande deus águia demoníaco das tempestades e do mar revolto.
Não que eu me importe muito com isso nos dias que correm. Com os Russos a chegarem que nem baratas à nossa ilha, eu não tenho tido visto nada senão homenzinhos convencidos que julgam saber tudo sobre a vida. Já para não falar nos Nazis, que quiseram deitar-me abaixo, os idiotas!
Se eu pudesse, dava-lhes um enorme puxão de orelhas! Ah, mas eu não vou permitir que me tirem do meu querido pedestal, me dispam das minhas queridas roupas envelhecidas pelo tempo e que me partem em bocadinhos, como fizeram a outras figuras divinas. Afinal de contas, sou uma bellante, e vocês sabem muito bem o que é que se diz sobre as mulheres bellantes: “Quem quiser fazer troça de uma mulher das ilhas, é melhor que corra a milhas depois de a ter traído!”
Contudo, hoje estava tudo muito calmo. Um Kolmanatry de origem judaica parecia estar a tocar uma bela sinfonia, perto dos campos dos Von Tifon. Gosto imenso dos Kolmanatries. Eles não são como a maior parte dos humanos, eles conhecem a Mãe Natureza. Eu ouvia atentamente a sua melodia, e, pouco a pouco, senti-me como nos velhos tempos em que estava viva.
Aquele jovem rapaz humano decerto tinha um talento especial com o violino! Nunca tinha visto ninguém a tocar tão bem um instrumento, a expressar os seus sentimentos poéticos aos elementos, às cerejeiras em flor…E eu vi-o com os meus próprios olhos. Reconheci que era logo um judeu por causa do seu nariz grande e curvo, e da sua cara pálida…Tal como a neve!
Era belo, tão belo quanto o próprio Assassino do Amor, o meu eterno inimigo! Subitamente, um velho instinto impiedoso de matar invadiu a minha eterna alma! Aquele homem tinha uns olhos esquisitos, uns olhos semelhantes ao do antigo feiticeiro chinês que eu tinha enfrentado há milénios atrás.
Ele tinha matado várias mulheres da minha espécie, e eu tinha congelado de morte e de medo muitos dos homens dele.
Tínhamos, sem sombra de dúvida sido inimigos um do outro em vidas passadas. Ele, o Diabo dos Infernos, eu, a Mulher Serpente do Inverno e do frio do norte. Senti uma vontade de o estrangular com as minhas garras eu própria! Porém, eu não podia fazer nada, estava pregada àquele maldito pedestal.
Era a maldição que Samiel tinha arranjado para me manter quieta. Já que eu era da classe dos demónios, ele tinha que me manter presa em algum sítio. Escolheu, portanto, aprisionar-me numa estátua de jade pintada.
Mas enfim, não quero alimentar mais o meu ódio que tenho por aquele homem!
De manhã, fiquei mais calma quando o nosso Senhor de Quem Somos Todos Escravos passou por aqui. Subitamente, escutei gritos vindos do Château von Tifon. Que se passava ali…?
Eu sabia que aquele grito era da neta da Yui, mas nunca pensei que mais desgraças viessem a ter encontro àquela pobre e pura princesa!
Tentei cheirar com o meu pobre e fino, pequeno demais, nariz, o ar frio do vento, mas, repentinamente, tornou-se quente. Sua Senhoria estava a dar uma maldição àquela rapariguinha mestiça.
É claro que não era nada comparado com aquilo que me tinha acontecido a mim! Aquela princesa ia ser capaz de o ultrapassar...
E o facto é que, numa questão de minutos, eu já não escutava mais o ar seco do calor insuportável. Chuva. Estava a chover… A chuva lavava todos os meus problemas. Fiquei com os olhos um pouco salteados de lágrimas, mas não me importei. Desde que o antigo ducado ficasse mais fértil e as frutas mais maduras que nunca.
domingo, 10 de outubro de 2010
A Bela Fragrância e Azul Esverdeado

As escarpas dos maiores picos eram bem definidas pelo cor-de-rosa do crepúsculo, formando lindas gigantescas rosas como única paisagem, e, bem no fundo, na beira do precipício, as fantásticas quedas de água do Rio Bênção, cujas margens estavam cobertas de um manto verde e fresco, colorido pelas luzes românticas da madrugada, formando um lindo cenário natural. Estávamos no pique do Verão, porém ela agachava-se bem quente sobre o manto verde-escuro, escondendo, com inocência, a sua carinha amarela e pálida.
Havia uma certa magia em todo aquele sítio que a fazia sentir-se bem, tudo era tão inclinado, e apesar de ver perfeitamente que aquele caminho era o mais perigoso até à Bellanária, com apenas a uns centímetros de uma queda de cem metros até aos poderosos rápidos, que corriam violentamente contra os penedos e rochas duras que esculpiam o cenário do desfiladeiro que constituía o leito do rio. Nunca, em toda a sua vida, ela tinha visto tamanha força num só rio!... O poderio e majestade dele fascinavam-na tanto que nem reparava no irmão mais velho, que olhava de relance, desinteressado, para a janela.
Quing viu que os seus brilhantes olhos verdes se espelhavam bem lá no fundo do desfiladeiro, e lhe davam um ar brilhante azul esverdeado aos seus cabelos escuros. Fen Li era uma rapariga muito jovem e interessante – era óbvio, era a sua irmã – e com os seus treze anos, poderia muito bem ter arranjado o melhor dos maridos, com aqueles cabelos de lótus negro, penetrando bem dentro do seu coração. Ela era suficientemente simples – uma miúda de campo nunca é inteligente, segundo os princípios dele – para que um senhor de guerra a aceitasse como principal mulher. Mas, tão pouco seria assim tão ingénua quanto belo era o novo visual do novo lar deles. Era inteligente, era, porque sabia demasiado bem como falar Bellante, como também conseguia preparar óptimos cozinhados. A jovem escrevia como ninguém, e, para ser realmente franco, ela era muito melhor espadachim, cavaleira e guerreira do que ele próprio.
Quem lhe dera que não fosse tão lógica, tão forte, … Mas ela era assim; mesmo mais nova do que ele uns bons três anos, Fen Li estaria sempre a um passo à frente dele.
O cocheiro parou de repente os cavalos alados numa saliência, numa espécie de planalto de granito, onde se podia avistar um vale grande e inóspito, por onde o rio era desviado até a uma gruta, suficientemente enorme para o engolir, até às Florestas de Cristal. O ar ali era rarefeito, mas muito mais puro do que na capital, e, por isso, os ciprestes formavam uma muralha natural até lá. Ainda se podia apanhar o cheiro a laranjeiras e framboeseiros que de lá vinha. Era realmente um cenário lindo, pensou Quing enquanto ponha as mãos sobre os bolsos da túnica oriental, dirigindo os seus olhos para o vale, aspirando profundamente o cheiro a eucaliptos.
O cocheiro, com o seu quimono simples, arrastou a jovem rapariga até si, mas, os olhos verdes e rasgados do irmão mais velho apareceram sobre ele, como duas lanternas no meio da madrugada, e rapidamente, o velho cavaleiro japonês fez um gesto com as mãos.
- Jovem mestre Quing, eu não queria desonrar a vossa irmã, de maneira alguma, ela é mais do que uma formosa obra de arte, é uma espectacular obra de arte viva! – Exclamou, ardentemente, o cocheiro, recuando servilmente.
- Sim, mas não sereis vós quem há-de a ter como esposa, velho ronin deserdado, vagabundo! – Cortou friamente o irmão, contendo a espada na bainha.
Imediatamente, Fen Li interveio, preocupada, aproximando-se de ambos os dois, pondo uma das mãos de fora do manto verde-escuro, revelando um pouco da sua linda túnica azul-claro, que adelgaçava as curvas das suas ancas, desenhado através de seda, e com lindas, graciosas linhas douradas, de peixes e de dragões verdes. Os bracinhos estavam ocultos por detrás das longas, delicadas mangas, e os seus olhos negros brilhavam sobre a manhã fresca, como duas oliveiras.
- Por favor, honrado irmão. – Disse ela, serenamente, na sua voz de rouxinol, o cabelo estava apanhado por umas duas tranças lindas, que faziam ainda mais belo o seu rosto. – Temos de continuar, ou quereis derramar ainda mais sangue do que a nossa mãe quis?
Ao som em Chinês da palavra “Mãe”, o jovem aprendiz de guerreiro calou-se, em silêncio, porque sabia, sabia muito bem porque é que a mãe lhes tinha mandado para ai. Um arrepio passou-lhe pela cara, e lembrou-se de como a mãe tinha sido generosa ao enviar-lhes ao cuidado de um tio que nunca tinham conhecido em toda a vida. Estava habituado a ter parentes em sítios que nem sequer faziam parte das rotas migratórias chinesas. O que tinha sido combinado entre a mãe e o vagabundo samurai era que caso os miúdos não quisessem ir para a Bellanária, ele teria o direito de lhes trazer até à Fronteira, a Terra dos Demónios. E não estavam assim tão longe do caminho para o sinistro reinado de Tsesustan. Temia pela irmã, e temia também o que é que lhe poderia acontecer se o Deus do Mal lhe pusesse os olhos em cima.
Apenas rezava que tal desgraça nunca acontecesse…!
Acenando que sim com a cabeça, ordenou ao Cocheiro para que lhes transportasse até Cyborg Town, onde o desfiladeiro ficava mais largo, para que os rápidos acalmassem. Fen Li, por uns momentos, enjoo, quando o desceram uma escarpa, de maneira súbita, mais veloz e abrupta que um relâmpago, tão sibilante quanto o rugido de um tigre. Mas logo Quing acalmou-a, protegendo-a com os seus braços. Adorava-a, e jamais permitiria que algo de horrível lhe acontecesse.
domingo, 3 de outubro de 2010
Uma nova vida espera-a....

sexta-feira, 24 de setembro de 2010
James Dark Sword - criança no corpo de um homem

Os bellantes mais velhos dizem que ele era, antes da segunda grande guerra, um nobre milionário, um descendente de uma casa nobre ou real qualquer britânica, que foi esquecida pelo tempo. Para além da antiga polícia bellante - ironicamente chamada de Resistência - não se sabia mais nada sobre ele, nem aonde é que vivia, nem como. Só se sabe que tinha uma suposta irmã - Felicity Dark Sword - que sofreu muitos atentados contra a vida. Vivia uma vida de luxo e de prazer, sempre às custas do ordenado que recebia - e de mais outras coisas que nunca vieram à superfície.
De uma maneira ou de outra, James Dark Sword continua a ser um amante da boa vida e das festas, mesmo que isso faça com que ele corra, muitas vezes, perigo de vida. Pelas testemunhas que o viram, ele é um homem alto, bem constituído, de olhos verdes escuros e agradáveis, sempre com roupas bem elegantes (que, até de longe realçam a sua forma acrobática e atlética) , uma capa negra de veludo a cobrir-lhe o corpo másculo, e uma espada muito poderosa presa á cinta, embora o Conde Dark Sword seja um homem de muitos recursos.
Hábil nos flertes e nos galanteios, ele é a única razão pela qual eu e a Serpente de Fogo temos uma coisa em comum: odiamos o homem por completo! Primeiro porque é um dramático teatral de primeira, que quando fala em Inglês, parece que está a recitar uma obra de Shakespeare, segundo porque é um idiota chapado que faz com que a maior parte dos Tienenses o admirem, tanto quanto o temem. Não é como o Assassino do Amor, cujo as pessoas do Norte odiavam de todo. Este homem [o Dark Sword] tem o seu ar de cavalheiro justiceiro, que oferece uma rosa azul a uma dama e recusa-se teminantemente a lutar quando as "senhoras" estão por perto. Enquanto que o Assassino do Amor preferia manter-se nas sombras e não ser visto, Dark Sword faz os possíveis - e os impossíveis - para ser notado pela sociedade de Cyborg Town.
