segunda-feira, 31 de março de 2008

«...Eleonora, um espinho na bota...» (1ª parte)


Samiel apenas tinha medo duma coisa: que Eleonora fosse tão corajosa e esperta como ouvia dizer pelos seus esbirros na Floresta de Cristal. Ele sabia como meter medo a raparigas mais novas do que a própria Princesa, mas se por acaso alguma delas fosse mais inteligente e traiçoeira, ele punha-a logo de lado e matava-a num abrir e fechar de olhos. Esse era o truque do implacável Assassino do Amor; seduzir e destruir, o seu modus operandi, por assim dizer. Se uma rapariga se demonstrasse demasiado astuta para não se aperceber do que é que ele lhe podia fazer, nesse caso, ele a mataria. Era a única forma de escapar a uma infeliz prisão.

E, embora tivesse o conhecimento que Eleonora era muito cabeça no ar, ele estava receoso de que ela arrruínasse os seus planos. Não! Isso nunca! Ele iria mostrar àquela rapariga quem realmente mandava na Atlântida.


Ao pensar que tudo o que fazia estava, redondamente certo para a sua mente distorcida, esboçou um sorriso compreensível, como se perdoasse a si próprio por pensar em tal disparate.
Depois, ao passar uma das mãos pelo pêlo áspero do tigre num gesto carinhoso e raro, retomou a conversa, o que fez os dois guerreiros estremecerem.
Ainda absorto nas carícias que fazia ao seu animal, não deixava de erguer o olhar para os dois rapazes, mostrando uns olhos particularmente ameaçadores, aquele sorriso pessoal desaparecera por completo para dar lugar a um olhar bastante severo e amargo.
- Estou só a dar-vos uma versão diferente de como os acontecimentos se desenrolam entre as classes. Não tenho quaisquer remorsos acerca de trazer para a Atlântida males então desconhecidos para a maior parte da rude populaça, – começava a notar-se na voz de Samiel uma ponta de fúria. – Por isso, não preciso de atirar as culpas para cima de ninguém. Só acho que vós, Deuses devíeis estar mais alerta quanto aos malfeitores que infestam este país. Aqueles idiotas dos Demónios são mais estúpidos do que um grupo de burros a olharem uns para os outros. Perigosos, mas estúpidos. E vós sois duplamente ignorantes ao pensar que podíeis deixá-los por aí á solta.
Samiel soltou um suspiro sarcástico, seguido de uma gargalhada trocista e acrescentou cinicamente:
- Enfim! Se eu fosse a Neptuno, começava a prestar mais atenção aos demónios e bruxas que andam por aí no seu reino, pois comparado com eles, sou um santo!
Anúbis, farto de tanta conversa e lábia do Assassino do Amor, apontou ousadamente de súbito o seu machado flamejante ao pescoço do feiticeiro, com um ar bastante sério.
O jovem deus egípcio desconfiava que Samiel era o único responsável pelo desaparecimento de Eleonora. Afinal, porque razão haveria de confiar nele?
Há um mês atrás, ele tinha-o enganado e a fazerem o trabalho sujo de apanharem Claudinitiana. Por outro lado, o bruxo era a criatura mais perigosa de toda a Atlântida. Não haveria nada a temer com um feiticeiro negro ao seu lado. Mas, tinha que ter em conta que Samiel tinha, para além de outras mais alcunhas, o apelido do “Chefe da Camuflagem”. Com o Assassino do Amor, nada era verdadeiro!
Numa posição de ataque, ele lançou um olhar de menosprezo para o bruxo.
- Basta de paleio, seu louco! – Exclamou ele ameaçadoramente. – Ou dizes o que é que fizeste à princesa, ou acabas como batatas fritas para demónios!
Samiel, nada impressionado, fitou friamente o atacante nos olhos e, calmamente, pousou a cigarrilha num cinzeiro.
A arrogância habitual do bruxo começou a trabalhar instantaneamente, mas não a demonstrou com gritos ou insultos, como normalmente os seus homens faziam. Não, ele preferia ser mais gelado do que um iceberg e manter a dignidade que ainda lhe restava.
Se tivesse que haver sarilhos, certamente não seria o grande Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio que os iria ter, mas sim aqueles dois rapazes insensatos. Lançou o olhar mais gentil e brando que conseguiu arranjar e, num gesto diplomático, mas muito avisador, tentou falar com os deuses duma forma pacífica, estendendo as mãos para cima, afastando discretamente a lâmina do machado da sua garganta com as garras compridas e pálidas.
- Pousa isso, rapaz! – Ordenou. – Ainda acabas por te magoar...
Mas, antes que acabasse a frase com dois sentidos, encontrou uma flecha encostada ao seu nariz, com Indra, furioso, segurando nervosamente o arco.
- Dizei-me onde está a minha Eli imediatamente, por Trimurti, senão ides ter uma terceira narina para o resto da vida! – Cortou ele, num tom irritadiço.
Um pouco contrariado, Samiel encolheu os ombros inocentemente, e, a olhar para o tigre, que agora rugia num tom de clara ameaça para Anúbis e Indra, ele abanou a cabeça teatralmente, e murmurou baixo ao felino para se acalmar, que o “papá” ia só ter uma conversa com aqueles dois senhores.
De mãos no ar, ele mentiu com um ar aparentemente honesto aos dois deuses que vira, enquanto apanhava os espólios da caça, um demónio azteca que ele conhecia como Astilmutchan, o Senhor das Profundezas, a levar uma rapariga inconsciente. Na sua bizarra versão dos factos (inventados, é claro), ainda tentou perguntar indirectamente ao demónio quem era aquela beldade. «...porém, o imbecil nem falar convenientemente sabia, doravante que não tive a oportunidade para descobrir se ela era realmente a amorosa Eleonora.» Disse ele, fingindo-se com compaixão. «Pobre princesa... Quem sabe se talvez ela já não esteja entre os anjinhos...!» Insinuou ele com um sorriso escarninho e trocista.
«Bruxo mentiroso!» Vociferou Indra. «Ela não pode estar morta...Não! A minha prometida Eli não pode...»
«Cuidado, Indra!» Avisou Anúbis com um olhar incriminatório para o senhor daquele castelo. «Este tipo de bruxo é tão venenoso que até polui o ar que respira. Como é que tu és capaz de dizeres uma barbaridade dessas à frente do noivo de Eleonora?! Isso não pode ser verdade, Eleonora sabe muito defender-se sozinha de tipos pirados da cabeça como tu!»
O cruel feiticeiro fingiu-se admirado e, afagando ternamente a cabeça do seu tigre, semicerrou os olhos, como um cão apanhado em falta.
«Oh, peço imensas desculpas!» Exclamou num tom zombeteiro. «Pobre infeliz, não fazia a menor ideia...Então já marcou a data para serdes queimado vivo?
[1]»
Indra ainda queria enfiar o seu tridente pela goela abaixo do bruxo, mas, uma vez que a violência não resolve nada, decidiu tentar convencê-lo a ajudar na busca da pobre Eli.
Anúbis e o hindu disseram a Samiel que não faziam a menor ideia de como combater tal criatura, nem qual era a verdadeira forma desse demónio, mas que caso ele não os ajudasse, iriam contar ao Palácio das Reuniões que ele, o poderoso e temido Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio podia ter alguma coisa a ver com o desaparecimento de Eleonora, uma vez que tinha estado no local do rapto à mesma hora a que o demónio esteve.
Foi aí que o Assassino do Amor revelou uma grande perspicácia e sabedoria acerca de Demónios antigos e a melhor maneira de os derrotar.
«Astilmutchan pode disfarçar-se de várias maneiras, mas as mais populares são um bode, um elegante salmão falante e a dum corvo gigante. O seu verdadeiro aspecto horripilante é a dum porco com o rosto dum cachorro com raiva. Adora enlouquecer raparigas da idade da princesa com a sua música ensurdecedora que toca numa guitarra! Ele vive nos Alpes das Sereias, juntamente com o seu harém de mulheres doidas, onde, uma vez por ano, arranca o coração duma coitada. E, mesmo assim, estão vivas!»
Curiosos e aterrorizados com o que Samiel lhes tinha contado, imploraram para que este os ajudasse sem demora, por Deus, que não queriam ver a querida Princesinha louca.
[1] Samiel estava a referir-se, claro, à tradição dum sacrifício feito em certas zonas da Índia, onde, quando o noivo ou a noiva morrem antes do casamento, o outro irá ser queimado vivo com o defunto.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A arquitectura do Castelo Negro...

Indra e Anúbis nem tinham reparado na magnitude da morada de Samiel quando entraram pelas portas desta.

Estavam demasiado assustados e nervosos para apreciar a arquitectura bizarra e fascinante do castelo.
As portas eram abertas por um mecanismo tipicamente oriental fazia rodar todas as portas do castelo na horizontal e – e não com dobradiças – sempre que qualquer indivíduo tocava nelas. Resumindo, o castelo era uma autêntica mistura de estilos completamente diferentes, excluindo o exterior, que era gótico, com as monumentais fachadas do edifício escuro eram lindamente esculpidas com motivos acerca da magia: fadas, unicórnios, feiticeiros, dragões, grifos, serpentes e tigres guardavam todas as criaturas inferiores; ou seja, as Fadas, os Duendes, os Demónios, Gigantes, e Demónios, as classes primitivas. Os Deuses davam bênçãos bem do alto dos pedestais mais altos, onde se encontravam os cinco pináculos do castelo feito Yerthal, um mineral preto como o carvão, bastante quente e confortável que os bruxos costumavam usar para construir as suas casas. Algumas alas e divisões eram construídas com Uernal, um mineral branco, muito semelhante ao Yerthal, o que fazia muitos partes da casa ter-se a sensação de ver tudo a preto e branco, se não fosse os tons de sangue vermelhos e quentes que Samiel mandara pintar em algumas paredes e tectos. O Assassino do Amor era louco pela cor do sangue, dava-lhe uma excêntrica sensação de prazer, a cor que, para alguns era o símbolo da luxúria e paixão. Também gostava das misturas entre o preto e o branco, o azul e o prateado. Como ex. Chocolateiro, era um artista com um sentido de estética bastante fantasioso, e assim sendo, Samiel sabia quais eram os pigmentos certos para transmitir loucura (amarelo), esperança (verde), elegância (preto), pureza (branco), profundidade (azul-escuro) e poder (vermelho). Também conhecia um pouco de psicologia, talvez o suficiente para conseguir aterrorizar, seduzir, ou fingir-se sincero para qualquer um. Tinha um olfacto apurado, gostava de boa música, escrevia e falava com uma eloquência impressionante. O seu génio e gosto pelo requinte e obsessão possessiva pela perfeição não deixava de espantar qualquer um que viesse ter ao castelo. Qualquer bruxo se sentiria feliz num castelo como aquele, mas Indra e Anúbis não eram bruxos, mas sim deuses. A atmosfera do orgulho e da felicidade excessiva, sublimando assim a ideia do mal e do errado, não eram bons ideais para os Deuses. Os Deuses gostavam da beleza humilde e simples, pois aquilo era demasiado trabalhoso, até para eles. “Diz-me aonde moras e dir-te-ei como és” aplica-se especialmente às classes da Dimensão Mágica.
Era óbvio que Samiel estava em pensar em outra coisa que não a conversa com os outros deuses ou a arquitectura da sua própria casa.
Fumou elegantemente um pouco mais do tabaco, como se quisesse expelir todos os seus pensamentos sob as ondas azuis-escuros provocadas pela sua respiração gelada.
Estava a meditar porque razão tivera mandado Jerininantus pagar ao demónio para que ficasse de boca calada quanto ao “salvamento” de Eleonora do Reino das Nereidas. Por poucos momentos, esboçou um sorriso malicioso. Fora relativamente fácil manipular o demónio, só esperava que a nereida que induzira Eleonora não fosse considerada mais uma vítima nas suas garras. Um dos seus dedos acariciou suavemente os pêlos farfalhudos do tigre, enquanto pensava na forma de capturar a Princesa Eleonora. Não fora ele quem a estupidamente a envenenara com ervas tóxicas, mas sim os seus melhores diplomatas grifos. «…É claro que não…», não gostava de sujar as mãos com mulheres daquele tipo, no entanto, alguém tinha de fazer aquele trabalho infame de caçar mulheres como aquela nereida. Apenas ele podia fazê-lo: matar uma mulher naquela altura era como profanar um templo sagrado. Nenhum homem se atrevia a fazer mal a uma mulher, apenas Samiel tratava o homem e a mulher como semelhantes, mas isto não quer dizer que este tivesse pena de abusar delas, não. Ele não sentia quaisquer remorsos pelo que fazia, tal como não sentiu qualquer pena por maltratar Eris. “Eris…” O próprio nome da antiga amada soava para ele como uma doce brisa nos ouvidos, mas também como um lúgubre aviso, uma sombra do seu antigo aspecto, duma memória cruelmente apagada pelas areias do tempo, um triste espectro a vaguear pela sua mente infeliz. Depois da morte daquela deusa que ele tanto prestava homenagem, sentiu-se na obrigação de proibir os seus homens de alguma vez mencionarem o nome. O bruxo sentia que era seu dever ser assim frio (nunca mais amar alguém verdadeiramente em toda a sua vida), punir todos aqueles que, segundo as suas perspectivas, eram indignos de ter o privilégio de viver, e, por outro lado, achava completamente injusto que as mulheres não podiam ser tratadas duma forma tão pouco imprópria dos deuses, mas que estas também deveriam aprender a não desafiar a autoridade do homem. A sua mente distorcida trabalhava duma forma quase incompreensível ainda para um bruxo experiente. Umas vezes bom e amável, outras frio e malvado, Samiel não era nem mau, nem bom.
Embora detestasse Neptuno, adorava as filhas deste, e sempre as desejara conhecer: gostava de crianças, mas duma forma um pouco para o pedófilo.
O seu contraste pessoal ia de odiar e ignorar perfeitamente as leis do Palácio das Reuniões quanto à Magia Negra até respeitar prontamente os códigos mágicos de nunca ferir os inocentes.
Ele também não defendia o ser masculino, mataria um homem com a mesma frieza e crueldade que assassinaria e violaria uma mulher.

sexta-feira, 7 de março de 2008

O Encontro (2ª Parte)


Samiel, indiferente àquela dor toda, puxou elegantemente duma cadeira, e, com um sorriso irónico, encheu a sua própria taça doutra bebida.
Ambos sabiam como era de importância capital que encontrassem a Princesa Eleonora o mais depressa possível.
E Samiel também sabia que a quarta filha de Neptuno tinha desaparecido, na verdade, era isso mesmo que em que ele estava a trabalhar.
Encostou-se, confortável na cadeira, e, enfrentou os dois rapazes com um semblante geralmente curioso.
- Não se façam de comedidos. Sentem-se, por favor. – Disse com um ar convidativo e sinceramente hospitaleiro. – A que devo a honra de acolher dois talentosos guerreiros como Vossas Senhorias?
Anúbis foi o primeiro a recostar-se passo a passo na sua cadeira e bebeu precipitadamente dum só gole a aguardente, que lhe fez arder a garganta duma forma quase fatal.
Não estava habituado a bebidas tão fortes como aquela, a única coisa que bebia no Egipto era vinho branco.
- Se me permites, Assassino do Amor, nós precisamos de ti para um tipo de....demanda. – Disse ele roucamente.
O feiticeiro negro fingiu estar surpreendido, com um brilho de mesquinhice nos olhos.
Com as garras pousadas nos braços da cadeira, ele tamborilou desinteressadamente com os dedos no veludo cor-de-vinho da cadeira.
- Ah sim? – Murmurou com um tom escarninho. Depois, mudou para uma voz normal – Bom, eu adoro desafios, além do mais que eu ainda não fiz a minha boa acção do mês, não concordam?
Um silêncio de cortar à faca percorreu o salão rectangular com um tecto arqueado e alto, de forma a que a única coisa que conseguissem ouvir eram os miados inactivos do Tigre da Escuridão, que, ocasionalmente, bocejava, e, podia-se ver as grandes presas daquele formidável animal. O Tigre da Escuridão tinha, aproximadamente, dois metros e trinta de comprimento, e, com as suas riscas pretas e brancas, ele era, talvez, o único amigo de Samiel
A seguir, com um ciciar arrepiante, chamou o elegante felino para o pé dele.
Com uma mão a segurar no Frambinam e a outra a dar festas ao tigre, ele acrescentou num tom arrogante e suave, com os olhos verdes a brilhar funestamente:
- Eu sei do que é que estão à procura. De qualquer maneira, o demónio que levou a nossa adorável Princesinha é demasiado estúpido para a matar.
Indra não dizia nem uma palavra, estava demasiado assustado para falar fosse o que fosse. A princípio, quando entrou naquela sala, ainda queria dizer umas quantas verdades ao Assassino do Amor, mas, quando viu os olhos ferozes do animal ao pé de Samiel, decidiu não pronunciar uma única palavra. Era lógico que, aos olhos do jovem deus, aquele bruxo fosse um demónio por si só, mas um demónio terrível. Para o príncipe hindu, Samiel assemelhava-se a Ravana, o falso, maléfico e imortal Rei dos Demónios naqueles tempos antigos.
Por isso é que tinha tanto medo do mulherengo feiticeiro, cuja personalidade era tão parecida com a do demónio hindu.
De súbito, a pergunta que tanto o atormentava veio, naturalmente, como se já a tivesse ensaiado:
- Senhor, perdoai-me a impertinência, mas...Sois um demónio? Para conhecer tanto acerca deles e ter tantas mulheres à sua...
Mesmo antes que Indra terminasse a questão, o bruxo soltou uma gargalhada aterrorizadora.
- Não! De forma alguma! – Disse ele, rindo-se. – Na verdade, conheço alguns demónios, mas nunca em toda a minha vida, convertia-me num membro daquele povo horroroso! Os Demónios são criaturas loucas e extremamente perigosas, já tive alguns problemas em lidar com eles. Perturbadores e travessos, são ainda piores que as Fadas. Não é que eu não esteja seguro no rasto de Ravana, mas, uma vez que somos, ambos, de forças e carácter iguais, não nos damos ao trabalho de combatermos um contra o outro. Odiamo-nos mutuamente, contudo, não somos, propriamente, inimigos mortais.
- Não achas que essa é uma atitude bastante cobarde da tua parte? – Instigou Anúbis chateado. – Mas é claro, culpar os demónios pelos teus crimes é uma saída relativamente fácil. Afinal, sempre foi assim que te safavas de todas as tuas trapaças e mentiras: incriminavas os outros pelas coisas que tu tinhas feito. Sempre foi assim, não achas?
O feiticeiro tirou do manto uma boquilha prateada, com lindos desenhos célticos de magia negra e, acendeu um rolo de papel com um pouco do hálito ardente do seu animal de estimação, e pôs a cigarrilha na boca, fumando com requinte.
Recostado na cadeira, soprou pacientemente anéis de fumo, e, na imensidão daquele silêncio podia-se ouvir a sua voz quase átona, muito aguda e metálica a fazer pequenos assobios, tais como sibilares duma cobra. A sua voz, fria e invulgar, faria com que qualquer um congelasse de medo. Contudo, durante alguns minutos, fez uma curta pausa para apreciar o sabor do tabaco na língua invulgarmente bifurcada.

Anúbis estava um pouco apavorado a admirar o sítio onde o Assassino do Amor vivia. Contemplou plenamente o espaço, e suspirou, com ainda o sabor do álcool e de framboesa na garganta: lembrava-lhe os beijos arrebatadores de Racel. “Linda e perfeita Raquel”, como lhe chamava Anúbis.
Como ele desejava que a segunda princesa mais velha de Neptuno estivesse com ele. Anúbis e Raquel eram grandes amigos, desde crianças, e o jovem infante Deus sempre mostrara uma atracção por ela. Tinha um grande receio que Samiel a roubasse dos seus braços, mas o velho bruxo não queria nada com fadas experientes. Então, o egípcio limitou-se a olhar para o lugar onde estavam. Primeiro fixou o seu olhar em Samiel, que agora, alheado do mundo de todos, chupava de forma silenciosa o pó azul-escuro para depois o soprar elegantemente, formando através do fogo que estava pendurado no meio do cigarro um fumo quase irrespirável. Talvez fosse o efeito da droga que o bruxo fumava, talvez fossem os próprios medos de Anúbis, mas o jovem deus sentia um grande vazio na sua mente, como se alguém lhe tivesse arrancado todos os sentimentos doces e bons da vida, incluindo Raquel.
O espaçoso laboratório onde Samiel trabalhava, construído sob um estilo predominantemente gótico e modernamente manuelino tinha janelas grandes de pedra onde tinham sido decorados com cortinas vermelhas a condizer com as formas bicudas das janelas do tamanho de mísseis, era sustentada por arcos em ogiva, sob os quais os anéis de fumo da cigarrilha se elevavam até a uma altura espantosa. Aí, desapareciam como meras miragens no meio dum deserto escuro. . Nessas ilusões azuis-escuras e profundas, o rapaz ficou de boca-aberta quando jurou ver Raquel ou uma rapariga muito parecida com ela a dançar sensualmente uma coreografia provocante para um bruxo divertido. Seria o Assassino do Amor tão insaciável de carne feminina?...

As formas pequenas e esguias do fumo misturavam-se na cabeça de Anúbis como um gás tóxico!...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Rei dos Bruxos! (Informação)


Por várias décadas – mil anos aproximadamente – Samiel governou sob toda a comunidade dos Bruxos em todo o Mundo conhecido.
Mas…O que é que aconteceu quando este morreu de velhice no seu milésimo aniversário?... Tal como era de prever, sucederam várias batalhas sangrentas para saber quem seria o melhor Rei dos Bruxos, o novo Assassino do Amor: a Guerra de Poriavostin, a Guerra dos Puros, que demorou novecentos anos!
Em setecentos d.C., Enoque Pedro Di Euncätzio sentou-se verdadeiramente no trono do seu tio, reclamando-o por direito de seu discípulo mais fiel e herdeiro do seu enorme poder. Enoque foi um rei justo, e muito bom, castigando e presenteando com a mesma dignidade e requinte. A seguir, em 1200, seguiu-se-lhe um antigo carrasco de Samiel, Bernard D’Joll, um bruxo frio e sem escrúpulos nenhuns, que, mal se encostou ao trono, viu-se logo que não era boa pessoa.
Habituado ao típica superioridade dos Bruxos sobre todas as restantes criaturas, decidiu declarar guerra ás Fadas, com os seus “deprimentes e miseráveis sentimentos”, banhando-se em sangue numa batalha contra as Fadas. Em 1400, o entiado Gelrar tomou as responsabilidades, o que foi um grande alívio para a nossa sociedade.
No século dezoito, já não aguentávamos tantas guerras, por isso, decidimos servir Neptuno, protegendo-nos das fogueiras humanas.
Isto leva-nos até Kzenah Malagheti, que, nos finais do século, em 1780, destitui diplomaticamente o Rei Lebomi – de origem japonesa por sinal – e declara que daí em diante, as eleições para se tornar Rei dos Bruxos serão feitas de cem em cem anos, segundo uma balança, na estimativa de noventa até cinco candidatos.
Malagheti, em 1930, concordou com a Serpente de Fogo – talvez a única coisa em que aqueles dois concordaram – para fundar a SPV.
O meu Padrasto foi a excepção em pessoa! Primeiro porque só tinha trinta e seis anos mal lhe anunciaram que tinha sido eleito Rei dos Bruxos, segundo porque era um mortal, que não tinha quaisquer ligações com a Magia Negra.
Há mais reis dos bruxos para alem destes, mas os que de te falei são os únicos mais famosos em toda a Dimensão Mágica. Nos tempos da Época Medieval, do Renascimento e da Era Clássica até à proclamação de Kzenah Malagheti, houve entre os Bruxos várias intrigas, assassinatos, batalhas e conspirações para saber quem seria o próximo senhor absoluto da Magia Negra, resultando em terríveis guerras com as restantes classes, com os Humanos incluídos.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O Encontro (Parte I)

Nove da manhã. Samiel encontrava-se no grande trono de mogno verde-escuro, esculpido lugubremente com vitoriosas chamas de fogo, relâmpagos e ondas imbatíveis.
Ainda não tinha tirado o manto castanho-escuro de pele de urso que lhe dava um certo ar imponente e altivo da manhã e por andar por casa. No enorme escritório escuro, ele olhava, atento para uma pequena bola de cristal, e, ocasionalmente, passava a mão comprida e lívida com as unhas grandes e finas, quase como se estivesse a acariciar o esférico. Com a outra mão, envolta numa luva de couro de cor-de-vinho, segurava numa proveta com uma rolha lá metida, onde um gás com uma estranha propriedade fosforescente azul-marinho borbulhava ao contacto com extracto de diamante derretido a mil graus num recipiente de vidro igualmente estrambólico, com as formas curvilíneas duma lamparina. Conseguia-se ver uma pena a trabalhar por si própria, a anotar minuciosamente notas num pergaminho. Quando o papel do rolo acabava, este era assinado pela mão de Samiel e posto numa das enormes prateleiras de madeira de carvalho onde brilhavam sinistras linhas, curvas e contracurvas roxas e escarlate.
Estava um silêncio sepulcral, um tanto ou quanto inquietante, mas o astuto e maligno Samiel não se deixava abater por aquele ambiente claustrofóbico.
Na verdade, até gostava da escuridão. Habituara-se a viver com ela, e, só, naqueles raros momentos, apreciava ficar a trabalhar nas suas poções e feitiços sem uma única luz.
De súbito, ele escutou um som, uma batida meio trémula, que poderia ser confundido com o barulho dum pica-pau.
- Sim? – Disse ele friamente, na sua voz aguda e seca, ainda concentrado nas fórmulas.
Uma rapariga, de trajes esfarrapados e rasgados, com olhos lacrimantes e cabelo desgrenhado abriu ligeiramente as portas brancas. Estava completamente deplorável. As suas vestes amarelas-torradas não combinavam nada com o esgalgado corpo, repleto de cicatrizes e feridas profundas, traumas antigos de cruéis e longas noites de tortura. Se não fossem as suas mãos de framboeseiro, dificilmente se poderia dizer que aquela rapariguinha era uma fada. Pequena, e de cabelos roxos longos, a dríade caminhava em passos exaustos e descalços, o que lhe tornava ainda mais dolorosa a existência.
Nas costas, evidenciavam grandes marcas que alguém lhe tinha cortado as asas, e, nos pés, haviam duas correntes fulgurantes de ferro que lhe prendiam os movimentos. Como criatura vegetal, a pobrezinha gemia de dor sempre que dava um único passo, e esse feitiço cruel era exactamente para essa finalidade, apenas para a fazer sofrer ainda mais!
Este era o aspecto duma ninfa acabada de chegar a um mês ao Castelo Negro, e pelos vistos, ainda não se tinha acostumado às exigências de Samiel.
A quanto o espírito sanguinário e perverso do Assassino do Amor podia chegar...! Desculpava-se aos homens mais sensíveis que era apenas uma forma de garantir que as Fadas não ficassem furiosas….E que também não lhes escapassem das garras e atrapalhassem os seus planos.
De pele morena e bem contornada, a jovem parecia um peixe fora-de-água naquele ambiente escuro e demasiado humano para o seu gosto.
- Meu amo... – Gaguejou ela, quase como que a soluçar. – Estão aqui dois deuses que gostavam de ter uma audiência convosco. Mando-os entrar?
Os olhos, geralmente insensíveis e cínicos de Samiel ergueram-se para a pobre escrava e, por uns momentos, ela conseguiu ver uma ponta de satisfação nos lábios secos dele.
Acenou com o indicador esquelético para que a rapariga aproximasse mais, pelo menos tão perto que ela conseguisse ouvir a respiração do bruxo.
O que ela fez prontamente, e mal deu conta, os dedos do seu cruel amo acarinhavam o rosto frágil.
- Excelente, minha querida escrava. – Sussurrou num tom maldoso. – Vai lá chamá-los, sim?
Ela correu o mais depressa que pode e abriu de par em par as portas para que dois jovens bem feitos avançassem com receio uns passos, como se estivessem a espreitar. Anúbis e Indra mal podiam respirar, pois o cheiro nauseabundo do tabaco que Samiel fumava sentia-se por todo o castelo. De manhã, quando se tinham encontrado, não esperavam que os boatos acerca da nefasta atmosfera que se vivia naquela casa fossem verdade.
Pelos vistos, o Assassino do Amor gostava tanto da escuridão como da morte.
Quando entraram, viram que o enorme Tigre da Sibéria repousava no gelado tapete e espreguiçava ociosamente, soltando um enorme rugido de sono, mesmo ao lado de Samiel, que, algumas vezes, ainda lhe atirava com naturalidade um pedaço de carne crua, provavelmente uma perna de uma dríade ou a coxa duma ninfa.
Os deuses sentiam-se enojados e horrorizados com aquela visão terrífica, à medida que tocavam na sua própria pele de galinha para ver se o bruxo ainda não lhes tinha lançado um feitiço.
Aquele lugar era insuportável, no entanto, Samiel sentia-se completamente à vontade, afinal de contas, era a sua casa.
Ele levantou-se de um salto, e, com as mãos juntas agora ambas descalças ao nível da cintura, indicou duas cadeiras para os dois jovens se sentarem.
A seguir, com um sorriso falso, tocou minuciosamente um pequeno sino de bronze que estava colocado na mesa.
O Tigre da Escuridão, obviamente também se levantou, e, num gesto de carinho, ronronou gentilmente pelas pernas do hindu, que tremeu ao sentir o pêlo áspero e curto a roçar nas traseiras.
Samiel apertou vigorosamente a mão como se fosse um camarada de Anúbis.
- As minhas servis saudações, Anúbis e Indra. – Cumprimentou ele, bem disposto. – E, já para não falar de desculpas. Sinto muito por não apreciarem o meu estilo de decoração.
Os dois deuses trocaram olhares de desprezo entre si, um pouco tensos, uma vez que encontrar o castelo não tinha sido propriamente uma canja de de galinha.
Relutantes em sentarem-se, abanaram as orelhas, e, meio nervosos, acabaram por confessar em uníssono:
- Na verdade, Senhor Di Euncätzio...
- Quanta cerimónia, cavalheiros! – Interrompeu Samiel divertido. – Por favor, tratem-me por Samiel. Além disso, não sou assim tão velho como certas fadas mexeriqueiras dizem.
Nesse momento, um rapaz de catorze anos, de cabeça baixa, e não mais alto que os joelhos de Anúbis; entrou pela sala com uma bandeja de prata numa mão e uma ânfora de dois litros noutra.
Parecia um pouco deformado, mas fez questão de servir silenciosamente com um olhar agradável os dois deuses com duas taças de aguardente.
Com um sinal de Samiel com as mãos, o engraçado anãozinho foi-se embora por uma passagem secreta escondida intencionalmente nas prateleiras.
Os dois deuses olharam por uma última vez para aquela estranha criatura infeliz dum nariz de cinco centímetros e grande, de um cabelo ruivo e coloração vermelha na pele queimada.
O que é que lhe teria acontecido...? Sentiram um enorme dó do pobre coitado rapazinho de quarenta centímetros de altura. Seria uma das atrozes criações do Assassino do Amor?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Guerreiros da Justiça...


Por entre as árvores, ouvia-se passos apressados e velozes, tão rápidos como um relâmpago, e, embora não estivesse mau tempo, o rapaz de tronco forte e com uma coloração azul estranha pressentia que algo de errado se passara com aquela que mais amava. Adornado com uma armadura de ouro e fios de prata, com uma túnica de uma cor dourada resplandecente, o corajoso rapaz corria o mais depressa que podia, em socorro da sua bela donzela. Nariz fino e pequeno, olhos castanhos e encantadores, rosto quadrado e sobrancelhas expressivas com um cabelo negro a cair pelas costas era o aspecto de Indra, o Príncipe hindu com quem Eleonora estava prometida.
Armado com um arco e flecha às costas, o esbelto jovem percorria a floresta por toda a parte, mas nem sinal da sua adorada “Eli”.
Exasperado, e com suor a escorrer-lhe pela cara, só tinha a vontade de lançar um raio a Neptuno por não cumprir a sua promessa e o ter desonrado.
Segundo as antigas tradições atlantes, um matrimónio entre uma filha atlante e um estrangeiro é um compromisso que a nobre donzela aceita pela Nação, e, se na véspera da cerimónia do 1º dia ela faltar ao encontro com o noivo, isso significará um insulto pessoal ao esposo e ao reino que ele representa.
Sentia-se profundamente ultrajado, com sinais de irritação no lindo rosto de anjo, mas, no fundo, estava com pena de Eleonora. Afinal, ela não tinha culpa nenhuma daquelas idiotas tradições.
Além disso, como ideal do Povo Hindu, devia demonstrar ser sereno e sábio em todas as ocasiões, quer estas fossem boas ou más.
Suspirou, muito desgostoso. Quem é que poderia ter levado a sua luzinha para o paraíso?
De repente, um grande lobo castanho surgiu por detrás dele e cumprimentou-o, com a cauda a sacudir a brisa nocturna.
- Boa caçada, Senhor Indra. – Disse uma voz máscula de homem.
O príncipe riu-se à vontade, distraído, esquecendo-se por uns momentos que tinha perdido a sua Princesinha.
Parou rapidamente a correria, e, num abrir e fechar de olhos via um rapaz, cinco anos mais velho que ele, com uma túnica branca e que empunhava um grande machado flamejante. De tronco nu, Anúbis olhava para o amigo com um sorriso cúmplice no rosto.
Indra, muito contente por rever o grande e antigo companheiro de brincadeiras de meninice, apertou fortemente a mão do egípcio.
- Francamente, Anúbis! – Exclamou admirado. – Não esperava ver-vos...
- Calma aí! – Cortou o deus embalsamador de bom humor. – Podes tratar-me por “tu”. Somos irmãos de sangue, ou já não te lembras dos nossos tempos de crianças quando costumávamos brincar pela Floresta de Cristal?
Ao recordar-se dos tempos de menino, Indra também lembrou-se do sorriso inocente e nostálgico que Eleonora lhe dirigia sempre que o via.
Aqueles lábios carnudos e rosados que esboçava umas curvas agradáveis e doces, tão doces que até apetecia tocar.
Como sentia saudades da sua amada e, como ansiava poder apertá-la no seu terno abraço, acariciar aquelas faces puras de seda, tonificados com cacau e leite cada manhã.
Sentou-se, de pernas cruzadas, e com as mãos juntas meditativamente, como se estivesse a orar, e, num gesto pensativo, fechou lentamente os olhos.
Por uns minutos, ficou ali, com pensamentos sombrios a vir à superfície da mente. E se ela estivesse a correr mesmo algum perigo real...?
O que poderia fazer?! Sentia-se impotente por não ver mais uma vez o amoroso olhar de Eleonora. Na escuridão da noite, ele suspeitava que forças temíveis o observavam, de todos os lados. Homem ousado e de grande sentido de honra, Indra sabia o que é que o aguardava. Mal que se tinha apercebido que algo de mau acontecera a Eleonora, tinha evitado, de todas as formas, aquela opção. A floresta tinha muitos ouvidos, e ele já tinha ouvido falar de um bizarro “demónio negro em forma de humano”, cujos sinistros poderes eram clamados e receados pelas sílfides, as fadas do ar e da música.
Apenas um homem, suficientemente esperto, poderoso, calculista e malicioso como o Assassino do Amor seria capaz de dizer onde é que a sua querida e formosa princesa estaria.
Embora quisesse muito estar com a sua amada, nunca confiaria num bruxo tão traiçoeiro como Samiel.
Um arrepio passou por Anúbis mal leu os pensamentos do jovem e cuidadoso príncipe.
- Ih! – Indagou ele com calafrios na espinha. – Não vais pedir ajuda ao crápula do Assassino do Amor, pois não?
- Não tenho outra escolha. – Resignou Indra, um pouco preocupado, mas num tom decidido. – Mas esta noite...não. Provavelmente a besta já deve estar a dormir profundamente, ou a planear um roubo. Se quiseres acompanhar-me até ao Castelo Negro ao meio-dia, estás à vontade.
Anúbis deu generosamente a mão ao amigo para que este se levantasse, e tentou um leve sorriso.
- Sempre é melhor do que caçar serpentes nas margens do Nilo. – Disse ele, meio atrapalhado. – Então até daqui a um mês.
Depois das despedidas formais, os dois guerreiros combinaram encontrar-se nas margens do Rio Bênção às sete horas da manhã dentro de trinta dias, para que chegassem bem cedo à tenebrosa morada de Samiel.
A última coisa que queriam era interromper o almoço do Senhor da Magia Negra.
Assim, se chegassem bem cedo, teriam tempo para conseguirem convencer o feiticeiro a auxiliá-los na dura tarefa de desvendar o paradeiro de Eleonora.
Não seria fácil, mas, Indra, sagaz e esperto como era, teve a precaução de aconselhar Anúbis para que trouxesse todo o tipo de armas que conseguisse arranjar. Com Rwebertan Samiel Di Euncätzio, nunca se sabia quando é que viriam a precisar delas....!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A venenosa Nereida!


Ora, todas as noites de lua cheia, Indra aparecia sob a forma dum fantástico elefante branco, e, com a sua tromba majestosa, levava-a para a sua morada distante onde, secretamente, se dava uma noite de amor e compaixão, onde quanta beleza fora contemplada em ambas as sociedades, tanto hindu, quanto atlante.
E aquela noite era especial, pois Indra arranjara finalmente coragem para pedir o consentimento de Neptuno para dar a sua filha.
Contudo, estava atrasado, pois já o Sol aparecia e Neptuno ainda não vira de volta os olhinhos mais queridos de Eleonora. Era uma antiga tradição o pai ver o noivo antes da noiva, mas, naquele caso, Neptuno já sabia que aqueles dois estavam pré-destinados um ao outro, desde que nasceram. Na verdade, Eleonora começou a ficar com medo, logo que os pássaros e os animais pararam de de se mexer. Aquilo não era obra de um lobo, dum tigre ou de uma serpente. Esperava que o seu valoroso príncipe encantado das Índias de vinte e três anos viesse buscá-la no seu elefante e vivessem felizes para sempre numa terra de conto de fadas.
Adorava os braços fortes de Indra que a afagereria tão carinhosamente; os seus lábios firmes que ela sonhava poder tocar mal ele dissesse o “sim” qual pequenas formigas delicadas; os seus olhos castanhos e honestos, o tronco másculo deste...Enfim, Eleonora era louca pelo deus, e, dentro de semanas, quando fizesse os seus dezassete anos, os destinos de ambos seriam unidos pelos céus divinos e pelo amor...!
Tão perdida estava ela naqueles devaneios infantis que nem reparou num peixe, prateado e esguio que se debatia na terra para sobreviver.
- Eleonora! – Chamou numa voz meiga, mas fraca. – Princesa Eleonora! Ajudai-me, por Deus!
A rapariga, inteligente como era, primeiro desconfiou dos pedidos de socorro daquele ser. Franziu o sobrolho ao se debruçar cuidadosamente na relva fresca. Viu o elegante peixe de cinquenta centímetros a sufocar, e a saltitar de um lado para o outro.
Como poderia um peixe falar...? Aquilo era quase tão impossível de acontecer como o estranho atraso do amigo Indra.
Encolheu os ombros, um pouco confusa e atrapalhada, sem saber o que havia de fazer ao coitado animal.
Correria o risco de confiar num peixe falante, ou faria a coisa mais certa e o devolveria ao seu verdadeiro habitat?
Era uma escolha um pouco difícil de fazer...Meditou durante um momento, a tentar ignorar a voz doce do peixe.
Como rapariga bondosa e misericordiosa que era, Eleonora não deixou de ter pena do pobrezinho.
Então, com um carinho e preocupação de mãe, apanhou-o delicadamente, e, num instante, deitou-o com muita cautela ao lago – o mais cauteloso que se pudesse ser quando o peixe enorme, um salmão, pesava quarenta quilos.
Mal que se viu novamente perto dos nenúfares brancos que o rodeavam, mergulhou feliz para as profundezas da água.
Quando a rapariga pensava que ele já não voltava sem se quer ter agradecido, deu de caras com uma enorme corrente de água que lhe molhou logo a cara.Sorriu, meio apanhada de surpresa, e observou com um ar divertido as espantosas acrobacias que o peixe executava, dentro e fora de água.
Os olhos azuis e cristalinos, separados do peixe, brilhavam de satisfação.
- Estou-vos muito agradecido, Princesa. – Disse ele dentro de água, numas bolhas que soltava e que ela compreendia perfeitamente. – Salvastes a minha vida, e digo-vos com todo o maior respeito, Vossa Alteza, que a vida dum peixe é algo simplesmente delicioso. Se houver algo em que eu possa retribuir, por favor, não hesitai em dizê-lo agora!
Eleonora abanou a cabeça humildemente, com os palmos das mãos levantados diante do peixe.
- Oh, eu não desejo riquezas nem poder, meu peixinho. – Respondeu a menina. – De facto, há apenas uma coisa que eu quero: o meu amor, o valente caçador Indra, ainda não voltou das suas desavenças no Reino da Ásia.
Com um ar suplicante, mas dócil, ela acrescentou, num tom receoso:
- Se sois um peixe viajante e experiente, podereis dizer-me onde é que ele está e se está bem de saúde?
O airoso e arisco peixe saltou da água por um momento e, fez uma coreografia gentil, abanando vigorosamente a barbatana caudal vermelha e achatada de um lado para o outro, em sinal de negação.
- Lamento, Eleonora. – Disse, numa voz, que não deixava de ser harmoniosa e agradável de se escutar. – Em toda a minha vida de peixe, nunca me deparei com semelhante nome. Porém, se necessitardes da minha...
Inesperadamente, o peixe desenhou torpemente um maravilhoso castelo, com pináculos tão altos como belos, com os seus movimentos na água, parecendo muito contente, para admiração da jovem fada.
- Já sei! – Exclamou. – Um feiticeiro branco amigo meu é um sábio conhecedor de todas as artes mágicas. Talvez ele consiga adivinhar onde o vosso amigo se encontra neste preciso momento.
Dito isto à pressa, ele mergulhou novamente até ao leito do lago e, num rabear misterioso, desapareceu por entre as algas como se fosse açúcar a diluído.
Curiosa como era, Eleonora seguiu-o até ser puxada subitamente por uma força sobrenatural debaixo de água, que lha deixou inconsciente!...
Uma gargalhada duma mulher maliciosa ecoou por entre as árvores da Floresta de Cristal, satisfeita por obter por fim a sua vingança!